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quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020

Preciso de óculos

Preciso usar óculos.
Tenho afastado cada vez mais a embalagem de pão para poder enxergar a data de validade. É um sinal.
Cheguei a telefonar para uma clínica na antiga cidade em que morávamos, fiquei de ajustar os horários, porém depois veio a possibilidade da mudança e fui adiando.
Já instalada, ainda falta chegar o sofá e eu temo ter é que procurar um ortopedista ao invés do oculista!

Mas, como eu dizia, já instalada, resolvi que vou usar meus óculos e para isso preciso encontrar um oftalmologista aqui aos aredores da nova moradia.
Bastava um google e facilmente se resolveria a busca.

Ah, estou envolvida em conhecer os pedacinhos, as peculiaridades, o comércio, o pão de cada padaria e não seria diferente com o profissional dos olhos.

Já andei muito aqui pelo bairro e reclamei com marido: "nossa, aonde foram parar os oftalmologistas, não encontro um consultório".

Quase me rendendo a uma busca pelo google, eis o que vejo:


Um banner enorme, um outdoor, enfim uma bela publicidade: moço bonito com seus óculos, sorrindo, não tive dúvidas, toquei a campainha e entrei.

Não havia uma secretária no local, coisa comum nos tempos atuais, redução de gastos. Um simpático homem estava ali e antes de dirigir a palavra a mim, despediu-se de uma cliente que saía segurando os óculos em uma das mãos e lhe se despediu com um "até o mês que vem".

Gostei ainda mais, profissional com retorno é sempre bom!

Então fiquei de frente para o homem e lhe perguntei o valor da consulta.

Bem, depende - foi o que ele me respondeu. A senhora precisa exatamente do quê, clínico geral...

Tive um pensamento rápido, assim, faz tanto tempo que não vou a um oculista que as coisas devem ter mesmo mudado, deve haver muitas especializações na área.

O pensamento foi tão rápido a ponto de eu interromper enquanto ele pronunciava o clínico geral.

Então, é assim. Para minha filha, pode ser mesmo mais geral, ela só precisa de um exame de grau. Já para mim, por causa da idade né?, preciso de um exame mais detalhado, fundo de olho, pressão, essas coisas.

Olhou-me profundamente o homem. Não saberia precisar exatamente quantos segundos durou aquilo.

A senhora está procurando exatamente o quê?

Um oftalmologista.

Aqui é uma clínica odontológica.


_______________________________________******___________________________________

Considero-me uma pessoa pacífica, mas juro que naquele momento tudo o que eu queria era uma escada enorme para fazer aquele sujeito subir lá até onde estava estampado a fotografia do moço de óculos e fazê-lo desenhar com canetinha preta um aparelho nos dentes do sujeito.

Saí de lá com o cartão do dentista, que era o próprio homem simpático que me atendeu.

Defronte para a casa de paredes azuladas olhei fixa e demoradamente - estava mesmo escrito clínica odontológica.

Sigo ainda sem meus óculos; relevem qualquer erro de digitação.

sábado, 24 de fevereiro de 2018

Com amor

Sem amor é o título de um filme que concorre ao Oscar 2018 na categoria de filme estrangeiro.
Não sei absolutamente nada sobre a premiação desse ano. Não assisti a nenhum dos filmes indicados, apenas um comentário num programa de tv falando e mostrando algumas cenas do "sem amor". Pais sem conexão alguma com o filho, sem o mínimo de afeto. Não senti vontade de assistir ao filme, embora deva ser interessante. Infelizmente não se trata de uma história inédita. Há mais crianças, filhos sem amor do que a gente queira saber...

Mas eu quero mesmo falar é da cena de filme que vi há pouco na rua, enquanto passeava com o cachorro. 
Fosse um filme, o melhor título seria : Com amor e com torcicolo.

Enquanto eu esperava o cachorro terminar a sua "cheiração"num pedaço de grama, avistei ainda distante uma bicicleta que vinha titubeando, tipo eu, depois de trinta anos sem pedalar!
À medida que a bicicleta se aproximava, recolhi-me mais ao canto para dar passagem, num misto de receio e curiosidade.

O homem estava bem equipado "de ciclista". Capacete, roupas. Pareceu-me mesmo alguém experiente nos pedais. Mas por que o ziguezague?

Bem mais próximo, notei e exclamei!
Havia uma cadeirinha própria de levar crianças acoplada logo atrás do homem.
Ali sentada estava sua filhinha. Também devidamente equipada: capacete de ciclista-mirim, cinto de segurança.

Mas...

A pequena adormecera. Talvez o embalo, talvez o cansaço das brincadeiras, enfim, ali no banco de trás da bicicleta, uma menininha dormia.
O pai, segurava com o braço direito o guidão. O esquerdo, se contorcia para trás segurando a cabecinha da criança.

Passou meio vagaroso e cambaleante por mim e ao ouvir minha exclamação sobre o adormecer da garotinha, ele disse, entre o desconforto da situação e um certo orgulho do heroísmo: "Minha filhinha dormiu!"

Amanhã certamente ele acordará com torcicolo!

Com amor, que assim sejam os pais!

