Eu e E. estávamos de pé, olhando através da porta corrediça de vidro, bebericando chá num copinho plástico para café.
Tão transparente e límpida a vidraça que era possível sentir-se lá fora.
Quinto ou sexto andar, não me lembro.
O entardecer era de inverno.
Lindo. Para mim.
Minha admiração fora entrecortada por um movimento brusco de E. que, dando as costas para o crepúsculo, revelou com semblante agoniado não gostar dessa hora.
Uma angústia lhe tomava ao entardecer; talvez fosse tristeza.
Evitava olhar.
E., à época tinha o dobro da minha idade. Fazíamos parte de uma turma que praticava yoga e ele cogitava mudar de horário pois o final da prática oriental terminava justamente na hora ingrata para ele. Tudo de bom que sentia ao exercitar seu corpo, sua respiração, esvaia-se com a paisagem externa.
Com meu entusiasmo juvenil, olhei-o incrédula e senti uma vontade imensa de dizer-lhe que estava errado e que precisava mudar.
Não o fiz.
Sufoquei o ímpeto com o último gole de chá.
Foi quando ele disse ter que ir pois era seu dia de plantão no Centro de Valorização da Vida.
E. não mudou seu horário e continuou a partilhar comigo e outras pessoas um copinho de chá, sempre virado de costas para a despedida do dia e nos contava de seu trabalho de impedir que pessoas cometessem suicídio no ápice da angustia e desespero.
Esses dias, enquanto eu fotografava um despedir-se do sol, do dia, lembrei-me de E.
Talvez o seu desgostar dessa hora, conferiu-lhe total habilidade para ouvir, compreender e atuar com pessoas desesperadamente necessitadas de um apoio.
Há tempos que não ouvia nada a respeito do CVV.
Busca rápida pela web e me deparei com o site organizado, moderno, utilizando as plataformas digitais e fazendo um silencioso trabalho.
Eu continuo apreciando um pôr do sol. E continuo respeitando o desgostar de E. por esse momento, onde quer que ele esteja.