quarta-feira, 31 de julho de 2013

Três limões

Há pouco, na fila do caixa do hipermercado, uma moça finalizando suas compras, um menino de aproximadamente 8 anos, roupas sujas, pés imundos sobre um chinelo tamanho enorme para ele, e eu.
O garoto segurava três limões dentro de um saco plástico.
 - Setenta e nove centavos, disse a operadora do caixa.
 - Só tenho cinquenta, o garoto.
 - Deixa que eu pago, minha fala.
Ele quis me ressarcir com sua moeda de cinquenta centavos.
Neguei.

Paro no semáforo esperando o bonequinho do pedestre esverdear.
Demora.
Esverdeadas esferas flutuam no ar.
Os limões que eu paguei são malabares de semáforo.
Entristeci.
Alegrei.
Alegrei-me tristemente.


terça-feira, 30 de julho de 2013

Pois não doutora

Entrei na padaria. Entardecia.
De frente para o balcão, olhando as variedades de pães ofertadas ali, ouço meio distraída: "Pois não doutora?"
Imediatamente virei-me para trás.
Será que eu tinha furado a fila sem perceber?
Ninguém atrás de mim. Aquele doutora era comigo?
Sim, era.
Pedi meus três habituais pães franceses e voltei àquela padaria inúmeras vezes enquanto morei naquele bairro.
E depois da quarta vez que o funcionário se dirigiu a mim da mesma maneira "Pois não doutora", eu me irritei e disse a ele que não me chamasse daquela maneira. Eu não sou doutora. De nada adiantou.
Excetuando-se as tardes em que o tal funcionário devesse estar de folga ou quando estava no setor do café expresso, eu era chamada da mesma maneira.
Tirando café expresso da máquina ouvia-o dizer um "pois não doutor".
Em meio a correria e bagunça da mudança, lembrei com certo alívio que estaria a salvo do chato.

Já tem quase dois anos que estes episódios aconteceram. Acredito que ficassem esquecidos, perdidos na minha memória.
Para mim, era apenas uma chateação ser atendida daquela forma.
Mas, quando, na semana passada, eu li uma crônica de Eliane Brum entitulada Doutor Advogado e Doutor Médico: até quando? ( aqui ) é que percebi a dimensão do problema.

Um trecho da crônica:


Lembro-me de, em 1999, entrevistar Adail José da Silva, um carregador de malas do Aeroporto Salgado Filho, em Porto Alegre, para a coluna semanal de reportagem que eu mantinha aos sábados no jornal Zero Hora, intitulada “A Vida Que Ninguém Vê”. Um trecho de nosso diálogo foi este: 

- E como os fregueses o chamam?
- Os doutor me chamam assim, ó: “Ô, negão!” Eu acho até que é carinhoso.
- O senhor chama eles de doutor?
- Pra mim todo mundo é doutor. Pisou no aeroporto é doutor. É ó, doutor, como vai, doutor, é pra já, doutor....
- É esse o segredo do serviço?
- Tem que ter humildade. Não adianta ser arrogante. Porque, se eu fosse um cara importante, não ia tá carregando a mala dos outros, né? Sou pé de chinelo. Então, tenho que me botar no meu lugar.
Não era chateação. Não era uma pessoa que me irritava. Era a exacerbação da desigualdade social que existe em nosso país. É o gravíssimo problema da educação, das escolas, que embora tenha dado saltos gigantescos em relação ao passado, deixou um fosso na nossa história.
Aquele funcionário ali trabalhando sorridente, podendo viver com dignidade, tem uma ferida aberta: ele para ele ( e infelizmente para muitos ) não tem valor. É insignificante para a sociedade, é invisível. Sem auto-estima, exalta qualquer outro a sua frente usando a palavra doutor.
Uma realidade que deve ser mudada.