quinta-feira, 31 de março de 2016

A garota multimarcas

A ordem havia sido quebrada na agência do correio, onde eu fui postar minhas cartas de cerca de 20 gramas.
Na verdade, a máquina de senhas estava quebrada. Naquele dia, ou ao menos, naquela manhã, não seríamos um número precedido por uma vogal ou consoante impressa em maiúsculo em pequeno pedaço de papel amarelo.
De acordo com o serviço solicitado podemos ser A132 ou H233. Em dias de ordem reinante, tocamos na tela da máquina, escolhemos um serviço e saímos em direção a cadeiras coletivas alternando um olho no nosso papel e outro nas telas espalhadas. Vez por outra espiamos o número da pessoa que está ao nosso lado.
Mas, naquela manhã, ninguém sentava. Formamos uma fila indiana.
Não havia telas e por isso haviam pessoas na fila e não números precedidos por letras.
Estava à minha frente o homem de terno e gravata, a menina de jaqueta, embora eu achasse que estava fazendo calor par uma jaqueta ( meu filho chama isso de  " estilo " ). Atrás de mim, acabava de chegar uma senhora jovial perguntando o porquê da fila. Uns olhavam o celular. Eu olhava a moça que seria a próxima a ser atendida, lá na frente.
Trajava roupas de academia, ou de caminhada, corrida, esporte, fitness ou seja lá que nome isso tenha.
Fixei-me em seus pés. Acho que por conta da minha necessidade de comprar um par de tênis. É sempre bom ter um parâmetro.
Era um adidas, solado bom. E ali dentro dos tênis, eu pude ver as meias. Do tipo sapatilha mas que mostra só um pedacinho no tornozelo. Achei bonito aquilo, um estilo, como diria meu filho.
Puma, era a marca das meias.
Subi o olhar, uma saia bem pequena que já não me fica bem copiar. Estava escrito Asics e a blusa era rebook.
Demorei um tempo a pensar nas muitas marcas.
Será que a moça faz questão de ser plural?
Será que, num descuido ela vestir blusa e meias da mesma marca, volta para trocar?
Em mãos segurava um envelope amarelo escrito em caligrafia bonita Santander Crédito Imobiliário.
Mas foi quando abriu a bolsa para efetuar o pagamento ( a essa altura, ela já tinha sido chamada ao atendimento ) que eu me encantei.
Sua bolsa era um modelo ecobag, cor cru, escrito em letras de forma grandes porém discretas "INHOTIM".
Desejei a bolsa. Era exatamente o modelo, o jeito, a cor que eu queria.
Senti vontade de perguntar-lhe se teria ido e gostado de Inhotim, o famoso e maior centro de artes ao céu aberto da América Latina.
Parecia muito óbvio. Por outro lado, poderia ter sido um presente e ela nunca havia estado em Inhotim.
Fiquei também a pensar se cairia bem eu usar uma bolsa escrito INHOTIM, sem nunca ter pisado por lá. Ou talvez eu me explicasse - nunca fui, mas bem sei que é belo e por isso saio com ela por aí para inspirar muitas pessoas a irem passear por lá.
Não sei. Fiquei com a dúvida.
Tivesse as telas, a máquina de senha funcionando, estaríamos lá, robotizados.
Deixar de ser uma senha numérica, precedida por uma letra em maiúsculo, faz a imaginação correr, voar... e depois dá até para virar crônica do cotidiano!

terça-feira, 15 de março de 2016

Não ajudei a velhinha

O dia estava pesado.
Amanhecera pesado, estava pesado e possivelmente assim continuaria...
Pesado o ar; céu carregado, nuvens densas, escuras; um calor sufocante mesmo sem o sol e o peso de ter que enfrentar resoluções burocráticas.
Acessei, mesmo que não precisasse, bastava olhar pro céu, a previsão do tempo no celular. O desenho da nuvem com o raio a lhe escorrer do meio confirmava que o mal tempo chegaria.
Coloquei o guarda-chuva na bolsa e saí.
Sair antes que a chuva começasse a cair dava-me um pouco de ânimo.
Cheguei ao destino, não consegui resolver o que precisava e apertei o passo para voltar antes que o céu desabasse.
E foi na minha pressa que uma velhinha me parou:
 - Você sabe onde tem uma sorveteria? Será que lá na avenida tem?
Faltava uns poucos minutos para as dez horas da manhã. O céu sobre nossas cabeças era tão assustador que a última coisa que eu pensaria era em sorvete.
Mas a velhinha estava ali na minha frente, sem afogamento algum. Trajava um vestido simples e confortável de uma estampa suave azul-claro.
Disse-me que acordou com vontade de tomar sorvete hoje. E não servia nem de mercado, nem de padaria. Ela queria mesmo uma sorveteria. " O dia está abafado, muito bom para um sorvete, não acha?"
Desculpei-me por não poder ajudar. Eu não conhecia aquele bairro, seus arredores. 
Ela me olhou firme e disse quase ter certeza de haver uma sorveteria na avenida.
"Mas não está longe a avenida?" - eu indaguei.
Talvez eu tenha julgado a distância com a idade, mas ela pareceu nem se importar com isso. 
Respondeu-me que iria devagar, fazia bem caminhar.
Desejei-lhe um "bom sorvete" e segui.
Entrei no ônibus e um pouco depois, pela janela, vi uma sorveteria.
Deveriam ter acabado de abrir. Uma funcionária passava pano no chão.
Dali a um pouco, a velhinha estaria ali certamente escolhendo seu sabor predileto.

Já em casa, sem ter feito uso do guarda-chuva me peguei pensando que quando li o livro Comer, rezar, amar e depois assisti ao filme, desejei tomar um sorvete às nove da manhã, na Itália. Ainda não pude, talvez não irei, continuo a desejar...
Mas aquela velhinha também não estava indo para a Itália. Por enquanto ela tinha uma sorveteria um tanto longe para seus passos, mas tão próxima de lhe proporcionar uma alegria.
Eu não pude ajudar a senhora.
Foi ela que me ajudou, mesmo sem saber.

A previsão do tempo no celular se equivocou.
Não choveu no horário determinado. A chuva só veio cair no começo da noite.
O dia, afinal, estava mesmo perfeito para um sorvete.
E agora que sei o endereço da sorveteria, vou aparecer por lá, assim numa manhã qualquer!

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

No meu dicionário


Qualidade da foto de uns setenta anos atrás. Relevem.
Eu mesma no retrato. Sorrindo para disfarçar o desconforto do peso da mala.
Sem rodinhas, sem alças. De mão mesmo.
Não acredita que estava pesada?
Pois bem, ali dentro eu carregava todas as palavras do mundo. Do meu mundo, do meu idioma. Todas devidamente registradas no pequeno, porém grosso dicionário escolar.
Durava por vários anos. Era bem cuidado: havia um canto especial para ele dentro da mala.
Acontecia de repentinamente uma professora solicitar um outro dicionário pois para ela, aquele já não era tão bom, havia um mais atualizado. Até podíamos utilizar o antigo, mas no geral ele era substituído.
Eu realmente acreditava que todas as palavras estavam ali. Tentei até imitar uma colega de sala muito inteligente que lia dicionário. Apenas tentei e não avancei nem até a metade do "a".
Em algum momento do primário alguém descobriu que havia lá um palavrão.
Claro que fui procurar. Em casa, escondida, cheia de culpa, achei o sinômino de duas letras para ânus. Foi um horror.
Outro horror foi logo no início do ginásio um professor severo nos revelar que a língua era viva e que dicionários nasciam de tempos em tempos. O que significava que uns outros tantos ficavam obsoletos.
Que decepção. Achava que fossem irretocáveis.
E fui ao longo dos anos me habituando com uma ou outra palavra que merecia entrar numa edição revisada.
Muitas me causavam estranheza, repúdio, mas segui carregando dicionários malas a dentro.
Agora, já me acostumei com a língua viva. No final do ano, por exemplo, sei que uma palavra será eleita para adentrar no conceituado dicionário Oxford.
"Selfie" já ganhou seu lugar.
Emoji foi a eleita do ano que passou. Aliás nem foi a palavra, mas sim aquela carinha de chorando de alegria.
E assim seguem nossos dicionários, ora reformas ortográficas, ora novas palavras.
Acabei de me lembrar que a tal busca pelo sinômino de ânus com duas letras caiu no ouvido de algum padre em absoluto segredo de confissão. Lembro-me de ele ter me dito para nunca mais ficar procurando essas palavras pecaminosas.
E realmente eu nem procuro mais.
Nem preciso mais procurar. Elas me chegam assim, do nada.
E nem me causam mais espanto, nem me levam mais para o confessionário.
Quer um exemplo?
Você é foda, hein?!
Sim, isso mesmo que você leu: você é foda.
Agora, se você está achando que eu te xinguei ou estou a usar um termo chulo, meu amigo me desculpe dizer, mas, você está mais ultrapassado que essa foto aí acima.

