domingo, 21 de abril de 2019

Feliz Páscoa!


[...] Conta-se a história do rabino que desaparecia a cada véspera de Sabat, "para comungar com Deus na floresta". Então, numa noite de Sabat, eles, a sua comunidade, designaram um de seus cantores para seguir o rabino e observar o encontro sagrado. Penetrando cada vez mais fundo na floresta, o rabino continuou caminhando até chegar à pequena cabana de uma mulher pagã, doente de morte, e paralisada em dolorosa postura.

Lá dentro, o rabino cozinhou para ela, carregou lenha e varreu o chão. Depois quando as tarefas foram concluídas, ele retornou imediatamente à sua casinha próxima à sinagoga.

De volta à aldeia, as pessoas perguntaram àquele que havia sido enviado para seguir o rabino: "O nosso rabino subiu aos céus, como pensávamos?"

Oh, não! , respondeu o cantor, depois de uma pausa pensativa. "O nosso rabino foi muito, muito além disso."

O amor não se destina ao nosso próprio benefício. O amor nos liberta para que  possamos ver os outros como Deus os vê.

Joan Chittister

Feliz Páscoa meus amigos!

terça-feira, 9 de abril de 2019

A vela

Recebi um e-mail, bem humorado, que me arrancou risos e reflexões, sugerindo a leitura de um texto entitulado "Ninguém mais tem vela em casa " e a ênfase escrita assim "afinal quem é que tem vela em casa? ( não das cheirosas, que fica claro! ).

Como assim? Pera lá! Eu tenho velas em casa!


Está aí a fotografia que não me deixa mentir! Guardadas num copinho plástico, que só no momento da foto eu percebi que precisa de substituição, estão minhas velas. Admito, há muito tempo sem uso.
Ficam no armário da cozinha, juntinhas a uma caixa de fósforos.

Velas são marcadores de idade. Provavelmente já compramos, já assopramos, já acendemos, participamos de algum aniversário com velinhas sobre o bolo. Eu, aliás, já lambi o pé de vela ao retirá-la deliciosamente melecada de chantilly. Velas em forma de números, as mais comuns para crianças. Já para quem se distanciou de algumas dezenas de aniversários, socorre-nos as velinhas em miniaturas, bem pequeninas, só mesmo para simbolizar. Claro há aqueles que insistem em colocar noventa velinhas pequeninas preenchendo quase a superfície total do bolo!

O que eu não imaginava é que essas velas, como da minha foto, também simbolizam idade. Quem ainda tem velas em casa?
Nós, os antigos, os já velhos.
Porque como diz o texto, ninguém mais tem vela em casa. O autor, um jovem rapaz, passa por uma falta de luz e lembra que apenas na casa da mãe e da avó encontraria tal objeto. Mas não passa aperto, afinal, o celular tem a função lanterna. Só tem que torcer para ter bateria suficiente até que a energia se restabeleça.

À luz de velas

Não, nunca tive um jantar romântico à luz de velas ( sempre há tempo! ).
Acho que primeiro veio o deslumbre: a mãe correndo para pegar um, ou melhor, vários pires, e riscar o fósforo, pingar a vela, grudá-la ali. 
Ah! Como eu gostava que faltasse eletricidade na minha infância.
Uma coisa era certa naqueles longínquos anos: demoraria muito a voltar a eletricidade. O sono chegaria antes. E eu adorava aquela penumbra da casa.

Mamãe se desesperava. Além das velas, já corria buscar os panos de chão para a geladeira. Afinal toda a demora da energia, faria derreter o nosso congelador.

A chegada abrupta da energia punha fim também à chama da vela, que mamãe insistia que não deveria ser soprada, como eu e qualquer criança gostava de fazer. Ela preferia que fosse apagada entre os dedos polegar e indicador devidamente ensalivados. Assim não ficava com cheiro de velório em casa. É... coisas lá do passado.

