sábado, 2 de março de 2019

Rica aos domingos

Na minha infância, eu era rica aos domingos. Somente aos domingos, eu, rica.
Nos demais dias da semana, mamãe fazia verdadeiros malabarismos para esticar o dinheiro da mistura, e claro, no começo de nossa riqueza, aos domingos, ela chegou a implicar, mas se rendeu à nossa nobreza.

Não sei bem como começou, como exatamente eu fiquei rica no primeiro dia da semana, que, em criança eu jurava ser o último dos sete dias.

Mamãe, nunca ia conosco. Era um ritual de pai e filha. Logo cedo, ele me colocava no carro, que aliás, só saía da garagem também aos domingos. Eu me ajeitava no carro, por muitos anos, fuscas, cores variadas, bem depois, veio a brasília.

Mas, acomodada num dos fuscas de papai, eu abria o quebra-vento e deslizava alegremente pela imensa descida e depois outra imensa subida, em direção ao bairro vizinho ao nosso.

Entrar logo cedo, de mãos dadas com papai na bonita padaria com espremedor elétrico para as laranjas, vitrines amplas para os mais diversos pães e ouvir papai pedir orgulhoso - presunto gordo, que a menina gosta - ah... era um deleite.

O pão de lá era tão diferente da venda a uma quadra de casa, a venda do seu Joaquim.
Bengala era tudo o que o seu Joaquim tinha a nos oferecer, com a variante de ser bengala inteira ou meia bengala.

Já na grandiosa padaria, o pão chamava-se carequinha - comprido, estreito, sempre alvo. Parecia mesmo ter sido moldado para caber o presunto gordo, ou as gordas fatias de queijo fresco e goiabada que papai também levava para casa.

Extravagância era o vocabulário que mamãe usava ao nos ver colocar tantos itens em cima da mesa, aguardando apenas o seu café, passado em coador de pano.

O chocolate, adquirido no momento do pagamento, eu guardava para a sobremesa do almoço. Mesmo sendo chocolate, não me causava boa sensação degustá-lo ao café da manhã. O nome do chocolate, que coincidência, também era sensação!

Desembrulhar a rosca doce e redonda, era uma alegria e já uma nostalgia - nada sobraria; domingo à tarde sempre chegava visita em casa e eu já me antevia caminhando na segunda-feira para a venda do seu Joaquim a comprar meia bengala e besuntar margarina doriana, que sempre quis fazer-lhe uma caretinha como a das propagandas e meus olhos nunca saíam redondinhos.

O leite tipo B, tinha um sabor especial misturado no café de mamãe.

A mesa estava farta, e eu nem me importava com o chão de "vermelhão" que registrava a nossa não-riqueza. 
Aos domingos, até o brilho da cera vermelha ficava mais bonito, afinal, eu era rica aos domingos!

terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

O nome da praça

Mudamos para esta cidade, há cinco anos, sem conhecer nada. Tínhamos como referência apenas a escola, na qual as crianças estudariam e precisaríamos conseguir uma moradia nas cercanias da escola.
Conseguimos. E sendo transportados no carro do corretor de imóveis para o desenrolar burocrático, eu avistei um grande oásis verde encravado entre casas e prédios. Logo após contornarmos esse local, o carro estacionou em nosso destino, nosso futuro lar. Soube então, que estávamos bem próximos daquele enorme campo verde.

No final do dia da mudança, mesmo exausta entre caixas e arrumações, chamei as crianças para conhecermos aquele local que estaria bem perto de nós.

As crianças já  sabiam até o nome:

_ Maconhão, é maconhão que se chama aquela praça mãe, a galera do prédio falou que sempre vai lá.

Praças e viadutos, creio eu, que são os mais apelidados dos logradouros. Parques também. Praças...

Recusei-me desde a primeira vez que ouvi de pronunciar o nome Maconhão.

E enquanto não descobri o nome de batismo, chamei a praça de Campão.


E fui descobrindo aos poucos que naquela praça tinha também "maconhão".

Mas tinha muito mais... expressões de amor, afeto, cuidado, paciência. Gerações que lá se encontram e caminham juntas.


Tem espaço para as brincadeiras caninas.


Tem espaço para os sonhos de amor dos enamorados.


Tem pelada de domingo, onde o goleiro, além das chuteiras e luvas, também precisar levar enxada e dar uma ajeitada bem ali na boca do gol!

E enquanto eu me empenhava em descobrir o nome do lugar ( nem lembrei de procurar no google! ); perguntei pro carteiro, pra morador, entregador e só ouvia a palavra Maconhão, vi florescer botões, demorei-me a comer pitangas...