"Para essa geração, foda é adjetivo e não palavrão"
Pitty Leone

Sacou? Você é foda é o maior dos elogios que uma pessoa pode receber.
Dizer que você é o máximo é pouco perante a grandiosidade desse imenso, agora, adjetivo.



domingo, 30 de agosto de 2015

Aconteceu no cinema


Não dirijo.
Opção esta que não me dificulta em nada; mas, às vezes, algum contratempo pode ocorrer.
Foi o caso da melancia no cinema.
Não que eu tivesse pendurado uma melancia no pescoço para ir ao cinema. 
Longe disso que um mínimo de noção eu ainda tenho.
Mas não nego que fui ao cinema portando melancia.

O fato de ter feito a opção por não dirigir, exige planejamento para as coisas cotidianas, para que se aproveite o melhor do tempo e das caminhadas.
Foi o caso do cinema.
Decidimos, eu e as crianças, assim no repente.
Saímos com folga de tempo. E fomos à pé, afinal temos um pequeno shopping próximo a nossa casa.
É pequeno se comparado com os tradicionais, porém supre as necessidades ao unir num mesmo espaço cinema e mercado.

A prioridade eram os ingressos para assegurar um bom lugar, já que as salas são para um público pequeno. Chegar em cima da hora significa ficar com a tela muito próxima ou desistir da sessão.
Escolhemos bons lugares centrais.
As crianças pediram alguma guloseima para acompanhar o drama que nos aguardava.
Claro! Exclamei.
E os fui puxando ao som das interrogações de mãe, mas nós não vamos comprar um chocolate?

Os tempos são de crise e como tínhamos ainda tempo antes do início do filme, eu fui economizar tempo e dinheiro indo comprar no mercado a alguns passos da "vendinha" do cinema onde os preços são exorbitantes.

Peguei um cestinho logo na entrada do mercado.
Mas precisa de cestinho só para pegar um chocolate?

Bem, quando não se dirige, o pensamento tem que ser rápido como virar à esquerda ou à direita.
Sendo assim eu pensei em já comprar umas coisinhas além do chocolate, assim pouparia uma outra vinda ao mercado no dia seguinte. 
Pegaram os chocolates e eu peguei a melancia.
Melancia?
Você vai entrar no cinema com uma melancia?
Sim.
Ah...
Ah, mas se eu não levar agora, quando sairmos do cinema, o mercado estará fechado e quem quererá vir comigo amanhã cedo ao mercado?!
Consentiram a melancia.

Saquei minha sacola de pano e acomodei ali dentro a melancia para que não chamasse a atenção.

Lugares demarcados em nossos ingressos, entramos, sentamos e eu acomodei com delicadeza a melancia no chão.
E então começou um tal de passa gente pra cá, passa gente pra lá. Eu levantava a melancia, punha de novo no chão. 
Licença, licença...
Encolhia as pernas torcendo pro salto da moça não infincar na melancia.
Que sufoco. Que gente chata passando de um lado para o outro.

Choramos no filme. Era bem triste.
Saímos refletindo e conversando. A melancia seguiu no escuro da noite dentro do escuro da sacola.
Já em casa, veio a vontade da melancia.
Fatias generosas do nosso 1/4 da fruta. Era preciso adoçar a noite diante da tristeza da película.

Estava estragada. Completamente estragada.
Eu custava a acreditar; o cheiro não deixava dúvidas.

Um dos filhos com habilidade de leitura de pensamento materno já foi logo dizendo:

"Nem pense em ir reclamar no mercado, porque eu tenho certeza que você vai dizer que levou a melancia no cinema e a moça vai achar isso muito estranho".

Eu também achei estranho. Até agora não sei se foi toda aquela gente passando e a melancia indo do colo ao chão, se espremendo debaixo dos assentos.
Ou se ela, a melancia, também se ressentiu de tanta tristeza daquele filme que até azedou.

Voltei lá no dia seguinte e trouxe laranjas.

quinta-feira, 28 de maio de 2015

Creme para as mãos

A tarde era abafada. O verão mostrava o seu ápice.

Eu, porém, estava sentada num ponto de ônibus a esperar pelo coletivo 131 - Terminal Central. Talvez outros servissem ao itinerário por mim desejado. Sendo novata na cidade, ative-me à indicação anteriormente recebida, mesmo percebendo que o tal 131 fosse dos mais demorados a passar por ali.

Foi boa a espera.

O ponto de ônibus com cobertura, bancos em bom estado e imensos painéis fotográficos em sua estrutura, uma espécie de papel de parede; era local agradável de se ficar em espera.
E o numeroso conjunto de edifícios acima e à direita, refrigeravam o pouco vento que flutuava por entre tanto concreto e vez ou outra uma lufada amena chegava.

O ônibus não chegava.

Chegou o primeiro cheiro de creme para as mãos.
Depois outro.
E mais outro.

Inacreditável: minha memória olfativa reconhecia todos; lembrei-me do tubinho branco com tampa verde-água de algum catálogo.

Desviei, não sem receio de perder o coletivo, o olhar do sentido do qual viria o ônibus e voltei a cabeça para o sentido do qual vinham os cheiros.

O horário era entre 16:03 e 16:08.
Elas vinham silenciosas da direção dos prédios carregando as mais variadas denominações: faxineira, empregada, diarista, doméstica, secretária do lar, cuidadora, ajudante.
Chegavam ao ponto do ônibus esfregando, sem pressa, uma mão na outra num cuidado delicado.

De algumas só o cheiro 'aparecia', em outras, via-se o tubo de fechamento prático sendo guardado na bolsa antes do ritual de deslizamento de uma mão na outra começar. 

Era um horário coletivo para a saída dessas trabalhadoras.

Esperavam pelo coletivo que as conduzirá até seus lares, e, com as mãos perfumadas lhe faziam o gesto de "pare, por favor, é o meu ônibus".

Talvez o creme para as mãos significasse a missão cumprida depois de um dia de labuta.