sexta-feira, 26 de julho de 2013

Vovozar

Quando eu for avó

Ainda não sei meu neto ( ou minha neta ) se quando tua mãe anunciar a tua chegada e estiver no auge do entusiasmo visitando lojas e sites ( ah! na minha época só lojas físicas mesmo ) para comprar um berço, eu deva lhe dizer "bobagem, deixe disso, compre só o colchão".
Mas eu quando estava me tornando mãe comprei o berço e foi só usado o colchão.
Então após a compra do berço, ela sonhará com o protetor de berço e meus olhos de avó, diante de todos aqueles babados, bordados, botões, se lembrarão que eu também quando fui mãe, comprei um. Um não, dois. Que era pra não enjoar e ter outro quando um estivesse lavando.
Mas aí o bebê começa a se virar, descobre o protetor, coloca um laço na boca e no primeiro espirro alguém sugere ser ácaros que infestam o protetor. Tira-se o protetor, as cortinas, o tapete.
E toda aquela festa no dia de colocar o protetor no berço fica só nas fotos digitais.
Sendo avó, será que acordo tua mãe desse sonho ou não tenho esse direito de privá-la de tão doce ilusão?
Afinal, eu também já sonhei...
Quando eu for avó, eu saberei que  o preço caríssimo do protetor de berço poderia ser trocado por uma caixa de madeira com 150 lápis de cor. Meu neto, isso seria muito mais útil e interessante!
Sendo avó eu também poderia sugerir aos teus pais que pintassem uma das paredes de teu quarto com aquela tinta verde-escuro que transforma a parede em uma enorme lousa ( daquelas de antigamente, não as digitais que você irá conhecer ) e eu poderia comprar duas caixas de giz de professor, uma branca e outra colorida. Passaríamos longas horas desenhando, apagando e desenhando.
Talvez seus pais achem tinta verde- escuro tipo lousa muito destoante da decoração bebê.
É que quando se avó a gente lembra que passa tão rápido os primeiros anos e toda aquela parafernália decorativa - porta-fraldas, porta-pomadas-de-assaduras, porta-lencinho-umedecido, porta-escova-ultra-macia-para-os-cabelinhos que a gente pensa que no lugar de tudo isso poderia haver um palco pra você encenar, declamar, sapatear, brincarmos de teatro de fantoches.
Não sei. Não me decido ainda se devo falar. Talvez eles precisem sonhar.

Sabe, meu neto, eu preciso me cuidar e torcer ( não sei qual é mais importante, porque mesmo me cuidando pode acontecer ) para que eu não tenha diabetes.
Quero te levar para comer algodão doce. Comprarei um branco e um azul. Cores do céu e das nuvens e você escolhe qual vai querer.
E então eu vou te contar uma história de uma amiga que um dia comprou uma nuvem.
Foi assim: ofereceram para ela num anúncio uma nuvem. Estava escrito "Vendo nuvem para encostar a cabeça, único dono"*
O preço era bem maneiro. Porém o moço, dono da nuvem que estava à venda, não aceitava dinheiro. Como pagamento ele queria poesias e uma recita gostosa daquelas que fazer rir o estômago.
Minha amiga trabalhou duro - todos os dias cozinhar e poetar e assim conseguiu comprar a nuvem.
Quando ela recebeu a nuvem e foi recostar a cabeça, aproveitou e deu uma lambida e aí soube que nuvem tem gosto de algodão doce.
Quando eu me tornar avó vou te ensinar, meu neto, a guardar segredo. Algodão doce tem que ser segredo. Mães não gostam que seus filhos comam algodão doce. Ficam muito bravas.
Já as avós, adoram que os netos saboreiem pedacinhos de nuvem. Elas enternecem.

Quando eu me tornar avó, quero levar uma tuba de presente para você lá na maternidade.**
Sei que seu avô vai me alertar que as maternidades tem detectores de metal. Mesmo assim eu levo.
Sua mãe vai empalidecer e assim que eu sair, vai sussurrar que eu deva estar com Alzheimer. E vai dizer que sonha que você seja pianista de um piano de cristal.

