segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

O nome das coisas

Armas.
Vou escrever sobre armas.
Não combina nem um pouco com o clima do Natal que já está se instalando nas casas decoradas, arrumadas para receber familiares, nas decorações das ruas, tampouco com a serenidade dos corações que desejam um mundo melhor, mas não quero deixar para depois.
Armas de brinquedo: é sobre elas que quero falar.
E em primeiro lugar elas não se chamam armas de brinquedo e sim lançadores.
Lançadores de projéteis é como devem ser chamadas.
E eu fico me perguntando por que dar um nome pomposo? Por que não "pega" bem dizer vou comprar uma arma de brinquedo para meu filho?
Mudando o nome das coisas, alivia-se algo nos adultos?


Outra mudança diz respeito às cores. Nada monocromático, cinza, preto, marrom, para não dar impressão de arma. Afinal é apenas um lançador. Deve ser colorido para parecer lúdico.

Sou absolutamente contra armas de brinquedo ou lançadores, como é politicamente correto dizer.
Muitos especialistas afirmam que nada há de errado em brincar com eles.
É natural das crianças em sua imaginação usar o bem e o mal. Lembro-me de uma especialista dizendo que se uma criança não tiver uma arma de brinquedo ela pode simulá-la com a mão.
Concordo.
Só que acho que muita coisa mudou desde os tempos em que eu ia na feira com minha mãe e tinha a barraca de doces onde se vendia um suco dentro da embalagem plástica em formato de carrinho, boneca, arma.
Mocinho e bandido, talvez seja brincadeira do passado.
Os videogames violentos, a dificuldade de se impor limites, o nível de stress deste nosso mundo, dão, ao meu ver, uma outra nuança à brincadeira.
Precisariam mudar o nome das coisas se fosse tudo assim tão inocente?
Sou contra. Absolutamente contra.
Posso ser careta, antiquada, mas prefiro outro tipo de brinquedo.

sábado, 15 de dezembro de 2012

Burros n'água

E demos com os burros n'água novamente em relação aos eventos natalinos.
Depois da decoração embrulhada, decidi que precisava de algo grandioso para tirar aquela impressão ruim.
Nada tão grandioso quanto ir ver o natal lá em Curitiba.
Ah! As crianças cantando no Palácio Avenida...


Em cada janelinha, um rostinho com voz de passarinho.
Mas, demos com os burros n'água...



À noitinha, tudo fechado.
Foi feita uma denúncia de exploração de trabalho infantil, então foi preciso reduzir as apresentações. E nós chegamos exatamente nos dias da redução.

Sabe, acho que estão modificando muito as tradições.
Gostava das renas de Noel e não sei o motivo que foram trocadas por cavalos. Será algum tipo de exploração das renas?


Ver as coisas embrulhadas, até que não é de todo ruim. 


Pelo menos ficamos com a sensação de que o tempo está passando devagar. Afinal era dia 12/12/12 e eles nem tinham terminado a arrumação:



Não saímos de lá sem música não. Tudo bem que não era natalina, mas estava animada.
O cenário era natalino com pura música indígena latino-americana. 
Foi bom.


sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Vida que vive


Meu peito está que não cabe em mim.
Como uma lua cheia disputando espaço com meu coração. A felicidade gosta de ocupar nosso peito. Ela fica bailando ao som do ar que farfalha nossos pulmões. O retumbar do coração é samba que saltita os pés da felicidade.
Assim estou. Pelos sonhos dos meus amigos que se concretizam, por inspirações que ganham forma. Pelos sonhos que ainda serão sonhados.
Estou feliz por tanta gente hoje.
Meu peito também está vazio de alegrias hoje.
O silêncio não houve o coração. É um silêncio de dor. Dor pelos sonhos que deixaram de sonhar, pelos sonhos que ficarão nem sei por quanto tempo adormecidos.
Meu peito dói pelo sonho de um moço nas terras quentes da Bahia que sonha em ser pai.
Meu peito dói pelo sonho da moça das terras frias do sul que sonha em ser mãe.
Meu peito silencia todas as palavras que eu queria dizer para um alguém que hoje ouvirá a campainha soar. E não haverá o que fazer senão abrir. A visita? A morte.
Apesar de todos os cartões de felicitações que recebi nas datas festivas e ainda receberei, a vida não é de sempre felicidade, sorrisos, alegrias, caminho de flores.
A vida é somente e intensamente vida.
Hoje gostaria de chorar sufocando os soluços, os grunhidos de dor no travesseiro que já não tenho de paina. Aquele que não tenho mas me faz lembrar Tina, amiga da roça que se foi.
Hoje soltaria a minha cabeça pesadamente no travesseiro que paina que já não tenho olhando para o teto e gargalhando alto a alegria dos meus amigos, as luzes de natal decorando as casas.
Meu peito está assim cheio de vida.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Significados desconhecidos


Dois comentários, lidos no texto de uma querida amiga, inspiraram a escrita deste.
Um comentário dizia “não”, o outro “sim”. E o não e o sim estão em mim e através das palavras destas amigas, percebi uma dimensão, um tamanho, antes por mim desconhecida.

  • Bença pai.
  • Bençoe meu filho, bençoe minha menina.

Não fui criada assim. Lembro-me que falava bom dia para a minha mãe. Meu pai saía muito cedo de casa.
Tinha determinado que a modernidade seria a marca na criação dos meus filhos. E pedir benção parecia algo tão distante da modernidade...
E foi numa noite que eu com um bebezinho no colo, disse: “Pede benção pro papai”.
Não foi pensado, não foi para agradar.
Eu me surpreendi com a frase que proferia.
De alguma forma que eu não percebia, havia um significado.
Eu não dou a benção para meus filhos. Não consigo, não está em mim. Seria forçado.
Eu sempre os lembro de pedir a benção para o pai. É natural.
Para eles, agora, pode ser automático, pode ser apenas um protocolo.
Acho que é assim.
Só agora é que vou começando a compreender o significado de algo que nunca significou nada para mim. É grandioso, é amor. Hoje são palavras repetidas. Hoje tenho certeza que na verdade é como uma semente, que no momento certo, para cada um deles irá brotar e desabrochar.
Para mim é imenso dizer de dia ou de noite “pede bença pro pai”.



segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Balões que flutuam


Pediu que amarrasse 
em seu punho
E ele o fez com delicadeza

Tirou os sapatos
para ser leve
como o balão

Correu inspirando ofegante
a brisa
o mar
a areia

Não se soube 
se velha 
ou criança era

Era somente leve
Podia flutuar
ana paula

Ah! Como eu queria ser a protagonista deste poema.
Nunca tive um balão de gás daqueles que se amarra nas mãos.
E só agora quando fico sabendo da notícia da escassez mundial de gás hélio, que é mais leve que o ar, é que me vem a vontade imensa de ter um balão, ou de ter tido um balão.


Não quero pensar seriamente no gás hélio.
Não quero saber por hoje.
Quero ter a imagem, o desejo.
Pediria ao bom velhinho, sem me preocupar se seu saco enorme de presentes iria também flutuar...


Quero um assim!

Sonhar é bom.
Mas agora a realidade me espera. Vou lavar louça.
Assim:


E breve, muito breve, terei um balão.
E com ele bem amarrado em minha mão, vou procurar um tocador de realejo.
Porque não importa a forma que o corpo tem agora: criança ou velho.
Há coisas que são para sempre em qualquer linha do tempo da existência.


domingo, 2 de dezembro de 2012

O moço da lista telefônica


Dezembro chegou e com ele a lembrança de que logo no começo de janeiro, o moço da lista telefônica estará batendo à minha porta.
Sem floreios - não gosto do moço da lista telefônica.
Minha memória visual não me permite saber se o moço que estará à minha frente é o mesmo do ano passado, porém minha memória auditiva é certeira: ele sempre pede uma "caixinha"para tomar um guaraná porque o sol está de rachar.
Acho um abuso.
Vem aqui uma vez por ano, entrega um objeto praticamente sem valor ou utilidade e ainda quer que eu lhe pague um guaraná?
Durante o transcorrer deste ano não utilizei a lista uma vez sequer. Peguei-a nas mãos apenas para tirar o pó que se acumulava.
E pensar que eu já usei muitas e muitas vezes a lista, ou melhor as listas.