Talvez o creme fosse um bálsamo, um relaxante para mãos que fazem um trabalho para que outras mãos possam fazer outro.

Talvez o creme amaciasse a aspereza de uma vida cheia de falta de oportunidades.

Talvez o creme fosse vaidade daquelas que reconhecem a beleza das próprias mãos e do trabalho que elas executam.

Talvez o creme para as mãos tivesse para cada uma delas, moças, senhoras, mulheres, um porquê diferente.

Talvez fosse apenas um creme.

Acenei para o 131 e subi pela porta dianteira deixando atrás de mim aquela tarde quente e perfumada.

domingo, 3 de maio de 2015

No açúcar, café.

Estávamos, eu e marido, encostados em um balcão de padaria e a presença do açucareiro ali à nossa frente, trouxe um doce recordar vivido por ele na infância.
Não havia açúcar refinado, branquinho na fazenda. O adoçar era tarefa da rapadura.
Até que um dia, os doze filhos de Antônio e Sebastiana se deparam na cozinha com um saco de cinco quilos de açúcar União.
Dentro daquele pardo papel,o açúcar era ainda mais alvo.
A princípio veio a admiração: minúsculos pedacinhos perante a rapadura grande, escura e também não tão abundante.
Em dose homeopática, uma pitada na boca de cada um.
Marido disse que era algo indescritível aquela novidade.
Mas aquela alegria não durou muito.
O alvo açúcar dentro de um saco pardo de papel grosso e costura reforçada começou a ser alvo daquelas mãozinhas que aos punhadinhos fizeram Tiana estranhar o rápido esvaziamento de tal preciosidade.
E não durou o saco de açúcar até o mês seguinte na ida à venda, à cavalo.

A mãe, Tiana, precisou pensar rápido. Guardar no alto afastaria os menores, os já grandinhos bem poderiam subir em cadeiras; ficar de sentinela e espantar cada mãozinha com seu punhadinho de açúcar bem fechadinho ali entre os dedos, tomaria muito tempo e eles eram sorrateiros e havia tantos outros afazeres.
Não teve dúvida a matriarca, misturou pó de café no açúcar. 
Acabou a disneylândia bucólica!
Nenhuma mãozinha ousou colocar um punhadinho da mistura na boca.
Ou se algum deles o fez, não revelou até hoje o que sucedeu!

quarta-feira, 29 de abril de 2015

Carmela Caramelo

Comprei uma revista pois queria uma leitura descontraída, livre de uma sequência, leve, rápida.
Mas fui paralisada ao abrir a revista. Ali, na chamada segunda capa, uma publicidade - toalha antiformiga. Fiquei por ali mesmo.


As formigas da minha infância eram de um marrom bem escuro e subiam apressadas pelo tronco do pessegueiro e creio, nunca lhe fizeram mal. Ele floria bonito e alimentava os passarinhos que eram sempre mais rápidos que meu pai a colher um fruto.
Espantei-me quando numa estradinha de terra me mostraram uma saúva.
Já adulta aprendi a, antes de dormir, pegar um prato fundo, colocar água, um copo no centro e o prato com alguma guloseima por cima do copo. Disseram-me: formiga não sabe nadar, a gostosura fica a salvo.
Nem sempre, pois me lembro de uma vez da gostosura descia um papel seda com franjas e as formigas ficaram na ponta das patas para alcançar com os braços a ponta de franja e fizeram sua festa particular.
Todas esses coisas que eu me lembrando, era apenas para chegar à principal.
À doce Carmela Caramelo.
Uma senhora de corpo franzino que um dia me pediu para ir ao centro comercial da cidade e compra-lhe uma caixa de giz.
Colorido? perguntei.
Não vou brincar de amarelinha, ela respondeu sem doçura.
No caminho, sem saber o porquê eu estava comprando giz branco, desci com meu corpo miúdo até a sala dos professores do colégio onde estudava para obedecer ( feliz ) ao pedido da professora Sônia - vai até lá e enche a caixinha com giz colorido. Segurei com cuidado aquela preciosidade de madeira.
Ao chegar naquele local meio misterioso, meio proibido, alguém perguntou o que eu queria e me indicou um canto da sala. Lá estava! Uma enorme caixa cheia de giz branco e outra igualmente enorme com os coloridos.
Escolhi um a um, devia ser para me demorar bastante diante daquela maravilha. Um verde água, o amarelo, aquele salmão tão lindo, azul, cor de rosa.

Comprei os branquinhas da senhora. E naquela mesma tarde vi Carmela acocorada riscando o chão.
Só então me revelou:

Um homem muito sábio que mora embrenhado lá na mata da praia foi que ensinou. O giz branco atrapalha os olhos da formiga; precisa ser em listras e elas nem entram em casa.

Deve ter funcionado, porque a doce Carmela nunca me pediu para comprar qualquer inseticida e ela fazia feliz doce de goiaba.
A sabedoria do velho da mata da praia deve ter funcionado.

Chovia, Carmela esperava o chão secar e lá ia rabiscar.

Olhei bastante para a foto da revista. Era isso! A tal toalha antiformiga tinha listras feito o giz branco de Carmela no chão. Era isso que confundia os olhos das formigas.

Eu só me arrependo de ter estragado toda essa doçura ao procurar na internet o que era uma toalha antiformiga.
Vou esquecer a pesquisa e guardar comigo o chão riscado de giz branco da doce Carmela!

domingo, 26 de abril de 2015

Na banca de jornal

Aos sábados me apraz ler jornal.
Jornal de domingo, não gosto. Traduziu bem uma personagem num livro: jornal de domingo não tem nada de útil, ao que o marido retrucou, mas essa é a intenção mesmo, não ter nada de útil.
Muita publicidade de lançamentos de apartamentos para o meu desgosto.
Prefiro sábado.
Costumo ir cedo à banca. Ontem, porém, estava um pouco indisposta, na verdade acho que nem era indisposição, mas aquela sensação de que não se precisa ter pressa.
Fui no meio da manhã.
Há uma espécie de estante gradeada que fica para o lado de fora da banca e em cada divisória, pilhas de um determinado jornal.
Procurei a minha, que geralmente é a maior.
Havia somente um exemplar,  o que me angustiou.
Eu deveria ter ficado feliz, afinal ainda havia um. Ao contrário, fiquei pensando que se eu demorasse mais um pouquinho só que fosse, ficaria sem o jornal.
Peguei-o e me dirigi para o interior da banca. entreguei o jornal ao jovem que me atendia e precisava registrar o jornal em alguma maquininha que emite luz.
Não me contive, precisava me aliviar daquela sensação.

Acabou mesmo o jornal, ou você tem outra pilha aí dentro?

Não, acabou mesmo - respondeu-me com um sorriso na voz.

