quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Recordações alimentadas

Não vai encher a barriga
para saciar a fome
Encherá o coração
de boas recordações
Amora
tem sabor de infância
não importa a sua idade!







terça-feira, 1 de setembro de 2015

En(tristecer)tardecer


Eu e E. estávamos de pé, olhando através da porta corrediça de vidro, bebericando chá num copinho plástico para café.
Tão transparente e límpida a vidraça que era possível sentir-se lá fora.
Quinto ou sexto andar, não me lembro.
O entardecer era de inverno.
Lindo. Para mim.
Minha admiração fora entrecortada por um movimento brusco de E. que, dando as costas para o crepúsculo, revelou com semblante agoniado não gostar dessa hora.
Uma angústia lhe tomava ao entardecer; talvez fosse tristeza.
Evitava olhar.
E., à época tinha o dobro da minha idade. Fazíamos parte de uma turma que praticava yoga e ele cogitava mudar de horário pois o final da prática oriental terminava justamente na hora ingrata para ele. Tudo de bom que sentia ao exercitar seu corpo, sua respiração, esvaia-se com a paisagem externa.
Com meu entusiasmo juvenil, olhei-o incrédula e senti uma vontade imensa de dizer-lhe que estava errado e que precisava mudar.
Não o fiz. 
Sufoquei o ímpeto com o último gole de chá.
Foi quando ele disse ter que ir pois era seu dia de plantão no Centro de Valorização da Vida.

E. não mudou seu horário e continuou a partilhar comigo e outras pessoas um copinho de chá, sempre virado de costas para a despedida do dia e nos contava de seu trabalho de impedir que pessoas cometessem suicídio no ápice da angustia e desespero.

Esses dias, enquanto eu fotografava um despedir-se do sol, do dia, lembrei-me de E.
Talvez o seu desgostar dessa hora, conferiu-lhe total habilidade para ouvir, compreender e atuar com pessoas desesperadamente necessitadas de um apoio.
Há tempos que não ouvia nada a respeito do CVV.
Busca rápida pela web e me deparei com o site organizado, moderno, utilizando as plataformas digitais e fazendo um silencioso trabalho.

Eu continuo apreciando um pôr do sol. E continuo respeitando o desgostar de E. por esse momento, onde quer que ele esteja.

domingo, 30 de agosto de 2015

Aconteceu no cinema


Não dirijo.
Opção esta que não me dificulta em nada; mas, às vezes, algum contratempo pode ocorrer.
Foi o caso da melancia no cinema.
Não que eu tivesse pendurado uma melancia no pescoço para ir ao cinema. 
Longe disso que um mínimo de noção eu ainda tenho.
Mas não nego que fui ao cinema portando melancia.

O fato de ter feito a opção por não dirigir, exige planejamento para as coisas cotidianas, para que se aproveite o melhor do tempo e das caminhadas.
Foi o caso do cinema.
Decidimos, eu e as crianças, assim no repente.
Saímos com folga de tempo. E fomos à pé, afinal temos um pequeno shopping próximo a nossa casa.
É pequeno se comparado com os tradicionais, porém supre as necessidades ao unir num mesmo espaço cinema e mercado.

A prioridade eram os ingressos para assegurar um bom lugar, já que as salas são para um público pequeno. Chegar em cima da hora significa ficar com a tela muito próxima ou desistir da sessão.
Escolhemos bons lugares centrais.
As crianças pediram alguma guloseima para acompanhar o drama que nos aguardava.
Claro! Exclamei.
E os fui puxando ao som das interrogações de mãe, mas nós não vamos comprar um chocolate?

Os tempos são de crise e como tínhamos ainda tempo antes do início do filme, eu fui economizar tempo e dinheiro indo comprar no mercado a alguns passos da "vendinha" do cinema onde os preços são exorbitantes.

Peguei um cestinho logo na entrada do mercado.
Mas precisa de cestinho só para pegar um chocolate?

Bem, quando não se dirige, o pensamento tem que ser rápido como virar à esquerda ou à direita.
Sendo assim eu pensei em já comprar umas coisinhas além do chocolate, assim pouparia uma outra vinda ao mercado no dia seguinte. 
Pegaram os chocolates e eu peguei a melancia.
Melancia?
Você vai entrar no cinema com uma melancia?
Sim.
Ah...
Ah, mas se eu não levar agora, quando sairmos do cinema, o mercado estará fechado e quem quererá vir comigo amanhã cedo ao mercado?!
Consentiram a melancia.

