Demorei-me diante do pato.
Eu, tão urbana, num logradouro que traz em sua descrição a palavra "centro", fiquei surpresa com o encontro.
Algo a mais, além da surpresa, havia.
Eu apenas não sabia.
Mantive uma distância respeitável. Ele, receptivo, permitiu-me pequenos passos em sua direção.
Tristeza foi o que enxerguei. Ou talvez fosse saudade, nostalgia, recordação ou algum outro sentimento em tom de aquarela.
Levei a mão ao bolso da calça e peguei o celular que naquele momento era apenas uma máquina fotográfica.
Quatro meses se passaram desde a imagem capturada.
No dia das mães eu soube que o sinônimo para todas aquelas palavras que definiram o pato - saudade, recordação, nostalgia - estavam incorretas. A palavra certa era simplesmente calor.
A história O Patinho Feio era lida por minha mãe com uma tonalidade suave de voz e gestos de igual leveza ao virar uma página depois outra até o fim da história.
Naquela versão, o feio pato, ao avistar dentro do lago uma linda mamãe pata, lançava-se num mergulho repentino e então acontecia o pior: era de madeira a enorme pata; era enorme a dor que ele sentira ao bater a cabeça.
Aquela dor me invadia, aliás me invadiu por incontáveis leituras.
Mas por muitas tardes e noites, o final da história era feliz.
Eu me aninhava no colo dela, ou se fosse noite, ela se deitava comigo até eu adormece e era o calor de seu corpo que diluía aquela tristeza em mim e antes mesmo que eu adormecesse, já tinha em mim uma sonolenta alegria quentinha!
O dia em que encontrei o patinho, achei por um instante que ele representasse a saudade, a recordação do patinho feio na leitura de minha mãe.
O pato era calor. O calor da sua voz, corpo, olhos, que levava embora a tristeza, a angústia.
O pato era a recordação do calor que ficou e fixou em mim.
O pato é o aprendizado de que a dor de bater a cabeça passa, cura, sana.
A dor da ausência do calor de uma voz, de uma pele, faz-me sentir ainda mais ternura por um patinho feio.
A dor da ausência já foi um tom forte de alguma cor, um lápis pressionado com toda força que chega a marcar a folha seguinte.
Hoje não há dor, há calor.
Um calor agradável, gostoso, feito um tom suave de aquarela passada com movimento delicado do pincel, bem diluída e bela de ver e sentir.
Dias das mães de calor ausente, que a dor da partida possa ser trocada pelo calor das boas recordações.