Mamãe tinha um controle excepcional das velas. Sabia exatamente quando era hora de comprar um novo maço, para não ficarmos em apuros. E em algumas listas de mercado, que eram sempre feito no dia 10 de cada mês, podia-se ler - um pacote de velas.

Acho que foi assim que aprendi a comprar e ter em casa, mas devo confessar que esse nunca foi um ensinamento que passei a meus filhos. Acho que nunca falei que sempre é bom ter um uma velinha em casa.

Dizem que é coisa de gente antiga ter velas em casa, mas há uma moda agora entre "gentes novas"com filhos pequenos - fazer uma noite por mês à luz de velas. Desligar todos os eletrônicos e ficar ali papeando, contando histórias, brincando de sombra, de fazer bichinhos com as mãos aparecerem na parede.

Alíás é tão lindo o simbolismo de uma vela, o significado da luz.

Dia desses, marido lembrou-se do falecimento de seu pai e disse-me: "ainda bem que minha irmã estava com ele; ela correu, acendeu uma vela e pôs nas mão do papai, e ele foi em paz."

Uma criança vem ao mundo com as belas palavras "Ela deu à luz  um lindo bebê!"

Nem coisa de velho, nem coisa de jovem. Uma vela e seu significado tão luminoso, tão grandioso é simplesmente de todos nós, humanos.

Que sempre tenhamos luz para atravessarmos as noites longas, que não escolhem idade e vez por outra nos visitam. Mas a luz é certeza.



quarta-feira, 20 de março de 2019

Oficialmente, outono

É oficial: chega-nos o outono aqui neste hemisfério.
Ele, porém, não chega abrupto.
Traz mansidão, por vezes deixando notar, por vezes completamente invisível.
A luz que tinge os céus e se derrama pela paisagem, desnudou-se tímida. Por vezes um vento mais fresco nos fazia lembrar do tempo outonal.


Tenho notado que ao longo das minhas muitas primaveras, que sempre me deparo com o prenúncio do outono, seja no calendário, seja no amarelas das folhas, que há um pequeno sobressalto em meu peito, um titubeio.

Embora a pele já se mostre cansada ao final de um verão, os banhos refresquem por tão pouco tempo, e as noites não sejam tão relaxantes, o outono me sopra certa insegurança. E se for tão difícil os dias frios? Não é preferível ficar com o já conhecido?

Lembro-me de uma fala de Monja Coen, onde ela relatava o rigoroso inverno passado quando residia no Japão e ela disse que o outono era um preparar-se. "Nosso corpo vai esfriando com a terra no outono e assim somos preparados para o inverno".

O outono é mais que uma lição térmica, ou de moda, ou de vinhos e queijos.

Há muitos outonos em nossas vidas para além dos calendários. E embora possamos um certo medo do que virá, ele também, o outono da vida nos prepara.

É lindo o outono derrramado na natureza do sol, das árvores. E quando ele se derramar em nossas vidas, independente de que idade tenhamos, que possamos nos aconchegar e sentir que há uma sabedoria em todo outono, uma sabedoria que nos prepara para o acolhimento, para o recolhimento.

Porque tudo é cíclico e novas noites quentes nos chegarão!

Bom início de outono por cá e uma florida primavera lá no outro hemisfério!

segunda-feira, 4 de março de 2019

Café desgourmetizado

Em setembro de 2016, fizemos um passeio muito especial para o sul de nosso país.
A primeira parada foi num abraço demorado trocado com a nossa querida Chica! E foi pra lá de especial! Pensa: alguém que você admira, que vai ao longo dos anos conhecendo pelos blogs, de repente, ali, na tua frente te abraçando?!

Após esse delicioso encontro, subimos a serra para nosso destino, a charmosa Gramado.

O hotel no qual nos hospedamos, era igualmente charmoso, com um salão de chá de encantar olhos e paladares.

Encontrei essa foto esquecida em meu celular!



