Houve uma briga, daquelas feias e barulhentas, aqui em casa. Daquelas que os vizinhos colocam a cabeça para fora, querendo dar uma espiadinha.
A briga envolveu inclusive vassoura. Uma vassoura piaçava.
É que o cachorro comeu o cabo da vassoura da minha filha e ela começou a chorar e eu então ralhei com ele. Onde já se viu comer o cabo da vassoura piaçava? Se der algum problema nas suas tripas, eu não vou socorrer e vou deixar que morra.
Daí, a menina se pôs a chorar mais ainda, porque não desejava que o cachorro morresse de vassoura.
Ela gostava da vassourinha, e ainda bem que era miniatura, mas ela gosta mais do cachorro e não queria que ele se fosse assim... As pessoas, quando ela explicasse que o cachorro morreu de vassoura, iriam pensar que eu, a mãe, dei uma vassourada nele, não compreenderiam que ele roeu e engoliu o cabo e algumas piaçavinhas.
Entre lágrimas, remorsos e choros, peguei a chave e saí.
Entrei numa loja requintada de produtos para cachorro. Expliquei a situação da vassoura para o moço que, solícito, trouxe uma ração francesa. Garantiu que essa ração faria uma verdadeira faxina no interior do animal. Fiquei com um pouco de medo dessa história de faxina interna e também do preço da ração, mas acabei trazendo para casa. O moço me garantiu que o bem estar que esta ração proporciona é o mesmo que você estar vendo o por do sol da Torre Eifell. Como nunca fui lá, achei melhor acreditar.
Problema resolvido então.
Mas o problema é que o cão não comia a tal ração.
Comecei a me preocupar. Seria os restos de vassoura fazendo mal para o bicho?
Todos os dias pela manhã, ao invés de comer, e;e me olhava e saía literalmente correndo para as bandas da despensa da casa, que fica para o lado de fora.
Entre a correria, um dente para cair...
... não dei atenção à inapetência do cachorro.
Até que eu precisei ir até a despensa e me deparei com sacos rasgados.
Chamei pelo marido que disse sem pestanejar: "é rato".
Ai, ai, ai. Agora vou ter que arrumar um gato. E como será a convivência do gato com as crianças e o cachorro?
Não era hora de pensar nisso.
Era preciso se concentrar no rasgado. Suas formas, suas peculiaridades.
É barata -eu disse.
Não, barata tem a mordida menor. É rato - afirmou marido.
Arrumei a bagunça feita pelo rato e na manhã seguinte, quando o cachorro me olhou e disparou para as bandas da despensa, fui ligeira atrás dele. Porque, e se ele resolvesse comer o rato? Aí seria o fim.
Para minha decepção, flagrei-o rasgando o pacote de ração reserva. É uma ração que compro no mercado, não tem nada de especial, não é francesa. É ração tipo cesta básica. E era ele, o cachorro, que havia feito aquela bagunça. Havia rejeitado o cardápio francês e preferia mesmo um PF - prato feito - no balcão, simples. Tomara não tenha engolido nenhum pedaço da embalagem.
Ah! Já ia me esquecendo.
Será que ele é tão fino e educado que come ração com talher?