sábado, 4 de maio de 2013

Correio elegante


Moço loiro de dreads compridos e óculos aviador indo hoje (03/05 às 11h +-) com uma supermochila pro Artur Alvim no 273R?
Minha alegria foi subir a escada rolante do metrô e ver que vc tava lá do lado, mas logo acabou assim que eu passei pela catraca. Não pode ter desaparecido assim, cadê vc?

To procurando um carinha que entrou comigo no trem da linha esmeralda sentido Grajaú em Pinheiros e desceu no Grajaú comigo também. ele tem barba, cabelinho grandinho e cacheado. tava estudando algo relacionado com o corpo humano. ele olhou pra mim e deu um sorriso. por favor, se manifeste. sou a menina de tiara e dreads

Rapaz magro (não magrelo, só magro), cabelo e barba negros *-*
Usava uma camisa polo azul escuro e carregava uma mochila nas costas. Estava saindo da estação Ana Rosa às 18h35min, eu estava entrando. Ele nem me viu, mas com certeza um dos homens mais lindos que já vi na vida

Durante minha rotina desgastante, achei a japa da minha vida.
Tudo aconteceu quando eu estava atrasado pros meus afazeres, nessa primeira sexta-feira de maio, ela entrou comigo as 15 pras 7 da manhã na estação Brigadeiro (no vagão mais perto daquela maquininha de livros), e eu tive que descer no Paraíso (poxa, o paraíso de verdade já tava na minha frente, né)
Cabelos negros (é japa, né), deve ter minha altura (1,70), bem magrinha e de uma beleza nipo-brasileira acima da média. Tava usando um all-star e acho que um casaco azul mais claro ou cinza (não tenho certeza ~~~sou daltônico haha).
Gata, não sei se você é Issei, Nissei, Sansei, Yonsei, Rokussei; mas por uns momentos eu te amei. Bjs vemk!

Barbudo que me ajudou com uma mala na saída da estação Ana Rosa, em vez da minha mala, me pega no colo e me carrega.

Leu? E então, o que achou?
Sabe o que é isto? Chama-se Spotted Metrô SP.
Funciona assim: por dia mais de 3,5 milhões de pessoas passam por dia pelo metrô. Trocas de olhares e piscadelas fazem parte da rotina nas plataformas. Para ajudar a paquera surgiu esta página no facebook para tentar encontrar a paixão-relâmpago da viagem subterrânea!

Acho que é uma espécie de correio elegante virtual! Eu adorei a ideia por dois motivos: talvez estimule maior uso do transporte coletivo ( se bem que não há espaço nem para pulgas ) e certamente vai despertar muito poeta, muita gente escrevendo bonito para fisgar o coração encontrado e desencontrado no metrô.
Ah! Se eu usasse metrô ainda iria participar dessa.
Calma, calma aí. Nada de paquera não! Entusiasmo, bom dia, gentilezas, oferecer uma poesia para alguém cabisbaixo...
E você o que escreveria?


Uma imagem, 140 caracteres

Uma imagem, 140 caracteres - 5 edição. Proposta do blog Escritos Lisérgicos



Difícil seguir sem aquela que lhe criara, a avó. No coração a dor da morte, no corpo, o crochê. Tramas de lã, amor e saudade.

Aproveito a minha participação para homenagear as avós que criam seus netos e são também avós. A elas, feliz dia das mães!

sexta-feira, 3 de maio de 2013

Por pouco tempo



Nas grandes cidades, quando o olhar encontra uma paisagem onde pode se alongar, onde há espaço para correr sem ter que se desviar, o coração já avisa: pedaço assim de horizonte que faz correr os olhos, não demora a surpreender com suas construções.
Os mais antigos moradores dos arrebaldes já disseram ter visto menino com bola de meia correndo descalço por aquele chão e o marcaram com alegria de infância.
Os poetas acreditam que essa mesma alegria pode se infiltrar pelas paredes do arranha-céu ainda embrião que ali nascerá.
Os filósofos me contaram que ali um casal começará a vida e terá dois filhos. Um outro, depois de decorar os espaços e cantos e quinas, verá que algo dentro deles ruiu. Um senhor ficará viúvo e vai querer doar a sua cadelinha. Pelos últimos andares alguém que celebrará a vida com música e vodca e vai incomodar com sua felicidade barulhenta.
Eu? Eu vou apenas olhar enquanto houver tempo para o meu olhar se alongar.

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Sem Dia das Mães

Com o início do mês do maio começo a ler as manifestações de homenagens ao Dia das Mães.
Queria muito escrever sobre esta data um tanto ou totalmente comercial, lucrativa, consumidora... sim, também. Mas também poética, com os abraços, a dedicação materna.
Queria algo diferente: encontrar aquele poema belíssimo que fala que as mães não deveriam nunca partir, já devia ser lei.
Falar das mães que estão partindo. Triste demais.
Falar do amor incondicional, nem precisa.
Então hoje, pontualmente às 12h, eu soube o que escrever:

EU NÃO MEREÇO UM DIA DAS MÃES

Meu filho, hoje foi para um passeio com a escola. Passeio este que me deixou tanto ou mais empolgada que ele! Conhecer a redação do Jornal Folha de S. Paulo.
Organizamos tudo o que precisava ser levado na véspera. Pela manhã, saí com eles. Sensação estranha estar com os dois no mesmo horário! É que a menina estuda pela manhã e o garoto vai à tarde para a escola. Nunca estão juntos.
Mas hoje, por causa do passeio saímos os quatro juntos ( incluindo o cachorro ).
Deixei ambos, desejei bom passeio ao mais velho, boa aula à caçula e retornei à escola ao meio-dia para buscá-la.
Quando estou entrando, sou chamada pelo porteiro:
 - O Bernardo foi no passeio?
 - Ah! Sim, foi. Bom, em casa ele não está!
Quis dar uma de engraçadinha.
 -É melhor a senhora descer para a secretaria porque quando o Bernardo chegou o ônibus já havia saído.