Até que um dia, numa poda de árvore, descortinou-se a placa com o nome da praça.

Floripes.

Ah! Floripes, não vou me esquecer desse nome... tenho uma boa história, que conto de outra feita.

E de mansinho vem soprando na praça Floripes, um presságio de outono.












quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

Nem azul, nem rosa

Amarelo.
Vamos de amarelo-yellow!

Então, acordamos num belo sábado, céu aberto, temperatura agradável no comecinho da manhã e ao sair às ruas, algo diferente na paisagem urbana.

Bicicletas amarelas estavam espalhadas por todos os cantos.


Não demorou muito para as crianças já saberem da novidade e nos ensinarem o passo-a-passo. Bicicletas compartilhadas, uso através de aplicativo.

E olha o marido aí! Todo faceiro!




A cidade parecia ter sido contagiada por um vírus da alegria, do bem!
O que mais se ouvia era: "Ah! Mas será que eu ainda sei? Faz tantos anos que ando numa bicicleta?"
E a resposta, sempre a mesma!
"Ih... isso não se esquece! Pode ir tranquila!

Muitas crianças, como as minhas que não tem bicicleta, se esbaldaram.
Muitos adultos, despertaram sua criança adormecida e foi um lindo passeio!

A novidade ficou e pegou.
Tem gente pedalando para ir trabalhar, se exercitar, ou se divertir.
Novos tempos de bens compartilhados. Todos cuidam, preservam e assim seguem usando.

Eu, que um dia escrevi um bilhetinho "não esqueça a minha caloi" ( esqueceram e substituíram por uma monark! ) - também pedalei. Minha criança interior ficou feliz!










quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

Primeiro escrito do ano

Oi.
Vamos nos encaminhando para a segunda quinzena de fevereiro e eu nada escrevi aqui.
Aqui no blog, porque tenho escrito muito, nos pensamentos, na mente que divaga. Mais alguém assim?!

Na última semana do ano, eu me preparei para iniciar - 01/01. Novo ano, primeiro post do blog com o desejo de escrever, em 2019, 365 posts.

Achei melhor não publicar na véspera, afinal, quem é que vem conectar o blogger na véspera de ano novo?

Deixei para a manhã inaugural do novo ano. Tinha até imagem:


Paz seria o assunto abordado. Paz para além das guerras. Passou.

Na segunda semana de janeiro, comemoraria o aniversário de 8 anos do blog. Não é muito, mas também não é pouco. Exaltaria no texto comemorativo a paz que não falei no início do ano.

Em outros aniversários do blog eu exaltei as amizades, as trocas e agora exaltaria a paz porque acho que os blogs foram os espaços que restaram de paz virtual - pelo menos essa é a minha percepção em relação aos nossos blogs caseiros, artesanais.

O facebook é um ringue de guerra, política essencialmente. Ali nascem discórdias, pessoas são banidas. O instagram é o ninho da estética, das vidas bonitas. Tem o stories por lá, que eu não dou conta de assistir, tem o twitter que eu nem me atrevi a pisar em seu solo.

Os blogs então seguem com ares nostálgicos, quase analógicos.

Passou também e o texto ficou só no coração.

Veio então 26 de janeiro, aniversário de meu filho Bernardo, faria um pequeno texto homenageando-o e aproveitaria para falar que ele entrou para a faculdade e eu estava numa correria para providenciar um enxoval para ele ( nunca imaginei que ainda usaria a palavra enxoval ).

Recebi nesse tempo um e-mail que me tocou profundamente. Um robô o enviou para mim dizendo que o Google + será encerrado. Eu cheguei a postar alguma coisa por lá e depois nunca mais. Tinha até me esquecido da existência.
O robô foi bem enfático: a falta de uso é a causa do encerramento.

Senti até um arrepio. Se vão fechar por falta de uso, vamos usar muito nossos queridos blogs! ( falo isso para mim mesma, que ando tão ausente! ).

Vou aos poucos visitando-os! Fico longe mas sinto saudades!
Um beijo a todos vocês!

segunda-feira, 19 de novembro de 2018

Maritacas e flores

Saí para fotografar maritacas. Antes, porém, que alguém se empolgue em ver as fotografias das tais aves, aviso de antemão que não consegui.

Ano passado, exatamente à esta época, primavera caminhando para o verão, eu avistei as maritacas dependuradas numa árvore a comer seus frutos.
Eu que só avistava pardais e bem-te-vis na outra cidade em que morávamos, fico deslumbrada em ver os bichinhos assim tão próximos.

Pois esse ano assim que vi os frutinhos perfumados da árvore, lembrei-me que logo elas estariam ali para se alimentar. Numa tarde abafada, ouvi a algazarra.