Nossa, tão cedo né? Costuma ter bastante até na hora do almoço.

Pois é, a senhora não vai acreditar. Um homem levou seis.

Eu espalmei a mão esquerda próximo ao meu rosto e coloquei o dedo indicador em riste para em seguida repetir incrédula:

Seis?

Isso mesmo, seis - agora ele respondeu com um ar de graça na voz.

Meus cotovelos estavam falantes e eu fui logo emendando - poxa, seis... ah e você não morreu de curiosidade para saber o que ele faria com seis jornais? Eu já teria perguntado, não me aguentaria. Sabe, eu costumava encontrar um senhor, na outra cidade, quase todas as vezes que eu ia comprar o jornal de sábado e ele sempre pedia dois. Num sábado chuvoso ele me olhou, devia ser nosso terceiro esbarrão, e disse que sempre levava dois jornais, um para ele e outro para a mulher. Achava muito incômodo estar lendo e ela ali pedindo me passa o caderno internacional, já terminou a política. Eu não gosto de ser importunado enquanto leio, então resolvi esse impasse. Sempre compro dois.

Num outro sábado de verão, após um bom tempo sem reencontrá-lo, lá estava ele. Pediu na minha frente um jornal. Acho que ele deve ter lido meus pensamentos, ou os meus olhos transmitiram a minha indignação.

Abriu um sorriso e disse apenas - minha mulher está na praia!

Então eu realmente teria perguntando a esse sujeito por que levar seis jornais iguais.

A senhora não vai gostar da resposta, agora um sorriso maroto acompanhou a resposta.

Suspendi as sobrancelhas.

Para os cachorros. Ele leva os jornais para os cachorros.

Baixei as sobrancelhas e caímos na risada ao mesmo tempo!

Uau! Jornal fresquinho hein? Que luxo com os cães.

Já sei que em qualquer outro sábado que eu queira comprar jornal, é melhor chegar antes do homem dos cachorros!


quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

A latinha

"Mãe, não acredito no que você fez. Você viu sua cara? Coitada da menina. Nossa, você me decepcionou. Eu tô até com vergonha da Camila. Juro que eu não te entendo".
Nossa, será que foi tão ruim assim? É acho que foi. Mas há coisas que minha filha nunca vai entender. Ela não viveu aquilo.

Bem, a Camila amiga da minha filha convidou-nos para a sua Primeira Comunhão. Não pudemos comparecer e enviamos uma lembrancinha para ela pela ocasião. Ela então veio em casa dias depois do evento trazer um recordação da festa que os pais ofereceram.


Este era o presentinho que ela trouxe.
Não exatamente assim: havia uma fita branca que se enlaçava em belo laço.
E quando ela entregou nas minhas mãos aquela latinha...
Reconheço mesmo que minha cara deve ter sido das piores.

Quando eu era mocinha, eu trabalhava.
Ah, naqueles tempos em que se podia trabalhar. Trabalhava e estudava à noite.
Trabalhava em uma clínica médica como recepcionista. Dois pediatras, dois clínicos, um oftalmo, uma desntista, duas psicólogas e um pequeno laboratório para exames simples.
Meu turno era o vespertino, começando às 13 horas. Devido ao meu bom desempenho, propuseram-me que passasse para o turno da manhã. Havia muito mais movimento e precisam de uma pessoa desenvolta feito eu. 
Aceitei, assim teria livre o período da tarde para estudar e não ter que sair correndo para a aula.
E foi logo no primeiro dia matutino do meu serviço que eu percebi que não devia ter aceitado.
Eu chegava para abrir a clínica e já uma fila grande. 
Entrava, abria as janelas e então começava a função de verificar agendas, pegar fichas nos enormes fichários de metal, atender telefones e receber latinhas.
Receber latinhas, como esta aí de cima.
Era o exame de fezes.

Sabe, minha filha e a amiguinha dela nasceram numa época em que nem mais é preciso jejum para fazer exame de sangue; exame de fezes então, não sabem o que isso.
Mas eu sei e sei muito bem.
Hemograma, urina e exame de fezes. Eram esses os exames mais solicitados pelos médicos da clínica e os pacientes vinham, geralmente no dia seguinte ao da consulta para tirarem o sangue e entregarem suas latinhas para mim.
Umas vinham em saquinhos plásticos cor de rosa, dos que tem nas feiras, outras embrulhadas em jornal, papel de pão, nua e crua, com elástico. Independente da meneira como se apresentavam, algo em comum: todas exalavam.
E ainda tinha a pergunta que eu precisava fazer já temendo a resposta - "O senhor colocou o nome?"
A fita crepe ficava ao meu lado no balcão. Cortava um pedaço sem estética mesmo, escrevia o nome do sujeito, desembalava a latinha, grudava ali o nome, implorava aos céus por uma ventania e chamava o próximo.
Eu não gosto dessa técnica, ou tática de olhar e procurar gente em pior situação para dizer "tá vendo, olha lá se fosse como ele". Mas nesse caso das latinhas, eu fazia. Pensava no Ronaldo, o cara do laborário que chegava às oito, tomava um café ali na cozinha da clínica e se trancava em seu laboratório com as latinhas enfileiradas.

Então, quando a Camila me entregou aquele presentinho sincero, todas aquelas manhãs saíram de recônditos da minha memória assim, de  sobressalto. Não pude evitar a cara,sei lá do quê, que eu fiz. Desculpe-me Camila; desculpe-me filha.

Já ia me esquecendo de uma parte daquele meu trabalho. Desenvolta eu era, mas não para tanto.
Sempre havia um alguém ou um telefonema a perguntar "moça, como faz pra colocar o exame de fezes na latinha?"
Ah não, isso era demais para mim, não respondia mesmo. Não sei, não faço a menor ideia e vou chamar o Ronaldo ou liga para ela no final da tarde.
Eu não poderia falar da desenvoltura da minha mãe para tais exames a mim solicitados.
Primeiro, tomar um sorvete chicabom e não, não jogue o palito fora. O resto da história, só quem viveu, sabe!

