Agosto. Eu estava em Belo Horizonte no comecinho de agosto.
" Mãe, você precisa ir comer no A gosto de Deus. Fica ali pertinho da faculdade, o preço é bom, comida simples e caseira; tem muito aluno que come lá. Vai na quinta. Na hora de pagar, eles vão te dar uma raspadinha e daí você pode conseguir um desconto de 20 a 100%. Sempre sai desconto bom. "
Havia tanto entusiamo na voz da minha filha, que eu saí de casa pouco depois das onze da manhã já fazendo planos sobre onde e com o quê eu gastaria o dinheiro do desconto. Há quanto tempo eu não via uma raspadinha!
Um casarão antigo, muito agradável, com a opção de comer dentro ou no amplo jardim.
Estava um dia bem quente, fiquei dentro. Comida simples, a gosto de Deus, não sei não... Penso que o paladar Divino ajustaria uma pitada de algo celestial. Faltou alguma coisa ali.
Fui pagar e raspei a raspadinha. Na incerteza pela falta de óculos, que tinha deixado em casa, e o ambiente mais escuro que dificultava a visão, perguntei à moça de quanto era o meu desconto.
Ouvi, a contragosto, um - "infelizmente saiu zero". Paguei e tive que refazer meus planos já que não teria o dinheiro para gastar.
Um grupo grande de pessoas chegava enquanto eu me dirigia para a saída. Devem ser colegas de trabalho, pensei.
Parei por um momento no degrau que levava para a rua e avistei uma ótica logo em frente.
Ao fazer a mala para a viagem, peguei, nem sei bem por quê, a receita do oftalmologista para novas lentes.
Entrei na ótica.
Como diria meu pai " ideia de jerico". Fazer óculos numa cidade que não é a sua?
Bom, eu não ia mesmo fazer os óculos lá. Só queira um orçamento!
Acabei descobrindo que o preço vem num catálogo, tipo uma revista e é tabelado. O que cada loja faz é oferecer um diferencial. No caso dessa, você fazia seus óculos e ganhava outro par de lentes.
Pedi para a senhora que me atendia a gentileza de marcar todos os valores num papel.
Ela prontamente fez um gesto com o braço, esticou-o a sua frente e pôs-se a escrever. Sua camisa branca de mangas compridas, subiu um pouco e deixou-se ver seu punho, pulso, o qual era adornado por uma pulseira.
Não era uma pulseira. Era um terço de pulso.
Perguntei se ela rezava o terço. Primeiro ela me entregou o papel com os valores ( aliás, parênteses: como estão custando caro os óculos ) ressaltou as vantagens, o prazo de quinze dias para a entrega - e eu que já iria embora na manhã seguinte... ideia de jerico mesmo gastar o tempo da mulher, nem daria tempo de fazer com ela.
Mas então ela se acomodou e me perguntou se eu tinha um tempinho para que me contasse a história do terço.
Enfiei a mão na bolsa a guardar o orçamento e tirei de lá um saquinho. Eu tinha um terço guardado num saquinho e estava vaidosa com isso!
Mostrei-lhe meu saquinho porque achava-o tão bonito. Mas bonito, bonito mesmo era o dela.
Ela também enfiou a mão. Por dentro da camisa branca. Foi rápido, então não sei dizer se pelo ombro, se no sutiã, mas de lá ela tirou o seu saquinho. Liso, simples, carregado junto ao corpo. Eu me envergonhei da minha vaidade vazia.
" Aprendi com minha avó - contou-me sem pressa na voz - a rezar e desde menina sempre rezei, parei por uns tempos na juventude, depois voltei. Tinha um terço que eu gostava muito, de tanto usar, ele soltou uma bolinha. Perguntei para o padre se ele sabia de alguém que pudesse consertar para mim. Mas o padre pareceu não dar importância e eu saí de lá bem chateada.
Acredita, que passado um tempo, o padre entra por essa porta aqui? Eu estava atendendo um cliente e ele disse-me que esperaria o tempo que fosse necessário.
Então entregou-me um pacotinho e me disse que tinha feito uma viagem à Terra Santa e lembrou-se de mim com o terço quebrado. Então trouxe um feito mesmo de madeira de oliveira de lá. Fiquei tão emocionada que chorei! Rezo todos os dias nele e sempre o carrego comigo. "
A gosto de Deus, a comida não era lá aquelas coisas, a ideia dos óculos foi estapafúrdia , só que essa história, eu achei tão delicada, sincera, de uma beleza tão única num mundo tão cheio de violências, guerras, catástrofes...
Agosto me trouxe esse prêmio na raspadinha! Uma história de fé!


Ana, realmente não era o dia de raspadinha, muito menos dos óculos, mas era dia de graça e presente de Deus, numa história tão boa, leve e doce de ouvir!
ResponderExcluirAdorei! Linda semana!
beijos, tudo de bom,chica
Oi, Ana Paula! Pra muitos a raspadinha é mais Sagrada que rezar o terço, não é mesmo? Há situações em que a voz de Deus fala claramente pra quem se dispõe a ouvir. Muito bonito! A singeleza presente é louvável num mundo cada vez mais caótico e apressado como o atual. Boa semana pra ti e sua família. Um fraterno abraço!
ResponderExcluirAna Paula, que linda essa sua história de fé! Realmente o terço contém inúmeras lendas, origens diversas, mas o bom disso tudo é quando você assistindo um filme apaixonante e em algum momento você, embevecida pela trama sente o porque das repetições e também cheguei no padre José de Anchieta que fazia os indiozinhos a repetir rezando e aprendendo a língua! Também voltei a rezá-lo fico mal quando não consigo. Conheci também para que se reza as três aves maria antes do terço!
ResponderExcluirGosto muito do terço da Providência e da oração final. Ana Paula, ficaria aqui escrevendo muito e muito mais sobre as orações. Mesmo sabendo que o riso é reza, quem canta, reza duas vezes!, etc, etc. Beijos!
Amiga Ana Paula, boa noite de paz!
ResponderExcluirTem coisa muito mais valiosa do que ganhar na sorte...
Você proco, uma vez mais, que é assim com o que nos contou aqui.
Tenha uma nova semana abençoada!
Beijinhos fraternos
Olá Ana Paula!
ResponderExcluirVocê pode não ter ganhado na raspadinha e nem na compra dos óculos, mas ganhou uma história linda!
Adorei seu texto!
Beijos!
Olá Ana Paula
ResponderExcluirComo sempre é uma delícia ler você!
Quando acaba eu penso: mais já?! Rs.
Amei seu relato sobre raspadinha e o terço, você acredita que gosto de terço de criança? De florzinha...
Amei estar aqui.
Abraço mineiro pra vc.
Gostei destas historias Ana. Mas este restaurante fiquei curioso, para indicar aos meus amigos em Belô, para eu rir deles na rapadinha ou não, apesar deles gostarem mesmo é de estar pelo Mercado Central.
ResponderExcluirInteressante a historia do terço. Merecia mesmo compartilhar.
Que agosto seja a gosto de Deus amiga.
Abraço ao cruzeirense sangue bom da familia.
Bjs de paz amiga.
Querida amiga Ana Paula,
ResponderExcluirUm dia é bastante tempo para termos experiências variadas, no seu caso o restaurante foi mais ou menos, a da ótica talvez não fosse o momento ideal, mas essa do terço sim foi a redenção do dia. Quantas coisas podemos viver num único dia, isso que torna a vida fantástica e inesperada! Adorei o seu texto e as aventuras desse dia cheio de surpresas!
Um abraço!