segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Grito preso

O que pode fazer um grito preso?
Várias, muitas coisas.
Em mim, um grito preso já me fez chorar por vários dias seguidos.
Doutra feita, fez o grito preso fez um nó na minha garganta e comida não descia. Eita grito bom que me fez emagrecer; agora que seria útil um desses, não me aparece!
Num menino de 10 anos, torcedor de um time de futebol, digamos assim, que está por um grito para ser campeão, o grito preso foi para os pés.



Tão feliz que estava o menino no anoitecer do domingo, mas com o grito preso, chutou, driblou, caiu, levantou, tudo isso sozinho, ele e a bola. E quanto o grito preso foi para os pés, o menino deu um chute tão forte...


... mas tão forte, que estourou o cano de água.

De repente, tínhamos um chafariz na nossa própria casa e eu que já não sofro de grito preso fui gritando para fechar o registro e como nós não temos aqueles seguros que aparecem na televisão que é só ligar e vem um consertador, saímos em busca de um encanador, que após quebrar, torcer, falar baixinho algumas palavras mágicas me disse que tudo estava pronto. Agora era só ligar para a companhia de água e solicitar o conserto deles, porque naquela parte que tem o lacre ele não pode mexer.
Tive sim um grito preso naquele exato momento que nem me fez chorar nem ficar sem apetite.
Liguei para a companhia e fui tão bem atendida pela funcionária Hortência que se solidarizou com uma mãe com dois filhos sem água em casa ( se ela visse a cor que predomina nos pés do meu filho, viria ela mesma fazer o reparo ). 48hs é o prazo.
Como não temos mais lata d'água na cabeça, lá vai Maria, lá vai Maria... ficarei bem paciente aqui esperando.

Ontem no momento da explosão de alegria, digo, explosão do cano, nem  percebi um detalhe muito importante que pode explicar porque a bola foi justamente ali, naquele lugar.



O cano é azul. Tanto o menino vibrou com a torcida celeste de seu time, que ao ver o cano, sei lá, pensou que estivesse lá e soltou o grito!

Nessas horas fico grata pela tecnologia não ser tão avançada.
Exalasse cheiro das telas de computadores, tablets e afins, não seria cheiro de sabonete de rico que vocês sentiriam!

Momento confissão: quem aí já quebrou a vidraça da vizinha jogando bola hein?

sábado, 9 de novembro de 2013

Flores da memória

Não eram flores a celebrar alguma felicidade.
Não foram lançadas para embelezar os passos pelos caminhos.
A mulher, não mais jovem, ainda não velha, esqueceu-se por um dia de varrer a escadaria.
Vizinhos notaram a ausência do ruído ritmado da piaçava no concreto.
Teria saído para uma consulta médica? Uma gripe a deixara acamada?
Foi só amanhecer e logo o montículo de flores amarelas já estava, como de costume, dentro da caixa de papelão, trazida do mercado. Ninguém lembrou-se de fazer qualquer pergunta.
Aos poucos, a caixa de papelão não apareceu.
Acúmulo de dois, três dias. Semanas.
Foram as flores na escadaria que trouxeram a resposta.
Queremos apenas adornar a memória, os sonhos, as lembranças da mulher. Eles a aprisionaram dentro da casa. Prisioneira dentro de si, talvez com lembranças esmaecidas, esquecidas feito flores na escadaria da própria casa.



sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Escolas e árvores

Porque toda escola deveria ter uma jabuticabeira.







O sinal bate ( na verdade é uma música suave que toca ).
São 18h30 de uma sexta-feira.
Mas no caminho tem amigos, horário de verão e jabuticabeira.
Ninguém quer ir embora da escola.
Nem os alunos e nem os pais!
Escolhe aqui, estica o braço acolá.
E quando se dá conta já são oito horas da noite!




quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Livros achados

Começa amanhã a 7 edição do BookCrossing Blogueiro.


