Você leu direito sim, não é nenhum trocadilho - tenho medo da morte morrer.
Eu estava no supermercado quinta-feira, dia primeiro de novembro, o dia de todos os santos que na minha infância, lá no colégio católico no qual eu estudava, não havia aula, em respeito.
Lá no supermercado, estava uma moça bem jovem que falava ao celular, chamou-me atenção primeiro, a sua voz, a tonalidade daquela voz - mezzo soprano. Um tom grave, imponente e adocicado.
Ergui os olhos dos limões para olhar em direção à moça e pude ouvir a sequencia de sua conversa:
"Amanhã eu farei uma feijoada lá em casa... sim. sim, só falta pegar limão pra caipirinha. Tá, te espero. Beijo."
Dos limões para a moça, meus olhos pousaram depois em seu cestinho de compras. Dois pacotes de feijão preto, carnes, couve.
Pensei comigo que aquela moça tão jovem sabe fazer feijoada e eu, com mais que o dobro da idade dela, não sei.
Amanhã ( que no caso é hoje, dia dois de novembro, feriado de finados ) vai ter feijoada na casa dela. Será que é para homenagear algum finado ancestral apreciador de feijoada com caipirinha?
...
Diário de hoje, dia dois de novembro, feriado de finados.Saio cedo com o cachorro. As ruas estão vazias e silenciosas, numa combinação dos que foram viajar com os que estão dormindo um pouco mais por conta do feriado.
Há uma escola aberta, afinal o Enem bate às portas. Um estudante entra.
Sigo para uma praça. Quatro outros estudantes da mesma escola, escolheram ficar debaixo de uma árvore jogando cartas.
Esses não pensam no Enem nem na morte.
Mais à frente uma mesa dobrável acomoda vários itens de café da manhã. Um homem com um apito na boca e gestos firmes comanda ladeira acima um grupo de corredores.
"Falta mais três chegadas, pensem no café especial depois!"
Esses correm da morte.
A morte segue evoluindo em seus rituais.
Já achei engraçado as carpideiras. Já me emocionei ao ver pela tv a cobertura dos túmulos mais visitados nos cemitérios de São Paulo. O dia de finados era um dia triste, cabisbaixo. A cobertura da tv agora mostra o movimento nas praias.
Antes tinha só o cemitério, várias são as opções mais modernas - cinzas acomodadas em um bonito e sustentável recipiente que plantado se transforma em árvore, ou ainda a opção de encaminhar as cinzas do ente querido para seres transformadas em fogos de artifício.
Tem também a celebração mexicana que é mais colorida e cheia de vida.
Tem as novidades tecnológicas aliadas com a biologia, medicina que prometem o fim da morte, título de um livro - A morte da morte.
Tem o aceno de viver trezentos anos.
300 anos recebendo WhatsApp de brigas relacionados à políticos?
Acho que prefiro uma boa morte!
Viver bem é imprescindível para um bom morrer.
Fiz preces, agradecimentos e agora inicio uma nova leitura.
Bom feriado para vocês!
"No início, você deveria ser perseguido pelo medo do nascimento e da morte, como um veado escapando de uma armadilha. No meio, você não deveria ter nada a se arrepender, mesmo que você morra neste momento, como um camponês que tenha trabalhado a sua terra com cuidado. No final, você deveria ser feliz, como alguém que completou uma tarefa imensa"
Matthieu Ricard