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

De acrílico laranja


Era cedo e estava lá. Cedo de ainda não ter batido o sinal do colégio, mas os adolescentes apertavam o passo. Quase o sinal batendo. Ainda assim cedo.
Quis fotografar, mas tive vergonha. Havia movimento, mesmo sendo passos apressados, estavam lá e me julgariam por fotografar uma prancheta deixada no chão.
Voltei para casa e percebi que tinha trazido a prancheta comigo. Mentalmente, mas trouxe.
Apoiei os pensamentos ali e ficou bom para escrever. As ideias fluíram.
Tive, quando criança, dois de muitos desejos: ter uma prancheta e uma gravador.
O gravador não tive, o pai dizia que era muito caro.
A Neide teve o gravador. E a Neide era a mãe da minha amiga, que resolveu, quase perto dos 40 fazer faculdade de direito.
Já tinha enterrado um filho, o primeiro, com um aninho, meningite. Os outros dois, eram altos, saudáveis e meus amigos.
A Neide ganhou uma brasília zerinho e com ela ia para a faculdade e também comprava pacote fechado de fita Basf pro gravador lá no Makro.
Eu também queria ir no Makro, mas o pai disse que era muito caro e tinha que ter cartão especial para comprar. Então a gente ia no Malena mesmo e eles entregavam a compra do mês com uma kombi.
Eu me apaixonei pelo gravador da Neide: um retângulo preto, com os botões também retangulares prateados que ela apertava com o dedo gordo para abrir e colocar a fita Basf, tinha o de começar a gravar, o de acelerar e ir lá pro fim da fita, mas a maioria das vezes ela voltava para trás e ouvia novamente.
A Neide lia em voz alta e gravava as leis, que ela dizia serem muitas e difíceis.
Era muito inteligente a Neide: ela levava o gravador para quarto e passava gel nas pernas e na barriga e prendia algum aparelho que ficava dando choquinhos para emagrecer enquanto ela ouvia as leis.
Emagrecer nunca emagreceu, mas ficou rica depois que formou. Sempre acho que foi o gravador.
De acrílico laranja era minha prancheta, meu pai que comprou. Não me lembro como a usei; lembro-me apenas da felicidade de tê-la ali em meus braços.
No finzinho da tarde, levei o cachorro para passear. Ela ainda estava lá. Fotografei.
Não tinha ninguém a me vigiar, a não ser as câmeras de segurança que podem ter achado um movimento suspeito eu ali agachada com um cachorro em frente a uma prancheta.
A história eu já tinha escrito na prancheta mental que levei de manhã comigo. Fotografei e depois fiquei una instantes a contemplá-la. Inútil. Ninguém a quer.
Eu mesma, o que faria com uma prancheta?
Só que não achei digno que ela ficasse ali em abandono.
Um pouco mais a frente, fardos enormes aguardavam o caminhão da reciclagem.
Acho que ela não é reciclável, pensei, talvez alguém queira apoiar um papel ali e escreva uma história. Ainda que só no pensamento.


segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Gola molhada

presente da Tina


Ainda não se acostumara. Ao longo de décadas, o jornal nacional, o qual não deixara de assistir um dia sequer, de tempos em tempos alterava seu horário de exibição, terminando agora bem mais tarde que há quarenta anos.
Esforçava-se para não cochilar. e o ritual repetia-se dia após dia: ao "boa noite" do apresentador, apertava o botão do controle remoto para desligar a televisão, levantava-se, tirava o fio da tomada e ia deitar.
Naquela noite porém, fez diferente. Ao ouvir a notícia de que o dia amanheceria chovendo, desligou a tv e foi até o varal que ficava nos fundos da casa para recolher a roupa e os pregadores. A estiagem prolongava-se atipicamente e ele já não se importava de deixar a roupa dormir ao luar.
A chuva, enfim, era prenunciada e foi com certo conforto que alterou sua rotina naquela noite.

Era fina a chuva que caía no início da manhã, mas suficiente para molhar roupa esquecida na corda.
Preocupou-se.
Da porta da cozinha viu a roupa do Seu Olavo esquecida na chuva.
Não precisava acrescentar ao nome do vizinho o pronome possessivo, afinal Seu Olavo e ele tinham a mesma idade. Era respeito mesmo.
Demorou o olhar na roupa alheia que o vento úmido chacoalhava. 
Como Seu Olavo, que também não deixava de assistir uma noite sequer ao jornal, não deu atenção ao aviso de chuva certa chegando ainda no final da madrugada? Por que não recolhera a roupa do varal?

Tinham amizade feito casas de cidade grande, com enormes muros e grades nas janelas.
Um aceno, um bom dia, uma reclamação do lixo jogado na rua ou o aumento do imposto. Não conseguiria transcender portões, muros e grades para falar com Seu Olavo naquela ocasião.

Ainda olhando para a casa do vizinho, incomodou-se quando o vento mudou de direção e trouxe algumas gotas da chuva a seu rosto que misturou-se com as lágrimas há tanto tempo estiadas de sua alma. Deixou-as escorrer com a chuva.
E então recordou que houve uma noite em que não assistira ao jornal nacional. A noite do velório de sua esposa. Dona Teresinha morreu deixando as camisas com os punhos e a gola ainda molhados pendurados no varal.
Preocupou-se com Seu Olavo.
A chuva agora engrossava.

terça-feira, 9 de setembro de 2014

Até na igreja?


Estava resoluta. Não esperaria a virada do ano para fazer mudanças em sua vida.
Quem quer mudar, não espera calendário virar – repetia a si mesma.
Sentia-se pesada, não dava mais para esperar. Sequer esperaria pela segunda-feira.
Desejava uma vida melhor. Tomou banho e foi para a missa de domingo. Final de tarde.
Chegou atrasada.
  • Minha Nossa Senhora, isso não é um bom sinal – falou entredentes.
Deu de cara com o padre na porta da igreja, que aguardava o momento de entrar em uma pequena procissão.
Ele fez um sinal áspero com a mão para que entrasse logo e não ficasse ali atrapalhando.

Não sabia se devia benzer-se primeiro ou pedir a benção do sacerdote. Não fez nem um nem outro. Tratou de apressar o passo e foi procurar um banco para sentar-se.
Acomodou a bolsa com movimentos suaves e assim que o padre se posicionou no altar de frente para os fiéis para iniciar o cerimonial ela não acreditou no que viu.

Sentados dois bancos à sua frente um casal. Não eram jovens. Deviam estar na casa dos quarenta.
Era bonito vê-los ali. Juntos, mãos dadas. Partilhavam o mesmo amor, a mesma fé e pasmem, o mesmo celular.
Ela ali, sentindo-se pesada de tantos pecados e aquele casal na maior cara de pau usando o celular numa hora tão sagrada. Não, não era possível uma coisa dessas.
Ambos não desgrudavam os olhos daquela telinha brilhante.

Ela também não desgrudou. Tentava a dois bancos atrás decifrar o que estaria escrito ali.
Santo Deus, que mensagem imensa. Isso sim é um pecado dos grandes.

E por falar de pecado, ficou tão absorta em certificar-se daquela aberração que perdeu o momento de dizer interiormente os seus pecados e pedir clemência. Quando se deu conta, já era o momento da leitura do evangelho. Momento esse muito importante.