E sabe aquelas noites em que você ficar chorando até a madrugada e ela insistir que os manuais dizem que faz mal pegar bebês no colo, dormir juntinhos com eles? Sabe o que eu vou fazer? Vou sugerir que eu te leve pra minha casa para que ela leia os manuais tranquilamente ou participe de fóruns na web que tratem de como tratar bebês chorões da madrugada.
Ficaremos juntinhos, eu, você e o vovô deitadinhos na mesma cama, quentinhos e eu vou te contar outra história. Era uma vez uma mãe que chorava porque os manuais não funcionavam e o filhinho dormia algumas noites com ela num colchão colocado no chão. Todos falavam que aquilo era errado. Que ela iria prejudicar o bebê de tanto pegá-lo no colo. Sabe o que aconteceu com aquele bebê? Ele cresceu, ficou forte, colocou mochila nas costas, foi dormir na casa da tia, da madrinha, depois viajou para outras cidades, foi sozinho morar em outro país e nada de ruim lhe aconteceu por ter dormido juntinho com os pais, ter tido duas chupetas e comido algodão doce colorido. 
Hoje aquele bebê cresceu e é pai de um outro lindo bebezinho que está aqui quentinho...

*Frase de Alexandre Reis/escrevendosemeando
**Inspirado em Vou tocar tuba no meu livro de crônicas, Crônicas Gris.



Este post participa da comemoração de aniversário de quatro anos do blog Pensando em Família. Parabéns!
E parabéns também a todos os avôs e avós!

segunda-feira, 22 de julho de 2013

Um lápis cotoco


Estava caído no chão.
Titubeei, confesso.
Num rompante ele estava dentro de meu bolso.
E repentinamente, deixou de ser um lápis para ser ponte e eu seguindo pela ponte cheguei até os bolsos do paletó de meu pai.
Paletó azul escuro. Pesado. Muito pesado. Motivo de muitas desavenças entre ele e mamãe.
Quinquilharias miúdas recolhidas em sua maioria do chão povoavam os compartimentos de tecido. Vez por outra mudavam para a caixa de ferramentas.
Eu só ouso falar os nomes mais fáceis e comuns: porcas e parafusos.
Havia mais, muito mais. Tenho vaga lembrança de um lápis como este, só que vermelho, já cotoco.
Demorei vários solstícios para compreender que todo aquele peso que meu pai carregava em seu corpo era afeto.
Bolsos pesados de afeto.
"Seu Zé, o portãozinho de madeira está caindo".
Mão no bolso e elegantemente o portãozinho ficava empertigado.
Era assim que José Augusto distribuía seu afeto.
O olhar pousava em uma bugiganga acho que imaginando sua serventia. Ia pro bolso.
O lápis do qual eu me lembro, ponta feita na faca, ficava apoiado na orelha. Riscava alguma tábua para que a furadeira não errasse o endereço do furo a ser feito.

Retornando por esta mesma ponte, lembrei de alguém que já escreveu por estes planetas virtuais que gosta tanto de escrever e tem preferência por lápis cotoco. Gosta também de lápis de marceneiro, carpinteiro, pedreiro. Este mesmo aí de cima.

Talvez um dia eu o coloque numa caixinha e envie pelo correio para esta pessoa. Assim mesmo feio, descascado.
Porque agora sei que afeto não é só um objeto lindo, cheirando a novo.
Um lápis quadrado, de pedreiro, marcineiro, tão usado, tão surrado deve ter muita poesia, muitas histórias dentro dele.
Obrigada papai por me ensinar.

Uma curiosidade: vocês sabem por que o lápis de pedreiro/marcineiro é quadrado?
Além de ser mais reforçado, quando se está trabalhando num telhado, o lápis não pode cair. Os redondos são mais propensos a rolar e cair!

sábado, 20 de julho de 2013

Paçoca de carne


Quando penso que já vi de tudo, vejo aqui o maridão com um pilão a sua frente. Com força e precisão lá está ele a socar uma carne bem cozida de costela no fogão à lenha juntamente com a farinha de milho e sal a gosto formando a famosa "Paçoca de carne", que para alguns é mais do que uma refeição, é um alimento da alma, porque além de saciar a fome enche a alma de alegria!
Até meus filhos dizem que é uma comida maravilhosa.
Pena que não sobra nada nem para os cachorros, porque a gente come de lamber os beiços!
Eita comida boa!

sexta-feira, 19 de julho de 2013

Meios de comunicar

Você, assim como eu, fala ao celular? Usa o celular para falar, fazer ligações?
Que absurdo.
Pois saiba que nós somos ultrapassados, praticamente somos considerados pré-históricos.
Onde já se viu usar celular para falar...