Tomávamos nosso café da manhã e também o chá da tarde nesse aconchegante lugar e seus anexos.
Até que...

Passado alguns dias, marido me disse que estava sentindo muita vontade de tomar um café.

"Como asssim?" - eu o indaguei. Afinal todos os dias havia café e eu o via bebendo.

Então num suspiro, ele desabafou - "estou sentindo falta de um café simples, aqui é muito gourmetizado! "

Então saímos em busca do apenas café e não encontramos.

Marido foi ficando aflito, só café gourmet pela cidade!

Foi então que num lampejo de lucidez, eu me lembrei.

Rodoviária! Na rodoviária tem o café de bar que marido tanto deseja!

Rumamos para lá e o homem saiu de lá revigorado!


Essa é outra foto que estava esquecida, e eu me lembro que a tirei, não pelo café, mas pelo açucareiro.

Há quanto tempo eu não encontrava desses... e assim que o segurei na minha mão, senti uma baita insegurança. Entre colherzinhas, sachês com pequenas porções da doçura, ou mesmo gotinhas açucaradas, eu não sabia mais manusear um escorregador de açúcar.

E se caísse demais?

Ao ver minha mão feito gangorra, vai num vai, marido me socorreu.
Que habilidade ao manusear a peça plástica cheia de açúcar!
Doce na medida certa para o meu paladar.

E agora eu quero saber, quem aí já usou açucareiro assim?!

* Tá sem inspiração para escrever no blog? Procura, usa o verbo escarafunchar e encontra uma foto perdida e se joga a escrever o que te vem à cabeça!

sábado, 2 de março de 2019

Rica aos domingos

Na minha infância, eu era rica aos domingos. Somente aos domingos, eu, rica.
Nos demais dias da semana, mamãe fazia verdadeiros malabarismos para esticar o dinheiro da mistura, e claro, no começo de nossa riqueza, aos domingos, ela chegou a implicar, mas se rendeu à nossa nobreza.

Não sei bem como começou, como exatamente eu fiquei rica no primeiro dia da semana, que, em criança eu jurava ser o último dos sete dias.

Mamãe, nunca ia conosco. Era um ritual de pai e filha. Logo cedo, ele me colocava no carro, que aliás, só saía da garagem também aos domingos. Eu me ajeitava no carro, por muitos anos, fuscas, cores variadas, bem depois, veio a brasília.

Mas, acomodada num dos fuscas de papai, eu abria o quebra-vento e deslizava alegremente pela imensa descida e depois outra imensa subida, em direção ao bairro vizinho ao nosso.

Entrar logo cedo, de mãos dadas com papai na bonita padaria com espremedor elétrico para as laranjas, vitrines amplas para os mais diversos pães e ouvir papai pedir orgulhoso - presunto gordo, que a menina gosta - ah... era um deleite.

O pão de lá era tão diferente da venda a uma quadra de casa, a venda do seu Joaquim.
Bengala era tudo o que o seu Joaquim tinha a nos oferecer, com a variante de ser bengala inteira ou meia bengala.

Já na grandiosa padaria, o pão chamava-se carequinha - comprido, estreito, sempre alvo. Parecia mesmo ter sido moldado para caber o presunto gordo, ou as gordas fatias de queijo fresco e goiabada que papai também levava para casa.

Extravagância era o vocabulário que mamãe usava ao nos ver colocar tantos itens em cima da mesa, aguardando apenas o seu café, passado em coador de pano.

O chocolate, adquirido no momento do pagamento, eu guardava para a sobremesa do almoço. Mesmo sendo chocolate, não me causava boa sensação degustá-lo ao café da manhã. O nome do chocolate, que coincidência, também era sensação!

Desembrulhar a rosca doce e redonda, era uma alegria e já uma nostalgia - nada sobraria; domingo à tarde sempre chegava visita em casa e eu já me antevia caminhando na segunda-feira para a venda do seu Joaquim a comprar meia bengala e besuntar margarina doriana, que sempre quis fazer-lhe uma caretinha como a das propagandas e meus olhos nunca saíam redondinhos.

