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quarta-feira, 2 de março de 2016

Um balanço para mim

Finalizei a leitura de um livro e dei especial atenção a uma narrativa onde o pai conduzira a filha para um local para falar-lhe de um assunto extremamente difícil: o porquê dele haver tentado o suicídio por duas vezes.
Embora fosse de um peso, de uma aspereza tal conversa, tudo fluiu com ambos num balanço. A noite era alta e somente eles naquela praça com o balanço a soltar-lhes as angústias, as palavras.
Também me lembrei de Rubem Alves e seu belíssimo livro que traz um balanço dependurado em uma árvore e sua insistência para que houvessem balanços para os adultos, para todas as idades.
Uma forma de voo talvez, ou um acalanto feito cafuné e colo.
Emocionei-me com o livro, com a recordação das palavras de Rubem, mas foi depois, alguns dias, algumas semanas passadas que a emoção veio ainda mais forte.
Eu tive um balanço.
Um balanço só para mim.
Em meio à pobreza e as dificuldades, meu pai construiu-me um balanço. Acho que para dissipar um pouco a tristeza.
Encontramos, eu e minha filha, a fotografia antiga e nela o esmero do seu presente.
Lembrei de ter ido com ele comprar a corda que prenderia o balanço.
Lembrei que tive problemas com o papagaio da vizinha, que devia gostar de crianças e quis-me fazer companhia enquanto eu balançava bem em cima de minha cabeça.
Papai teve que incrementar o seu projeto!
Resgatei o balanço dentro de mim. Para dias difíceis, para noites que se fazem longas, frias, embalo suave a respiração, as recordações, as dores e o dia amanhece. Sempre amanhece.



quarta-feira, 29 de julho de 2015

Precioso presente

"Mãe, qual foi o presente mais precioso que eu já ganhei?"
A pergunta me fora feita por meu filho Bernardo, que tratou de explicar seu intuito: era uma pergunta absolutamente capitalista, então, eu que não viesse com respostas abstratas como "sua vida é seu bem mais precioso".
Seria essa mesma a resposta, o menino já sabia!
Mas, em se tratando de coisas materiais e mensuráveis, dei-lhe a resposta de imediato.
"Dez reais".

Protestos e muitos. Dez reais, que falácia!
Saiu-se com a bicicleta, o tablet, a estimativa de todos os livros juntos ao decorrer de uma dúzia de anos vividos.
Dez reais, eu afirmei, foi seu presente mais precioso.
Um riso irritado e o pedido de "deixa de zoeira, mãe".
Dez reais.

Você foi, como todos os bebês o são, um bebê fofo.
Olhos vivazes, sorriso fácil, encantamento em todo seu pequeno corpinho.
Eu, que não dirijo, saía com você amarrado a meu corpo, no indumento, que à época, chamavam bebê-canguru.
Numa dessas saídas, fui abordada por um mendigo. Clássico. Várias camadas de roupas que não se importavam  com o verão gritante; paletó por cima de tudo; cabelos e barba desgrenhados, sujeira cada milímetro de sua pele e odor ruim.
Claro que tive a certeza de que me pediria dinheiro.
E foi onde me enganei.
O mendigo se encantou com o bebê. Aproximou-se, falou palavras carinhosas numa doce voz, pediu-me se poderia tocá-lo. Eu assenti. Ele acariciou sua cabecinha e seu rosto. Abençoou-o, desejou tudo de melhor e por fim tirou de um dos bolsos do paletó uma nota de dez reais e entregou-me para que eu lhe comprasse um presente.

Do riso irritadiço que achava que eu estava de zoeira, meu filho não controlou as lágrimas que lhe brotaram nos olhos e falou alto com voz embargada: "aonde você estiver mendigo querido, que tenha uma vida digna, comida, roupas, banho".
Abraçou-me e agradeceu por saber de seu presente mais precioso.