Conhece? Já participou?
Escolhemos um livro e o deixamos em algum lugar para que alguém o encontre.
Um bilhetinho explicando a ideia de que o livro não foi perdido e está ali para estimular a leitura, que quem o encontrou poderá, após ler, fazer o mesmo é mais uma forma de estímulo.

A Luma entusiasta contagiante do BookCrossing disponibiliza banners para você espalhar esta ideia pelo seu blog, disponibiliza o espaço para divulgarmos a nossa participação e assim ficamos conhecendo outros blogueiros que participam com suas histórias de dar asas aos livros.

Antecipei-me à data e já explico o porquê.

Eu escolhi libertar o meu livro Crônicas Gris.


Queria deixá-lo para que fosse enviado dentro de uma cesta básica.




Então aproveitei uma ida a São Paulo para deixá-lo dentro da enorme cesta que fica na Livraria da Vila, que junto com a Cesta Nobre idealiza este projeto para levar livros às pessoas que tem acesso restrito a eles.

Espero que quem receber, goste da leitura das minhas crônicas!

E este ano tem novidade no Bookcrossing:


Na mesma data, de 8 a 16 de novembro, teremos o BookCrossing Kids que está sendo organizado pela Trícia.
Vamos ensinar nossas crianças a doarem, a estimular a leitura para outras crianças.
Este nós ainda vamos participar. Estou só esperando parar de chover por aqui. As crianças sugeriram que deixemos o livro infantil num parque. Só que com chuva não atem crianças!

Vai participar também?

terça-feira, 5 de novembro de 2013

Quanto custa ser rico?

Quanto custa ser rico?
Sabe que nem é tão caro não?


Era um dia em que a rotina havia tirado folga.
Desprovidos de horários a cumprir, fomos comprar pão para o café da tarde. E descompromissados, resolvemos passar por corredores do mercado que não nos é habitual, ou na correria, nunca temos tempo para eles!
Ziguezagueando, entramos no corredor dos produtos de higiene pessoal.
Uma moça, sentada em um banquinho, organizava um a um as pilhas de sabonetes. Cuidadosamente.

Ao vê-la disse para as crianças: "Ah! Esse deve ser o trabalho mais gostoso do mercado. Até as mãos ficam perfumadas".
Pronunciava a frase enquanto andava e já estava no corredor principal quando meu filho emendou sua frase à minha.
"É o melhor trabalho mesmo. Ela trabalha com sabonete de rico."

"Sabonete de rico? Onde isso? Neste mercado não tem sabonete de rico."

"Mãe eu já tenho quase onze anos e sempre usei sabonete Johnson ou da Turma da Mônica. Meu sonho é usar sabonete de rico, aquele ali ó".

Sabonete de rico?
Rica poderia estar eu que durante onze anos paguei três vezes mais nos sabonetes para bebês para proteger-lhe a cútis. Para manter-lhe a emoliência, o viço de uma pele de seda, de pétala, de pêssego, de passarinho, sei lá o que mais.
Ainda bem que sou desprovida de uma mente matemática dessas que fazem cálculos de cabeça, porque se eu soubesse quanto teria economizado se nestes onzes anos banhasse meu rebento com sabonete de rico, talvez fosse pior.

Tentando disfarçar o ligeiro tremor que me percorria o corpo, abri a bolsa, tirei uma nota de dez reais e disse com voz de pele aveludada. 
"Querido, escolha a vontade os seus sabonetes de rico que eu vou pegar o pão e te espero lá na saída".

Não demorou muito e ele surgiu segurando numa das mãos, a sacola com os sabonetes; na outra o troco que me entregou sorridente.

