Você foi um bebê cheiroso?
Eu não tenho essa resposta de maneira clara, óbvia, já que minha mãe e meu pai não estão mais comigo para puxarem a resposta da memória olfativa.
O ano era 1971. E as fraldas eram de pano.
Creio que sim, que eu fui um bebê cheiroso. Havia o talco johnson com o qual as mães pulverizavam as dobrinhas de seus bebês. Talvez uma pomada de assaduras, um vick vaporube no peito, um chá de camomila e tudo isso compunha a fragrância dos meus primeiros meses de vida.
Muitos anos depois, lembro-me da Valdete.
Amiga de mãe, Valdete andava sempre com a sua mãe, dona Santa, as duas numa variant azul claro.
Depois da morte do marido e pai, o sustento delas vinha dos produtos Avon, vendidos no catálogo.
Um dia Valdete nos chamou para ir em sua casa. Passamos pela variant azul na garagem e chegamos logo na cozinha. Mas eu ganhei uma surpresa especial, Valdete me levou para o quarto dela e disse que eu podia abrir e sentir "tudo" o que estava ali.
Eu nunca tinha visto nada igual - a penteadeira da Valdete era imensa, ou eu era ainda muito pequena.
Sentada na banqueta, espelhos em três partes e por toda a superfície do móvel, frascos diversos de perfumes, cores, tampas, aromas.
Fui abrindo cuidadosamente um a um, porém tanto tempo já passado, tenho lembrança apenas do frasco cuja tampa era uma maçã. Tempos depois minha mãe encomendou um para mim.
Na escola, eu, uma mocinha ginasial fiz a besteira de comprar um perfume " errado" para mim.
Havia uma garota que se destacava de todas as outras. Era alegre, falante, sorridente, destemida e usava um perfume marcante. Criei coragem e um dia perguntei-lhe do perfume. Ela me respondeu como quem não dá muita importância ao assunto e foi-se rindo e dizendo " ih, pego dos meus irmãos, o Gersinho fica muito bravo comigo que eu estou acabando com o perfume dele, nem ligo.""
Styletto do Boticário.
Pus-me a economizar o que podia e logo estava com o meu styletto. Me senti até com um pouco de medo, mas passei atrás das orelhas e nos pulsos.
Meu pai foi o primeiro a indagar que cheiro esquisito era aquele que eu estava usando.
Pisei na escola e tive meu coração pisoteado de tanta chacota.
Devo ter dado o perfume masculino para meu pai mesmo.
Com quase 55 anos, não tenho uma identidade olfativa. Passo tempos sem perfume, às vezes ganho algum, compro pouco. Não me identifico com os aromas doces.
Daquele desastre do perfume masculino na adolescência, ficou o fundo amadeirado que até hoje gosto e tento encontrar nas fragrâncias femininas.
Nunca tive um chanel n 5 ou outro perfume muito caro.
Meu marido diz que sou mesmo uma eterna alma de flores!
E ele ainda tem a ousadia de mandar a foto e um "lembrei de você!"










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