Era madrugada quando eu despertei. Embora os olhos ainda estivessem revestidos com aquele sono que os deixa pesados, mexi e remexi o corpo, os cobertores e só então ouvi a chuva.
Como me incomodou aquela chuva. Era aquela chuva com barulhinho gostoso que lhe faz virar para o lado, afinal ela cancela a caminhada.
Eu que gosto dessas chuvas mansas que limpam os telhados, os poluentes do ar, fazem a alegria das árvores, goteja com uma cadência que embala os olhos, continuem incomodada.
Uma só imagem me tomava. Um pesadelo.
Pesadelo que não era o avesso de sonho bom. Era avesso da vida.
Um especial no Jornal da Cultura mostrou e mostrará durante esta semana, a seca que está afetando do Cariri.
Nenhuma novidade. Poderiam pegar até imagens de anos anteriores e editarem a data. Ninguém perceberia. As cenas são as mesmas: terra seca, o gado morrendo, água barrenta para se beber.
A inteligência, a tecnologia ergueu cidades sobre desertos. Pomares suculentos fixaram morada no sertão.
Fazer campanha para arrecadar garrafas de água mineral e alimentos básicos... sim poderíamos fazer, usaríamos a internet e em pouco tempo teríamos toneladas.
Toneladas de ilusão. Porque embora fosse muito bem vindo essa ajuda, eles têm direito a mais do que uma campanha de algumas semanas. Existe verba, existe muito dinheiro para ser aplicado nestas regiões. O dinheiro evapora tal a água dos açudes.
Já sabemos que a seca não é tão somente um boletim meteorológico. É um descaso político vergonhoso. É um crime contra a humanidade. Uma humanidade que está dentro do país que eu vivo.
Da chuva da madrugada restou uma sombra cinza no céu e água empoçada pelo quintal.
Levanto-me e como já disse Roseana Murray, mais ou menos assim "A primeira água para o café, a segunda para o rosto".
Teve a água da torneira da pia, do vaso sanitário, do tanque, do banho, a que empoçou na rua, a da tigela do cachorro.
Posso sim fazer tudo isto economizando água: vou fechar a torneira enquanto escovo os dentes, usarei a água da máquina de lavar para jogar no quintal. Mas continuarei indignada porque não posso mandar a minha economia para uma dona qualquer que está bebendo água barrenta mesmo porque o caminhão-pipa vai passar sabe lá quando.
Continuarei incomodada porque hoje é dia que a minha filha pode levar um brinquedo para escola e eu não sei que brincadeira aqueles meninos vão inventar entre os sulcos da terra.
Eu não sei que silêncio sai das entranhas daqueles contornos de dor. Será que é o mesmo silêncio de um Cachoeira.
E aquele lugar nem precisava de uma cachoeira imensa de recursos. Bastava alguns e bem aplicados.











