Logo
cedo, enquanto desperta o coador de pano para passar o café, marido
me faz uma pergunta difícil:
- Você sabe aonde está um papelzinho com o número de telefone da caçamba?
- Provavelmente dentro de outra caçamba sendo transportado para a reciclagem...
- Tudo bem – ele diz – depois entra na internet e pega uns dois ou três números pra gente pesquisar. Vamos precisar de uma caçamba para o fim da semana.
Marido
sai, eu boto um avental por cima da camisola e inicio a labuta
doméstica.
Cerca
de meia hora depois, ouço um estrondo daqueles que dispara o coração
e por cima do muro vejo uma espécie de guindaste e entre o susto e a
preocupação com o barulho, saio em disparada para ver o que está
acontecendo.
Quase
caio de costas quando vejo isto:
Como
pode? Marido acabou de sair daqui e já pediu uma caçamba?
Mas
desse tamanho? Cabe a casa inteira aí.
Entre
me recuperar do susto e conseguir raciocinar, comecei a gritar para o
motorista do caminhão que já estava saindo.
Por
sorte na barra do avental eu tinha alguns pregadores de roupa.
Obrigada Tina
E fui
logo correndo e atirando pregador no caminhão, até que o motorista me viu e
disse:
- É só por dez minutos senhora. Já volto pra tirar isto daí.
Os
vizinhos também saíram e se solidarizaram comigo. “Que absurdo
uma coisa dessas”. “E pra quem que se reclama?” dizia outro
indignado e no meio da vizinhança já mais calma é que eu me
percebi de camisola, avental e pregadores. Um vizinho gentilmente
recolheu alguns que eu havia jogado no caminhão e estavam espalhados
pela rua.
Entrei
o mais rápido que pude e tomei um café morno e amargo para me
recompor.
Já
vestida e sem pregadores pregados em mim, fui passear com o cachorro.
Mas nem conseguia andar. As pessoas me abordavam querendo saber
porque nós havíamos contratado caçamba tão enorme quanto um
transatlântico.
E
eu explicava, explicava, porém depois de uma dúzia de satisfações
eu já estava é aborrecida.
Os
dez minutos do motorista?
Tive
certeza que Einstein para falar de relatividade do tempo teve um
problema com caçamba como o meu.
Foram
10 horas. Isso é que é relativismo...
O
fato é que já era de noite, eu estava novamente de camisola, agora
sem pregadores e uma mulher toca a minha campainha pra perguntar o
que era aquilo na minha casa.
Ouviu
uma resposta...
“ Sabe
o que é? É que eu faço carros alegóricos para escola de samba.
Vamos colocar uma parte de um aí dentro pra levar pro sambódromo.
Sabe como é, não queremos que ninguém fique vendo pra não
estragar a surpresa.”
E
não é que a mulher ficou me olhando com cara de surpresa?