Estava tentando se concentrar. Era melhor não olhar para a frente. Inclinou a cabeça ligeiramente para baixo e para a direita.
Teve então outro sobressalto.

Agora era uma moça muito bonita e bastante jovem com o celular na mão.
Ah, que assim fica difícil seguir aquele mandamento de não julgar. Bem naquele momento e ela ali só movendo o polegar rolando a tela. Pelo jeito, outra mensagem dessas enormes.

Ela sabia que não se deve fazer comparações, mas os pecados dela eram fichinhas ali perante àquelas pessoas usando celular bem na hora da missa.

E a coisa não parava: era o casal da frente, era a moça do lado, e chegou a hora da bênção final.
Ela mesma nem percebera como passara rápido o tempo; percebera que não tinha ouvido uma só palavra do padre tanto que foi importunada por aquelas pessoas.

Na saída, aquela pequena aglomeração afunilava-se na porta principal. Pode ouvir de alguém atrás dela: “Obrigada pela dica! Baixei o aplicativo e hoje pude acompanhar toda a missa pelo celular e agora durante semana vou reler como uma reflexão. Muito bom esse app! Vai em paz!”
Saiu mais “pesada”do que entrou. Tinha na sua lista agora o pecado da maledicência.

Bem, agora já sabia: visse alguém com a cara enfiada num celular dentro da igreja, sabia que era um sagrado digital.

Ficou indignado? Pensando em escrever uma carta aos céus com o seu desabafo?
Então anota aí, que o endereço da Via Láctea foi alterado, ou melhor acrescentado.
Laniakea – palavra derivada do idioma nativo do Havaí e que significa “céu imensurável”.

Sol, Via Láctea, Grupo Local; Aglomerado de Virgem; Superaglomerado Laniakea; Universo.
Agora é só lamber o selo e clicar em enviar!


segunda-feira, 25 de agosto de 2014

A fralda pintada

Seguia de mão dada com minha filha pela rua tranquila e estreita. 
O sol, apesar de ser de inverno, estava à pino e demasiado quente para a época, o que nos fez escolher o lado mais arborizado que nos oferecia por um bom trecho, agradável sombra.
"Como você é disposta para andar, hein?!"
A voz vinha do lado oposto ao que estávamos. Avistei e de imediato reconheci - Priscila.
Diminuí o passo, mas não atravessei a rua. Minha intenção era apenas de acenar para a Priscila e seguir em destino a buscar meu filho na escola.
Uma frase porém paralizou-me:
"Paula, o Gabriel tem até hoje a fralda pintada que você deu a ele"- ela disse com um sorriso duradouro.

O Gabriel é o filho da Priscila. Tem a mesma idade da minha filha Júlia. A Priscila falava enquanto o ajudava a entrar no carro com a mochila.
 Eu fiquei parada segurando a mão de minha filha e devo ter ficado com uma expressão vazia porque a Priscila tentava me ajudar:
"Naquele aniversário que eu fiz lá no buffet do centro... Ele usa até hoje na aula de artes!"

Mantive a mão firme segurando a mão de minha filha e me abstraí dali olhando o sorriso da Priscila.
Eu tinha dois pensamentos ao mesmo tempo. Um era referente ao sorriso da Priscila e o outro era sobre o presente.
Quando eu pensava no presente que eu havia dado ao menino, achava que o sorriso dela era um deboche, uma afronta, um recado. Mas a Priscila não é esse tipo de pessoa. Um sorriso sarcástico não é do feitio dela. Porém, levando em consideração o presente, ela teria todo o direito de me afrontar com um sorriso.
Dar uma fralda pintada de presente?
Não tenho nada contra fraldas pintadas. Só acho que presentear um garoto de quatro ou cinco anos com uma coisa dessas é mesmo fora de noção. Fralda pintada é para quatro ou cinco meses de vida. Dentinhos nascendo, bebê babando, essas coisas.
"Ô presente que durou, hein?! A fralda pintada branquinha."

De lá de onde eu estava, tentava acessar os arquivos. Onde será que eu comprei essa fralda pintada? Teria encomendado? Pintar, eu não pinto; hipóstese descartada. Então comecei a sentir mal. E se eu tivesse pego uma fralda que fora de um dos meus filhos para presentear o filho da Priscila? Sabe, presente de última hora, não deu tempo para comprar. Nossa, eu fui mesmo capaz de fazer isso? Que decepção comigo. Que pessoa mais sem noção eu sou - presentear um amiguinho de minha filha, aniversariante de cinco anos com uma fraldinha pintada?
Eu realmente merecia aquele sorriso infame da Priscila, mesmo tendo se passado quatro anos do ocorrido. Ela devia estar engasgada com a fralda pintada e neste encontro casual despejou sobre mim todos esses anos de raiva.

"Ele nunca esquece de levar para a aula!"
Imaginei então o Gabriel na aula de artes, tirando a fraldinha pintada, colocando-a sobre a mesa e limpando delicadamente os pincéis ora sujos de tinta guache, ora na aquarela.

Mas, nesse momento me ocorreu que o sorriso da Priscila era mesmo verdadeiro. Ela me pareceu orgulhosa pelo filho ter até hoje o presente.

Então me senti péssima mãe. Eu me lembro que pediram um paninho, um trapo, coisa pequena para as aulas de artes e eu nem sei o que mandei. Deve ter sido alguma manga cortada de camiseta velha.
A Priscila não. Ela é uma excelente mãe. Claro que sabe exatamente o tipo de paninho que o filho usa para limpar os pincéis.
Resolvi dar um basta naquela tortura. A besteira eu já havia feito. Quatro anos atrás, ou uma vida inteira, não importa, terei que conviver com o fato de um presente malfadado.
Para encerrar então, soltei uma fala:
"Ah! Eu também guardo várias coisinhas de bebê da Júlia."

O tranco seco, contido e forte, eu senti de imediato no meu braço. Aquele puxão que as mães dão para dizer sem palavras "cala a boca".

Deixamos a Priscila para trás e seguimos. A uma boa distância do ocorrido, minha filha voltou-se indignada para mim e me censurou:
"Mãe, por que você foi falar para a Priscila de paninhos de bebê?"

Ok, ok. Entendi que era um típico faniquito de uma pré-adolescente que não quer ter nada de bebê associado a ela.
Comecei a responder com a paciência escassa:
"Não tem nada de mais falar que guardo algumas coisas de bebê que foram suas. A Priscila não estava falando da fralda pintada que eu dei para o Gabriel? Então...

"Mãe, a Priscila estava falando da flauta da yamaha que você deu para o Gabriel".