Fui para casa, peguei a máquina fotográfica e voltei com a intenção das fotos.
Só que...
Eu levei como companhia nosso cachorro.
Algazarra das maritacas, latidos do cão e foram-se todas empoleirar em outros cantos distantes.

No retorno caminhamos por uma outra rua e encontrei flores por entre árvores.

Não fiz as fotos dos alegres bichos de plumagem verdes, mas trago flores para alegrar nossa semana!






domingo, 18 de novembro de 2018

Solidão na maternidade


Participando do projeto Na Casa da Vizinha, uma blogagem coletiva que ocorre no terceiro domingo de cada mês, organizada pelas meninas Cris Philene do blog Prosa de Mãe e Tê Nolasco do Bolhinhas de Sabão para Maria, que hoje traz o tema Solidão na Maternidade.

Assim que vi o tema proposto para essa blogagem, imediatamente lembrei-me de um lindo texto que me tocou à epoca da gestação da minha filha Júlia, hoje com treze anos.


"Um dos momentos mais especiais da minha vida foi o mês após o nascimento de Tara. Descobrir minha filhinha era observar o milagre do desabrochar diante dos meus olhos. Ela era o ser mais precioso, bonito e divino que eu jamais vira.
Mas havia um outro aspecto desse tempo que guardarei para sempre como um tesouro. Numa tradição seguida por muitos indianos, a parturiente e seu bebê recém-nascido ficam na casa dos pais durante 40 dias após o nascimento. Esta tradição se explica pelo fato de tanto a mãe quanto o bebê necessitarem de cuidados e carinho nessas primeiras semanas. Cuidada por sua própria mãe, a recém-mamãe pode então se concentrar nos desafios e descobertas desse primeiro momento e dar início ao relacionamento com seu bebê num ambiente estável.
Voltar com minha filha recém-nascida para a casa de meus pais foi uma experiência comovente e tocante. Passei com eles um tempo lindo e emocionante nessa nova fase da minha vida, com meu bebê nos braços. Eu era agora uma mulher adulta, expandindo a nossa família e despertando em todos sentimentos de um amor ilimitado. O amor e o orgulho nos olhos dos meus pais tanto por mim quanto por sua neta me fizeram descobrir que Tara era não só um dom para Sumant e para mim com também o presente mais sagrado que eles haviam recebido"           Mallika Chopra

Nossa solidão é cultural, geográfica. Comunidades indígenas, sertanejas, quilombolas, ribeirinhas, por exemplo, relacionam-se de outras maneiras que nós de comunidades urbanas.

Por horrível que isso possa soar, vivemos uma cultura de isolamento. Não sabemos pedir ajuda, não sabemos oferecer, por medo. Medo de se expor, medo de parecer ridículo, medo de que o outro não saiba fazer do "nosso jeito"e assim, uns com medo dos outros, seguimos isolados.

As amizades podem mudar; se antes saíamos para um bar, um noite de conversas, com um bebê fica mais difícil e amigos podem se afastar, mas também podemos fazer novos amigos por afinidades - bebês, escola, brincadeiras, passeios.
Precisamos de abertura, abrir-nos para outras possibilidade. Muitas vezes não incentivamos nossos filhos assim, seja numa praça, clube, festinha: "vai lá, fala com ele, empresta o brinquedo". Estamos dizendo "faça um amigo! "Precisamos repetir isso para nós mesmos e nos esforçar para olhar para essas pessoas que terão em comum conosco a maternidade.

Acho que temos uma ferramenta valiosa nesses tempos que são as redes sociais, a facilidade dessa tecnologia de comunicação que são nossos celulares e não a usamos em todo o seu potencial.

Eu acredito que a maioria de nós aqui dos blogs vive nessa cultura urbana, que traz em si mesma esse isolamento e por isso mesmo pede esse olhar cuidadoso porque há sim como remediar isso.

"Na contemporaneidade, existem formas alternativas de relacionamento, como as redes sociais, por exemplo, que se apresentam como uma boa sugestão de sociabilidade e trocas importantes"- Dr José Guilherme Cantor Magnani, antropólogo.

No meu começo na internet eu ouvia muito o termo amigos virtuais versus amigos reais. Essa é uma barreira que já se transpôs. Quantas pessoas "virtuais" nós sentimos afinidade, preocupação, cuidado. E por que não dar um passo a mais, trocando e-mails, endereço, correspondências, WhatsApp com essas pessoas? Por que não se formar um grupo com essas pessoas que sentimos emanar um calor? Com um tema em comum, e fazer reuniões online para expor opiniões, trocar experiências, angústias, ir além de nossas fotos bonitas no instagram?
Grupos grandes, gigantes, dos quais a internet está cheia, não funcionam com esse propósito de aproximação, falo de quando a sentimos um pulsar ali na telinha!

