Havia um prazo para a poesia
vir para o papel
pontilhá-lo todo em forma de palavras
Esperei
Esperei não ouvir nenhuma bala perdida
estilhaçar a fina camada de sonhos da criança
Esperei pelo silêncio
Fungava, abafando o som com o travesseiro,
a mãe do filho que a droga levou
Esperei que as mulheres do Congo
não fossem mais estupradas
nem precisassem guardar o pouco dinheiro
em suas genitálias
Esperei tanto que o prazo ameaçou
partir e deixar a poesia
Mas havia morangos
adocicando o ar poluído da metrópole
Havia uma menina estuprada
que trazia no olhar o desejo de um príncipe encantado
Havia um menino que desejou
que desejou ser o príncipe
e um dia deus olhos irão se encontrar
A poesia chegou
Vermelho sangue
Vermelho morango
Papel adocicado
Poesia no prazo