Durante dez barras de sabonete ele estará rico, depois...
Bem, depois, ainda tenho um pacote com duas dúzias de Jonhson bebê para ser usado.


sábado, 2 de novembro de 2013

Brisas


Duas meninas. Crianças meninas.
A de cabelo feito rio em placidez, sem qualquer sopro para agitar-lhe as águas, de beleza mansa, era também rica.
A beleza da outra não era feito rio alargado que se mostrava resplandecente no dourado do amanhecer ou no pratear azulado da cheia lua. Seus cabelos carregavam ninhos de passarinhos, enrodilhados, desgrenhados, o vento fazia gosto em lhe soprar até folhas. Olhando apurado, tinha beleza. Feito sol e lua, uma rica outra pobre nos antagonismos da Terra.
Sobre o chão que todos pisam, encontraram-se e brotou amizade.
Menina-cabelos-macios sempre estava a brincar na casa-casebre da amiga.
Difícil entender isso. Não havia nada ali a oferecer-lhe. Não havia o tapete, o televisor em cores, a cozinha com armários até o teto e a longa escadaria que conduzia ao andar de cima com macias camas e travesseiros.
Gostava de ali ficar, ouvir a chuva batendo forte nas telhas de zinco.
Também gostava da comida da dona da casa. Era comida esticada, como dona Jandira dizia.
Numa manhã agitada, quando Jandira fritava suas coxinhas para esticar o dinheiro do mês, menina-cabelos-macios pediu-lhe para ficar para o almoço.
Na correria atrapalhou-se Jandira na ordem do preparo e já tinha botado a fritar as coxinhas da freguesa que logo chegaria.
Não podendo jogar fora o óleo em uso, tirou as coxinhas e botou as batatinhas.
Saíram todas pintadinhas.
Menina-cabelos-macios nunca havia se alimentado de tão deliciosa batatinha. Sua mãe nunca sabia como pintar batatinhas. Jandira guardara segredo.


A brisa que hoje se enroscou no cabelo da menina-ninho soprou-lhe o recordar de sua Jandira que a morte deitou sob a terra.
O sopro trouxe também, no grande leito acastanhado de um plácido rio, os contornos da amiga de cabelos de seda, que a morte também a levou. Passeiam sobre a terra porque há muitos jeitos de morrer.



sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Visitantes

Deixaram as montanhas das Minas Gerais e estão a nos visitar, o casalzinho Sebastiana e Antônio!
Aproveitam também para cuidar da audição.
Temos ficado a maior parte do tempo com eles.
Entre conversas, choros, risos, alguns momentos


Seu Antônio
"Paula como é mesmo o nome daquele mercado lá na frente?
Extra, respondo.
Não, não, aquele outro lá pra diante.
Roldão.
Esse mesmo. Fui lá com o Fábio. Eita que fiquei impressionado com aquele tratorzinho que coloca aqueles pacotão de produto lá em cima e desce outros lá daquela altura. Olha que nós temo máquina grande lá na roça, mas ficar olhando um tratorzinho trabalhar assim naqueles corredor estreito, é uma belezura.
Ô Paula, ele ficou olhando tanto pro tratorzinho do mercado que esqueceu de comprar os doces que eu pedi que é pra dar para as crianças ( crianças no caso é ela mesma! ) - dona Sebastiana.

Sebastiana.
"Ah já falei que tô no finalzinho da vida...
Então mamãe, disse marido, vamos largar mão de ficar correndo atrás de aparelhinho pro ouvido, remédio pra perna, deixa pra lá, né?
Não filho. Vamo atrás sim que eu vou pedir pra Deus pra ficar mais bocadinho por aqui!"

Seu Antônio na consulta com o otorrino.
"Então seu Antônio, o aparelho para o ouvido vai ficar em doze mil e trezentos reais. É o mais moderno que existe. O senhor vai escutar até passo de formiga.
Quando ele se deu conta do preço, tratou de fazer as contas na frente do médico de quantos sacos de café teria que vender, mais os de milho e ainda dispor de algumas bezerrras.
Sabe doutor, só com essa limpeza que o senhor fez eu já melhorei. Acho que não vou precisar de aparelhinho moderno não. "


Assim que possível, coloco as minhas visitas aos blogs em dia! Vou prosear mais um pouquinho com eles!
Beijo