Oi Seu Zé da Geladeira!
Talvez o senhor nem se lembre de mim.
Acho que nos conhecemos logo após aquela Frigidaire azul que minha mãe odiava e eu nunca soube o porquê.
E então chegou lá em casa uma geladeira vermelha, de segunda mão, mas para minha mãe era melhor do que aquela maçaneta. Parece que consigo até ouvir o barulho dela aqui nos recônditos da memória.
Até que um dia a cozinha amanheceu cheia de água e a porta da geladeira vermelha não fechava de tanto gelo que havia se formado no congelador. Parecia até que ia explodir em gelo.
A sorte é que era sexta-feira, dia de feira. Corremos até lá e fomos direto na barraquinha do Seu Zé do Fogão, aquele que sempre vendia uma espécie de injeção com agulha bem comprida caso o fogão adoecesse, e pedimos a ele que avisasse para o senhor ir lá em casa: era caso de vida ou gelo.
Ah! Eu me lembro direitinho quando o senhor chegou vestindo um macacão cinza chumbo e o senhor também tinha um cheiro estranho. Um cheiro cinza. Seus braços também eram cinza.
O senhor trazia uma maleta com as ferramentas que me lembrava a mala do gato félix! É que naquela época eu assistia ao desenho do gato félix, sabe.
Após rápido exame, o senhor já foi dizendo que o problema era uma desregulagem no gás. E tratou de me mandar ir para longe e deu-lhe gás na geladeira.
Não durava muito o seu concerto não, seu Zé da Geladeira e mamãe ficava muito brava porque virava e mexia lá estava aquele iceberg que não deixava a porta fechar e lá íamos nós atrás do senhor na feira.
Nestes dias mamãe ficava tão nervosa que nem pastel ela lembrava de comprar. Uma pena.
Até que um dia, o Seu Zé do Fogão falou que o senhor tinha morrido.
Nós ficamos tristes. Mesmo que mamãe sempre reclamasse que o senhor cobrava muito caro, nós já havíamos nos acostumado com a sua maleta, o seu cheiro cinza.
E eu não sei dizer se foi porque o senhor morreu ou a situação melhorou que nós compramos uma geladeira novinha, da cor bege. Era a última moda em termos de geladeira.
Sabe, Seu Zé da Geladeira, tanta coisa mudou desde que o senhor se foi.
Aquelas geladeiras azuis que mamãe não gostava de jeito nenhum, viraram obra de arte.
Precisa ver que belezura! Que será que foi feito com todas aquelas geladeiras que o senhor tinha na sua garagem que nem dava quase para entrar lá. Foi o Seu Zé do Fogão que contou.
O senhor precisava estar vivo pra poder acreditar no que está acontecendo com as geladeiras neste mundão de meu Deus.
Aonde o senhor estiver, senta. Senta que é pra cair de tanta modernidade.
A moda agora é uma geladeira que fala, ou melhor, escreve.
Num tá acreditando em mim né Seu Zé da Geladeira? Pois é verdade sim: lá na porta dela tem um computador pequeno, tudo que tem lá dentro, a geladeira sabe e quando acaba, ela manda uma mensagem pro seu celular que é pra você já ir logo comprando. Num disse que a geladeira escreve?
Espia só: é nesta tela aí que a geladeira sabe de tudo.
Eu não vou querer uma desses não Seu Zé da Geladeira. Sabe por que?
Porque num pode grudar bichinho nela, adesivo da pizzaria. Você tem que colocar o telefone da pizzaria nesta tal de tela da geladeira.
E eu gosto mesmo é de uma geladeira assim, cheia de coisinhas.
Agora eu vou contar mesmo a verdade porque eu quero uma geladeira daquelas que fala, escreve.
Eu tenho medo Seu Zé.
O mundo pro lado de cá tá tão esquisito que eu tenho medo de ficar sentada olhando pra tela do meu celular esperando que alguém me chame, que alguém se lembre de mim e pode ser que a única criatura a me mandar um recado, uma palavra seja a geladeira.
Quero isso não.
Flores e um abraço da menina da geladeira vermelha ( cheia de gelo)