Saquei minha sacola de pano e acomodei ali dentro a melancia para que não chamasse a atenção.

Lugares demarcados em nossos ingressos, entramos, sentamos e eu acomodei com delicadeza a melancia no chão.
E então começou um tal de passa gente pra cá, passa gente pra lá. Eu levantava a melancia, punha de novo no chão. 
Licença, licença...
Encolhia as pernas torcendo pro salto da moça não infincar na melancia.
Que sufoco. Que gente chata passando de um lado para o outro.

Choramos no filme. Era bem triste.
Saímos refletindo e conversando. A melancia seguiu no escuro da noite dentro do escuro da sacola.
Já em casa, veio a vontade da melancia.
Fatias generosas do nosso 1/4 da fruta. Era preciso adoçar a noite diante da tristeza da película.

Estava estragada. Completamente estragada.
Eu custava a acreditar; o cheiro não deixava dúvidas.

Um dos filhos com habilidade de leitura de pensamento materno já foi logo dizendo:

"Nem pense em ir reclamar no mercado, porque eu tenho certeza que você vai dizer que levou a melancia no cinema e a moça vai achar isso muito estranho".

Eu também achei estranho. Até agora não sei se foi toda aquela gente passando e a melancia indo do colo ao chão, se espremendo debaixo dos assentos.
Ou se ela, a melancia, também se ressentiu de tanta tristeza daquele filme que até azedou.

Voltei lá no dia seguinte e trouxe laranjas.

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

terça-feira, 18 de agosto de 2015

Um charme de livro

Livros azuis, ou melhor, com capa na cor azul, costumam ser fofos.
É só pesquisar #livrosazuis e lá estão eles!
Eu tenho um livro azul, mas não vou dizer que ele é fofo. 
Ele é, na verdade, um charme!

Antes de mostrá-lo, quero apresentar algumas ilustrações e uma descoberta



"Quando nossa comida contém algo muito sólido, é como se mandássemos um time de futebol inteiro saltitar ritmicamente sobre ela antes de a engolirmos. Ao mordermos um pedaço de torta, não precisamos da força máxima - nesse caso, bastam algumas meninas de saia de tule e sapatilha."



"Assim como nós, seres humanos, habitamos o planeta, também somos habitados. O
 intestino é a floresta mais extraordinária e gigantesca, com as criaturas mais incríveis."

A descoberta, por conta da ilustradora Jill Enders, é que existe uma especialização para quem faz design, que é em mediação científica. Deu total leveza e bom humor as ilustrações para esse tipo de assunto tão "não falado": nosso cocô.

Olha que charme o livro!
 

Se você ainda acha não acha seu intestino um charme, precisa ler esse livro!
As mais novas e recentes descobertas sobre esse órgão maravilhoso são surpreendentes.
Eu já tinha aprendido há muito tempo com a Sônia Hirsch que uma pessoa emburrada, de mau humor constante, é uma pessoa enfezada. Ou seja, cheia de fezes!
E no livro é possível comprovar a relação entre nosso bom humor e o funcionamento do intestino, nosso cérebro e o intestino.
Já tinha parado para pensar nisso?!

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Não à redução

Fazia tempo que eu não comprava chocolate.
Não que eu não goste. Muito pelo contrário: amo chocolate.
Mas tenho procurado há muito tempo pelo sabor do chocolate da minha infância e não encontro.
Pode ser que o envelhecimento das minhas papilas gustativas sejam responsáveis.
Pode ser que aquele pacotinho com dois tubetes vermelhos cheios pequenos chocolates envoltos em papel dourado e que deveriam durar, a depender, 30 ou 31 dias, algumas vezes 32, fizessem o chocolate ter o sabor especial que se perdeu de mim.
Ou pode ser que o fabricante, aquele que tem como símbolo um ninho, tenha reduzido o sabor.
Comprei e qual não foi minha surpresa!


Reduziram? De novo?
Eu me lembro da redução de 200g para 170g.
Entristeceu-me.
Nas minhas receitas era solicitado sempre 200. 
Mas, o tempo passou, e eu me acostumei. Ora comprava duas barras para fazer o doce, ora ia com uma só e dava certo do mesmo jeito.
Agora essa redução já é demais.