Eu participo de reuniões semanais via Zoom, Skype e é muito enriquecedor.

O texto que eu postei acima, na minha opinião é lindo, porém é uma outra cultura. Pode servir de inspiração mas não pode servir como lamentação.

Os filhos estão, ainda bem, crescendo, conquistando a cada dia algo novo, relevante, como já dissemos em outra blogagem, estão ganhando asas, tomara sejam nossos amigos, companheiros de vida, mas terão seus próprios amigos, seus caminhos, cabe então a nós oferecermos essa abertura para que outros se aproximem e para nós mesmas possamos oferecer aconchego, colo para quem possa estar precisando.

Precisamos quebrar essa cultura de isolamento. Abertura, disposição e atitudes, são a possibilidade .

Um beijo e obrigada por mais essa possibilidade de participar em grupo com essa reflexão!


sexta-feira, 2 de novembro de 2018

Medo da morte

Tenho medo. Estou com medo. Medo da morte. Medo da morte morrer.
Você leu direito sim, não é nenhum trocadilho - tenho medo da morte morrer.

Eu estava no supermercado quinta-feira, dia primeiro de novembro, o dia de todos os santos que na minha infância, lá no colégio católico no qual eu estudava, não havia aula, em respeito.
Lá no supermercado, estava uma moça bem jovem que falava ao celular, chamou-me atenção primeiro, a sua voz, a tonalidade daquela voz - mezzo soprano. Um tom grave, imponente e adocicado.
Ergui os olhos dos limões para olhar em direção à moça e pude ouvir a sequencia de sua conversa: 
"Amanhã eu farei uma feijoada lá em casa... sim. sim, só falta pegar limão pra caipirinha. Tá, te espero. Beijo."

Dos limões para a moça, meus olhos pousaram depois em seu cestinho de compras. Dois pacotes de feijão preto, carnes, couve.

Pensei comigo que aquela moça tão jovem sabe fazer feijoada e eu, com mais que o dobro da idade dela, não sei.

Amanhã ( que no caso é hoje, dia dois de novembro, feriado de finados ) vai ter feijoada na casa dela. Será que é para homenagear algum finado ancestral apreciador de feijoada com caipirinha?
...
Diário de hoje, dia dois de novembro, feriado de finados.

Saio cedo com o cachorro. As ruas estão vazias e silenciosas, numa combinação dos que foram viajar com os que estão dormindo um pouco mais por conta do feriado.

Há uma escola aberta, afinal o Enem bate às portas. Um estudante entra.

Sigo para uma praça. Quatro outros estudantes da mesma escola, escolheram ficar debaixo de uma árvore jogando cartas.
Esses não pensam no Enem nem na morte.

Mais à frente uma mesa dobrável acomoda vários itens de café da manhã. Um homem com um apito na boca e gestos firmes comanda ladeira acima um grupo de corredores.
"Falta mais três chegadas, pensem no café especial depois!"
Esses correm da morte.

A morte segue evoluindo em seus rituais.
Já achei engraçado as carpideiras. Já me emocionei ao ver pela tv a cobertura dos túmulos mais visitados nos cemitérios de São Paulo. O dia de finados era um dia triste, cabisbaixo. A cobertura da tv agora mostra o movimento nas praias.

Antes tinha só o cemitério, várias são as opções mais modernas - cinzas acomodadas em um bonito e sustentável recipiente que plantado se transforma em árvore, ou ainda a opção de encaminhar as cinzas do ente querido para seres transformadas em fogos de artifício.

Tem também a celebração mexicana que é mais colorida e cheia de vida.

Tem as novidades tecnológicas aliadas com a biologia, medicina que prometem o fim da morte, título de um livro - A morte da morte.

Tem o aceno de viver trezentos anos.

300 anos recebendo WhatsApp de brigas relacionados à políticos? 

Acho que prefiro uma boa morte!

Viver bem é imprescindível para um bom morrer.

Fiz preces, agradecimentos e agora inicio uma nova leitura.

Bom feriado para vocês!



"No início, você deveria ser perseguido pelo medo do nascimento e da morte, como um veado escapando de uma armadilha. No meio, você não deveria ter nada a se arrepender, mesmo que você morra neste momento, como um camponês que tenha trabalhado a sua terra com cuidado. No final, você deveria ser feliz, como alguém que completou uma tarefa imensa"
Matthieu Ricard