Eu não estou brincando. Eu também achava que celular servia para falar!
Uma matéria recente tinha como chamada a seguinte frase "Brasileiros são os que mais usam celular para falar".
E eu fiquei ali pensando, ué, e não é para falar?

Ah! Você é descolado e não usa celular para falar. Você se comunica usando WhatsApp, Vibe, Snapchat e escreve, manda mensagens.
Pois saiba que você também está ultrapassado.

Vamos por partes.
Eu que jurei que não teria um celular, afinal para que eu ia permitir que me encontrassem em todo lugar?
Já não consigo sair de casa sem ele.
Participei de inúmeras promoções do tipo recarregue e ganhe 50 mensagens de texto e atualmente percebi que essas promoções e publicidades estão em baixa.
Com a modernização dos aparelhos móveis, os smartphones, o uso da internet se popularizou e as pessoas estão deixando de falar para escrever na hora da comunicação.

Sobre a pesquisa em questão, de que ainda falamos muito ao celular, vieram duas questões à tona, que eu achei bem interessantes para se refletir.
Por que falamos tanto ao celular?
Temos aí duas respostas. A internet que é ruim, lenta, falha e sobretudo cara.
E falamos muito porque a péssima escolarização não incentiva a escrita ( ? ).
Nunca tinha pensado sobre este ângulo, mas é uma possibilidade...

E já está na "moda" uma nova maneira de se comunicar.
Esqueça o longo post de 140 caracteres no Twitter.
Estamos nos aproximando do dia em que tudo será dito por imagens.

"A turma da vanguarda está descobrindo que se comunicar com uma simples imagem, quer seja uma foto do vai haver para o jantar ou uma imagem de uma placa de rua indicando ao amigo 'ei, estou esperando por você aqui' é mais fácil do que se dar ao trabalho de usar palavras" ( New York Times para Folha de S. Paulo 16/07/2013 ).

Esse é um momento divisor de águas. Estamos nos afastando da fotografia como maneira de registrar e de armazenar um momento passado e convertendo-a em um meio de comunicação.

O que você acha dessa "vanguarda"? Só uma imagem basta? Para que palavras?
Acho que nós blogueiros, ainda os amantes da fotografia, sempre temos palavras, gostamos de nos comunicar assim, senão não teríamos um blog?
Mas o que você acha disso tudo? Estamos chegando a isso, só imagens?

Aqui na roça, apesar de ter chegado sinal de internet, tem um meio de comunicar inusitado.
Fogos! Quando precisa chamar um filho que mora lá pras ribas, sai no terreiro e solta um "fogos". Em cinco ou dez minutos aparece o filho!

terça-feira, 16 de julho de 2013

Açucarados

Foi nos blogs que eu conheci as avós mais doces, seja através de narrativas emocionadas de netos e netas, seja pelas próprias avós que escrevem.
Memórias no ranger dos assoalhados, dos banhos de chuva com bolinhos de chuva depois, com avós cibernéticas que presenteiam netos com blogs, de avós que poetizam o viver, lembranças no cheiro do pó de arroz.
Aos poucos a memória de meus filhos vai acomodando sorrisos, cheiros, histórias de sua avó.

Sebastiana e Júlia

Sebastiana e Bernardo


Estamos passando as férias aqui em Passos, na fazenda dos avós.
O silêncio recortado por grilos e sapos e a absurda escuridão que nos ilumina com um céu coalhado de estrelas, é um bálsamo para os cosmopolitas como eu!






E agora neste mundão velho sem porteira tem internet!
Não é assim nenhuma super conexão, mas eu ainda acho que é a melhor das internets. Sabe por que?
Só pega da janela de um dos quartos. Então a gente coloca o notebook no parapeito, que é daqueles antigos e bem largos, perde o olhar na paisagem, no verde, no azul, na galinha com os filhotes, nos cavalos e inspira um ar puro e se inspira a escrever. É ou não é muito boa?!

 Olha o cachorro Budha!




Todas as fotos foram feitas pelas próprias crianças.