Naquela época,  o moço realmente merecia um guaraná por carregar enormes e grossas listas - a de assinantes, a de endereços e as páginas amarelas. Que peso!
Começava o ano, chegavam as listas. 
Começava a escola e a gente já ia se apaixonando por um menino mais velho que estava no colegial.
Por sorte na nossa turma sempre tinha alguém com uma irmã mais velha que estava lá sala do colegial.
 - Descobre o sobrenome dele? Ah! Por favor vai.
 - Tá bom, mas tem que esperar algum professor que faça a chamada pelo nome completo.

 - Galo. O sobrenome é Galo.
Na volta da escola, lá estávamos com o nariz enfiado nas letras e números miúdos da lista.
Mas, tem um monte de Galo...
Dia seguinte:
 - Ah! Por favor, descobre o nome do pai dele?
Íamos da lista de assinantes para a de endereços com muita destreza e claro que depois de tanta investigação, nós ligávamos para a casa do sujeito em questão só para ouvir a sua voz. Não tinha identificador de chamadas!
Hoje, professor não faz chamada; é chip em uniforme, catraca eletrônica com senha e é mais eficaz consultar a internet do que abrir a lista; os telefones mudam a todo momento e identificam chamadas, então...
Eu não vou dar um troco pro guaraná do moço da lista.
Aliás, você usou a lista telefônica este ano?

sábado, 1 de dezembro de 2012

Para Gisele

Gisele foi a responsável por modificar as sensações emanadas de um calendário na vida de muitas adolescentes. Eu era uma delas.
Durante três anos, eu esperava ansiosa pela segunda-feira. Por todas as segundas feiras do ano letivo.
Faltar à escola na segunda? Nunca!
Foi numa segunda-feira, o primeiro dia de aula do curso de Magistério, que a aluna nova, Gisele, chegou.
A primeira coisa que me chamou à atenção foi a cicatriz que ela trazia na bochecha direita: um círculo perfeito, com mais ou menos meio centímetro de diâmetro. Nunca tinha visto uma cicatriz tão linda. Parecia ter sido esculpida.




"Foi meu irmão mais novo. Acendeu o magic-click na minha bochecha"- disse ela com sua voz que sorria.

A explicação da cicatriz fez nascer em nós uma forte amizade.
Segunda-feira era o dia que eu chegava mais cedo no colégio só para ouvir as histórias do final de semana da Gisele.
Gisele ganhava os olhares dos meninos mais cobiçados da escola. Teve muitos namorados durante estes três anos. Eram histórias hilárias. Mesmo quando levava um "fora", ela era divertida e nos fazia rir.
Fizemos uma viagem de formatura para Maceió e  lá Gisele recebeu um ramalhete de flores assim que pisamos no hotel. Era do namorado Alcides Roberto. Num tempo em que não havia internet por lá.
Ficamos todas boquiabertas: como o Alcides Roberto conseguiu mandar flores para lá? Quanto romantismo...
O que mais aprendi com a Gisele?
Gisele era gorda, linda, confiante e divertida.
Talvez ela não saiba o quanto me ensinou.
Depois da formatura os rumos nos distanciaram.
Há um tempo atrás encontrei seu nome no Orkut. Mandei um recado.
Ela não respondeu.
Tudo bem.
Não me importei. Quero guardar a Gisele adolescente, gordinha, de riso fácil, que durante três anos fez das segundas-feiras um palco para as alegrias da vida.
E que ela, Gisele, siga assim pela vida.