Passado o susto, ocorreu-me que eu estava feito criança mimada, sempre querendo mais.
"Ora Ana Paula - pensei - estão fazendo isso para seu bem; menos açúcar, menor quantidade de gordura; não seja ingrata e agradeça essa redução".

É. Está um problema grave essa história de gorduras e açúcares.
Resolvi, inclusive deixar de comer o chocolate e partir para a aveia.
Ah, todos nós conhecemos os efeitos salutares da aveia.
Reduz colesterol, tem fibras...
Só que...


Reduziram também a aveia.
Não tem ninguém preocupado com a minha saúde.
Estão preocupados em reduzir o conteúdo, aumentar o preço e ampliar ao infinito seus lucros.

O que mais você viu que reduziu? O pote de sorvete de 2l também...
A energia elétrica também, porém... agora :(


quinta-feira, 13 de agosto de 2015

Costure as frases

Na minha infância, minha mãe comprava yakult da moça do carrinho que batia palmas em frente a nosso portão, comi cigarrinhos de chocolate, andei no fusca de papai sem cinto, assisti programa de calouros com a Aracy de Almeida e passava as manhãs assistindo Xuxa.

Em algum momento decidi que com meus filhos tudo seria diferente.
Não tiveram dvd, nem tv no quarto. A Tv Cultura foi o que lhes marcou a infância com video clipes do Palavra Cantada, Castelo Rá Tim Bum, De onde vem, com a Kika, Reporter Eco que se tornou tradição aos domingos.

Fui chamada para uma reunião de urgência quando meu filho estava no 6˚ ano (hoje está no 9˚). Foi uma reunião cara a cara com a professora de Língua Portuguesa. O menino havia tirado nota vermelha e ela estava inconformada com aquilo. O motivo? Eu o havia criado de uma maneira muito diferente.
"Ele não sabe quem é Bob Esponja. Olha aqui na prova essa interpretação: ele não tem a menor noção do que se trata e por isso errou tudo".

Foi impossível conter o brotamento das minhas lágrimas diante da professora. As palavras encarceradas por um horrível e enorme nó que fechou minha goela.
Mas eu pensava. Eu ainda conseguia pensar. Poxa! Eu li a revista Pais e Filhos, a Crescer e também comprei a edição especial de Cláudia Bebê e eles indicavam Baby Einstein, Mozart para crianças e Lego. Fiz tudo direitinho. Não me lembro de terem indicado Bob Esponja.
E agora, a nota vermelha era culpa exclusiva minha. Eu teria que me redimir perante meu filho.

Muitos anos se passaram sem que Bob Esponja me atormentasse novamente. Teve uma única vez que o rebento me pediu para comprar uma bolacha recheada embalada e estampada pelo personagem. Recusei. Compra outra.

Ontem, tive reunião escolar coletiva do meu filho. Era para falar que eles iriam para o Ensino Médio, que lá a história seria outra. Tudo muito exigente. Tardes inteiras de provas, alternando provas em estilo Fuvest e na outra leva, estilo Enem. No segundo ano terão que se direcionar para uma área específica. No terceiro ano, farão provas aos domingos, não importa se for Natal ou dia santo.
Senti uma leve pontada. Meu filho nem teve tempo de conhecer o Bob Esponja e a vida já o espera dessa maneira.

Passeei com o cachorro pela manhã. Havia um papel dobrado caído no meio-fio. Me contive para nào pegá-lo. Parecia que o papel se comunicava comigo. Senti medo de sentir essas coisas.
Na segunda e terceira vez que saí com o cachorro, ainda estava lá o papel.
Na quarta e última antes de dormir, ele, o papel, tinha se deslocado um pouco do lugar inicial. Lancei-me a ele, afinal tinha acabado de ler um trecho de um livro em que uma carta, após um atropelamento de quem a segurava, perdeu-se e causou muitas coisas.

Contive-me para não abrir o papel dobrado no caminho. Deixei para fazê-lo em casa.
É uma prova e é da escola do meu filho!
É uma prova do ensino médio, do 2˚ ano do médio, não sei definir se é a prova estilo Fuvest ou Enem, mas é, ou melhor são duas provas em uma folha: Física e Biologia.

Para meu desespero, a questão de Biologia é inquestionavelmente sobre o Bob Esponja.