sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Raiva sim

Esta semana, com o início das aulas, pude dedicar mais tempo a ler diversos blogs,  e um post, em especial chamou-me a atenção. Foi no blog da Roberta Lippi num post entitulado "felicidade aos 6 meses e aos 3 anos".
A sinceridade ao revelarem seus sentimentos, que envolvem o duo mãe/filhos me fez quase comentar lá no blog "vai passar". Seria sem valor escrever isto. Todos que se envolveram ali sabem que vai passar.
Então quero trazer momentos vividos para o lado de fora do meu coração.
Meu primeiro bebê foi regado a shantala e música suave, passando por banhos com óleo de lavanda e também cheirinho de camomila para acalmar ( o segundo, menos, mas também teve!). E tudo isso tendo como pano de fundo aquelas imagens lindas de revistas de gestantes no jardim sentadas em confortáveis cadeiras, mesa de café da manhã exuberante e o rebento ao seio com os suaves raios do sol a acariciar-lhe os delicados fiozinhos de cabelo.
Eu não falava alto, não o repreendia com um tapinha nas mãos e não gostava que brincassem com ele dando aquelas mordinhas nas coxas gordas ou nas bochechas. Tinha formado minha teoria de que se ele não tivesse contato com essas manifestações, digamos, um tanto exaltadas, quase agressivas jamais teria tal comportamento.
E tudo ia bem até que lá pelos seus 1 ano de vida agarrou nos cabelos de um outro bebê sem motivo qualquer - não havia disputa de brinquedo, nada. Agarrou e ao soltar tinha entre os dedinhos vários fios dolorosamente arrancados.
Muita conversa, explicações e continuou acontecendo por um bom e longo tempo.
Vergonha, saia-justa, mãe que não dá limite ao filho, senti e também ouvi tudo isso.
Passei a estar com ele em lugares públicos quando não havia mais ninguém e deu certo...
Soou a campainha em casa e quando eu abri a porta ouvi em estrondoso berro da garotinha de mesma idade. Agora ele tinha um chumaço de cabelo em suas mãos.
Nesse dia eu chorei muito na frente dele, gritei e quando meu bebê dormiu e eu entre lágrimas olhava para aquele rostinho tão lindo, tão angelical que tantas vezes eu fotografara exatamente naquela posição com os olhinhos fechados, boquinha entreaberta, gritei ao seu lado com a voz sufocada no travesseiro "eu estou sentindo raiva de você, muita raiva, como pode fazer isto?"
E toda a música suave, o cheiro da lavanda, o meu cuidado em não ter nenhum gesto hostil para que tomasse como exemplo?
Senti-me como aquelas árvores que são só tronco e ganhos, parecendo sem vida. Não havia mais paciência, havia raiva e desilusão.
Mas como falar disso? Não combina com a maternidade vestida em sedas esvoaçantes.
Uma ajuda profissional me disse que não me preocupasse, que meu filho não seria um delinquente por estar tendo aquele tipo de comportamento com um ano de vida.
Segui firme e hoje nem me lembro quando acabou, como findou aquele tormento.
Quem hoje conhece o menino que tantos fiozinhos arrancou, acha que não é a mesma pessoa.
Esta criança adorável não faria coisas assim.
Volto então a ouvir música suave, a massageá-los com cheirinhos de bebê e agora sei que tudo isso surtiu o efeito desejado, porque todo o resto passou.
Na memória trago também a lembrança de uma história da tradição oral chinesa:

Ao herdar o trono um jovem príncipe é homenageado por vizitantes nobres dos mais suntuosos reinos distantes.
Presentes valiosos são depositados aos seus pés, riquezas e mais riquezas.
Um nobre deposita aos seus pés um pequena caixa mas diz como o jovem terá que usar aquele presente.
-Vossa majestade deve saber que nesta pequena caixa há um presente de inestimável valor. Porém só poderá ser usado uma única vez quando houver muita dificuldade. Reflita bastante se realmente precisará abrí-la porque esta caixinha lhe ajudará uma única vez.
Anos se passaram, veio a primeira adversidade, a vontade de resolver tudo com o misterioso presente, mas achou melhor não abrir.
Outras dificuldades surgiram e foram solucionadas sem a caixinha.
Já em idade avançada, com seu reino imerso em tão desfavorável situação, resolveu que seria a hora de usar o valioso presente.
Havia um pequeno pedaço de papel escrito - Tudo passa. Não passou das outras vezes?  

Um comentário:

Roberta Lippi disse...

Oi, Ana Paula, obrigada pelo apoio e pelas palavras!! Sei que esses comportamentos são cíclicos e que as crianças passam por muitas fases. Mas é muito difícil passar por isso no calor do momento, né? A gente sabe que passa, mas é inevitável sentir essa raiva quando seu filho tem ataques de birra várias vezes por dia.
De fato, a coisa já melhorou depois que ela voltou para a escola. O comportamento dela melhorou bastante e eu também estou mais calma.
Obrigada mesmo,
Roberta