O leite tipo B, tinha um sabor especial misturado no café de mamãe.

A mesa estava farta, e eu nem me importava com o chão de "vermelhão" que registrava a nossa não-riqueza. 
Aos domingos, até o brilho da cera vermelha ficava mais bonito, afinal, eu era rica aos domingos!

terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

O nome da praça

Mudamos para esta cidade, há cinco anos, sem conhecer nada. Tínhamos como referência apenas a escola, na qual as crianças estudariam e precisaríamos conseguir uma moradia nas cercanias da escola.
Conseguimos. E sendo transportados no carro do corretor de imóveis para o desenrolar burocrático, eu avistei um grande oásis verde encravado entre casas e prédios. Logo após contornarmos esse local, o carro estacionou em nosso destino, nosso futuro lar. Soube então, que estávamos bem próximos daquele enorme campo verde.

No final do dia da mudança, mesmo exausta entre caixas e arrumações, chamei as crianças para conhecermos aquele local que estaria bem perto de nós.

As crianças já  sabiam até o nome:

_ Maconhão, é maconhão que se chama aquela praça mãe, a galera do prédio falou que sempre vai lá.

Praças e viadutos, creio eu, que são os mais apelidados dos logradouros. Parques também. Praças...

Recusei-me desde a primeira vez que ouvi de pronunciar o nome Maconhão.

E enquanto não descobri o nome de batismo, chamei a praça de Campão.


E fui descobrindo aos poucos que naquela praça tinha também "maconhão".

Mas tinha muito mais... expressões de amor, afeto, cuidado, paciência. Gerações que lá se encontram e caminham juntas.


Tem espaço para as brincadeiras caninas.


Tem espaço para os sonhos de amor dos enamorados.


Tem pelada de domingo, onde o goleiro, além das chuteiras e luvas, também precisar levar enxada e dar uma ajeitada bem ali na boca do gol!

E enquanto eu me empenhava em descobrir o nome do lugar ( nem lembrei de procurar no google! ); perguntei pro carteiro, pra morador, entregador e só ouvia a palavra Maconhão, vi florescer botões, demorei-me a comer pitangas...








Até que um dia, numa poda de árvore, descortinou-se a placa com o nome da praça.

Floripes.

Ah! Floripes, não vou me esquecer desse nome... tenho uma boa história, que conto de outra feita.

E de mansinho vem soprando na praça Floripes, um presságio de outono.












quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

Nem azul, nem rosa

Amarelo.
Vamos de amarelo-yellow!

Então, acordamos num belo sábado, céu aberto, temperatura agradável no comecinho da manhã e ao sair às ruas, algo diferente na paisagem urbana.

Bicicletas amarelas estavam espalhadas por todos os cantos.


Não demorou muito para as crianças já saberem da novidade e nos ensinarem o passo-a-passo. Bicicletas compartilhadas, uso através de aplicativo.

E olha o marido aí! Todo faceiro!




A cidade parecia ter sido contagiada por um vírus da alegria, do bem!
O que mais se ouvia era: "Ah! Mas será que eu ainda sei? Faz tantos anos que ando numa bicicleta?"
E a resposta, sempre a mesma!
"Ih... isso não se esquece! Pode ir tranquila!

Muitas crianças, como as minhas que não tem bicicleta, se esbaldaram.
Muitos adultos, despertaram sua criança adormecida e foi um lindo passeio!

A novidade ficou e pegou.
Tem gente pedalando para ir trabalhar, se exercitar, ou se divertir.
Novos tempos de bens compartilhados. Todos cuidam, preservam e assim seguem usando.

Eu, que um dia escrevi um bilhetinho "não esqueça a minha caloi" ( esqueceram e substituíram por uma monark! ) - também pedalei. Minha criança interior ficou feliz!