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Camisa engomada

Pela manhã, meu filho teria que fazer um trabalho escolar onde ele seria o apresentador de um telejornal.
Enquanto tomava banho, fui passar sua camisa. Queria que estivesse impecável.
E de casa sai o menino, todo empertigado, segurando uma pequena pastinha de couro com seu tablet.
Deixei-o na porta do colégio e combinamos um horário para eu ir buscá-lo, não sem antes entonar uma lista de recomendações. Postura, olhar firme para a câmera, domínio do assunto.
Saí de lá inflada de orgulho: meu menino, um apresentador de jornal.
Já pude imaginá-lo no dia de sua formatura na faculdade de jornalismo e logo após, ele sentado numa bancada, como Willian Corrêa, o âncora do Jornal da Cultura, articulado, simpático, comandando por uma hora o principal jornal do país.

Fui buscá-lo antes do horário combinado, com uma câmera nas mãos; queria surpreendê-lo ali na sua bancada, sob os holofotes e filmadoras, desinibido, articulado, voz agradável.
Discretamente o filmaria, para mostrar orgulhosa, o meu menino. Um talento descoberto durante um trabalho escolar. Ah! Meu moleque apresentador de telejornal, camisa e gravata impecáveis.

[...]


No meio do caminho havia uma bola.
Havia uma bola no meio do caminho.

sábado, 22 de fevereiro de 2014

Carinho de vento




Apressada, chaveou o portão e entre guardar as chaves na bolsa, olhar para os lados para atravessar a rua, deparou-se com o que chamou de “uma cena a ser retratada num quadro”.
Sentado, com as costas recostadas num muro pichado, estava um homem. Precisar sua idade era difícil; tinha na pele todas as intempéries do tempo e talvez carências de afeto. Talvez...
Tirou a pressa dos passos e passou por ele vagarosamente.
Comia bolachas recheadas de uma marca vagabunda e ao seu lado, também apoiado no muro, um maço de bambus.
Era um vendedor de bambus. Possibilitava que cordas, pregadores e roupas fossem alçados para mais perto do sol. Era um homem que ajudava o vento a acariciar roupas, cobertas, cortinas, toalhas.
A moça entrou no mercado. Passou pelo setor de máquinas de lavar e constatou como estavam avançadas. Trouxeram o vento e o sol para dentro delas. Eram máquinas modernas que além de lavar, também secavam toda a roupa.
As bolachas reachadas vagabundas que aquele homem comia não eram vendidas naquele mercado. É provável que ele nunca entrara ali. Não conhecia as modernas máquinas que aniquilavam seus bambus.
Sentiu um lamento dentro do peito. Um homem que tira seu sustento de vender bambus em ruas onde se erguem edifícios que não há lugar para bambus, apenas para máquinas que devolvem a roupa seca? E nas casas? Alguém na cidade compraria um bambu?
Retornou do mercado e ele não estava mais ali.
Entrou em casa, deixou as compras sobre a mesa e foi até o quintal.
Olhou demoradamente para o seu varal. Já estava bem curvado, feito sorriso em desenho de criança. Sorriu. Naquele momento soube que precisava de um bambu para o seu varal.
O homem estava certo em seu caminho: entre prédios, casas com máquinas modernas, haviam varais esperando para serem içados.

Tempos depois avistou o homem já longe, subindo uma ladeira, com seu feixe de bambus apoiado nas costas, ali pelos arredores. Deve ter voltado porque ouviu o chamado de algum varal, de algum lençol que desejava esvoaçar lá do alto.


quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

O menino que roubou livros

Não havia expectativa alguma. Nada de material novo, mochila, cadernos, caneta para a volta às aulas.
Já sabia de antemão o que encontraria - uma escola sucateada.
E não foi diferente. Foi pior, mas por estudar à noite, os olhos nem se esforçaram por ver o quebrado, o pichado, o destruído.
Mas, havia sim uma esperança módica de que alguém, um professor ou professora de língua portuguesa, literatura, não se assustasse, não temesse ficar na escola dando a aula de que mais apreciava. Tão difícil era um professor permanecer ali...

E a esperança parca ganhou brilho e volume. Um jovem professor, Luís Fellipe, abraçou o desafio.
Não se importava em dar sua aula para três ou quatro jovens que ficavam ali na frente enquanto os outros faziam qualquer outra coisa que não fosse estar na aula.

Assim, o professor, em poucas semanas, inflamou o amor pelos livros, pela literatura no jovem.
Final de semana era difícil ficar na comunidade, nome bonito que em nada modificava o significado de um barraco na favela.
Numa tarde de tédio, foi andar num shopping. De lá iria direto para a aula à noite.
Não foi. De lá foi direto para a cadeia.
Roubou livros na grande e famosa livraria. Num ato insano, onde tédio e desejo se misturavam, pegou quatro títulos e colocou na mochila.
Na saída foi abordado. Cumpriu-se o protocolo de segurança.

No tempo em que aguardava julgamento, alguém o viu chorar e enxergou um brilho diferente em suas lágrimas.
Precisava saber do acontecido. Entregaram-lhe um jornal que relatava o ocorrido.
Pouco, era muito pouco o que a matéria dizia. Matéria aliás que nem deve ter sido lida, afinal perder tempo com mais um jovem que rouba?
Ele perderia, estava disposto a isto.
Falou com amigos, foi até à escola, voltou lá à noite, ouviu do professor de literatura exatamente o que imaginava ter lido nas lágrimas do rapaz.

No dia do julgamento, o dono da livraria, que à época estava em viagem internacional, deu o seu depoimento. Foi duro e correto ao afirmar que nunca o jovem deveria ter cometido o roubo, mas ele foi conhecer a escola em que o jovem estudava, a sua moradia, questionou sobre bibliotecas e entendeu o anseio do jovem por um livro.

A pena de reclusão foi revertida para uma medida sócio-educativa. Saiu do tribunal empregado na grande livraria. Abaixou a cabeça e chorou novamente.
Trabalharia no estoque e a depender do seu desempenho teria outras oportunidades. Junto ao primeiro salário, recebeu o cartão vale-cultura. Estava ainda indeciso de compraria o livro ou assistiria ao filme "A menina que roubava livros". Agora tinha possibilidades.




*Amigos queridos da blogosfera me inspiraram a escrever esta crônica que é baseada em fatos reais e é realmente como eu sonho que poderia ser o desfecho dela.

PS. Dois anos se passaram, e numa tarde o professor Luís Fellipe entrou na livraria. Prontamente atendido pelo jovem que fora seu aluno e agora já trabalha sob os holofotes das prateleiras abarrotadas da sua mais pura paixão, tiveram tempo para um café.
Desta vez foi o jovem que viu uma lágrima com um brilho diferente descer pela face do professor.

Imperdível a crônica de Luís Fellipe Alves. Passa lá!