Senti uma bergamota, mexirica, tangerina, mimosa, fuxiqueira, mandarina, qualquer dessas com casca e tudo entalar na minha garganta.
Como assim? Perdeu o ônibus?
A saída para o passeio não era às 7h e 30min?



Era às 7.

Encontrei uma professora no corredor que me tranquilizou:
 - Ainda estamos em maio e você já está trocando todos os horários?! Fique tranquila, a diretora o levou de carro para encontrar com o ônibus.

Tranquila eu estou, porém derretendo de vergonha.
Nem sei se terei coragem de aparecer lá às 17h30 para buscá-lo. Melhor seria esquecer o menino na escola... 
Eu realmente não mereço nenhuma homenagem. Não irei na festinha da escola. Não quero que gastem sequer cinco centavos com presentes.
Ouvi de minha filha: " Coitado do Bernardo, tinha tantos planos para ir sentado no meio do ônibus na janelinha... deve ter ido em pé lá frente com algum professor".
Caí no choro.
Mas pensando bem, talvez eu queira sim um presente. Óculos me cairiam bem.

Tem bergamota?

Tem bergamota?
Tem sim senhor!
Cadê, cadê?
Lá pro terreiro do vizinho
É só se achegar
Num tem esse negócio não
de sorria você está sendo filmado
Ocê vai sorrir
é de ficar com o beiço melado!





quarta-feira, 1 de maio de 2013

Trabalho: ser pantaneiro

Numa postagem anterior sobre meu autor favorito, recebi comentários interessantes e um deles mencionava as barreiras do pantaneiro, que eu vou traduzir em preconceito e acredito que meu próprio autor favorito Manoel de Barros também deve ter sentido na pele.
E fez poesia sobre o assunto:

LIDES DE CAMPEAR

Na Grande Enciclopédia Delta-Larousse, vou buscar uma definição de pantaneiro: "Diz-se de, ou aquele que trabalha pouco, passando o tempo a conversar".
Passando o tempo a conversar pode que se ajuste a um lado da verdade; não sendo inteira verdade. Trabalha pouco, vírgula.
Natureza do trabalho determina muito. Pois sendo a lida nossa a cavalo, é sempre um destampo de boca. Sempre um desafiar. Um porfiar inerente. Como faz o bacurau.
No conduzir de um gado, que é tarefa monótona, de horas inteiras, às vezes dias inteiros - é no uso de cantos e recontos que o pantaneiro encontra o seu ser. Na troca de prosa ou de montada, ele sonha por cima das cercas. É mesmo um trabalho na larga, onde o pantaneiro pode inventar, transcender, desorbitar pela imaginação.
Porque a maneira de reduzir o isolado que somos dentro de nós mesmos, rodeados de distâncias e lembranças, é botando enchimento nas palavras. É botando apelidos, contando lorotas. É, enfim, através das vadias palavras, ir alargando nossos limites.
Certo é que o pantaneiro vence o seu estar isolado, e o seu pequeno mundo de conhecimentos, e o seu pouco vocabulário - recorrendo às imagens e brincadeiras.
Assim, o peão de culatra é bago-de-porco - porque vem por detrás. Pessoa grisalha é cabeça de paina. Cavalo corredor é estufador de blusa. Etc.etc.
Sente-se pois então que árvores, bichos e pessoas têm natureza assumida igual. O homem de longe, alongado quase, e suas referências vegetais, animais. Todos se fundem na mesma natureza intacta. Sem as químicas do civilizado. O velho quase-animismo.
Mas na hora do pega-pra-capar, pantaneiro puxa na força, por igual. No lampino do sol ou no zero do frio.
Erroso é pois incutir que pantaneiro pouco trabalha. Ocorre que enxertar a vaca a gente não pode ainda. Esse lugar é difícil de se exercer pelo touro. Embora alguns o tentem.
Vaca não aceita outro que não seja touro mesmo. O jeito é ficar reparando a cobertura e contando mais um bezerro daquele ato.
Só por isso se diz que o boi cria o pantaneiro.

Manoel de Barros


Todo trabalho digno tem sua beleza e poesia.

Lembranças boas da infância


Blogagem coletiva vinda lá da Etienne sobre a infância e suas boas lembranças.
Minha infância não foi lá das melhores, eu era muito filosófica e sofria demais, chorava muito escondida, acho que me fez falta um irmão ou irmã pra ter com quem fazer artes, brigar, brincar; mas tem sim lembranças boas!

Colocar algodão no pinheiro de Natal - lembro-me de um pinheiro natural enorme, que ia até o teto e eu e mamãe com um rolo imenso de algodão envolto em papel roxo pegávamos pedacinhos para enfeitá-lo. Pinicava até os braços!

Hora da Ave-Maria que eu ouvia pelo rádio com meus avós - rádio pequeno envolto em uma capa de couro preta, antena puxada e o copo de água ali do lado. Não que eu fosse tão devota assim, é que depois do gole de água benta meu avô colocava para fritar uma panelada de torresmo!

A primeira melissinha - inesquecível o cheiro daquele sapatinho de plástico. O meu era o furadinho. Não consigo me lembrar de propagandas ou o porquê de tamanho fascínio nas meninas... enfim, eu tive uma melissinha!