terça-feira, 5 de julho de 2011

Felicidade

Desde abril que eu estou planejando ir a uma exposição. Queria utilizar os impostos pagos, ou dizendo em outras palavras, ir num dia em que a entrada fosse gratuita!
Esse dia é terça-feira, e a exposição está acabando. Conciliei tudo e corri.
Muitas pessoas como eu também quiseram utilizar seus impostos pagos e a exposição estava lotada.
6 bilhões de outros – esse é o título.


Há painéis gigantescos com fotos de rostos, mas é uma vídeo-exposição com umas oito tendas montadas e dentro é que se dá a essência da exposição, os depoimentos colhidos pelo mundo afora. Somente com o rosto aparecendo no vídeo, essas pessoas respondem à perguntas feitas, embora a gente não ouça a pergunta, apenas a pessoa ali falando com uma emoção arrebatadora, pessoas comuns, em seus olhos, suas faces, suas palavras muita emoção.
Primeiro entrei numa tenda sobre o clima, chamada testemunhas do clima. Como estava muito lotada fiquei pouco ali.
Os relatos eram tristes. Aquelas pessoas tinham perdido pessoas queridas, bens materiais, uma história de vida. Eram vítimas do tsunami, do furacão Katrina, da usina de Chernobyl.
Quando entrei numa outra tenda, felicidade e sentido da vida, não queria sair mais! Assisti aos depoimentos por duas vezes e meia.
A primeira vez extasiada, e segunda e meia com um pedaço de papel na mão, uma lapiseira e naquele escuro algumas anotações.
O que é a felicidade para você? Você é feliz?
Essas eram as perguntas que estavam por trás daqueles rostos.
E eu me sentei ali para ouvir desprovida de qualquer julgamento, eu queria apenas absorver de cada olhar daqueles um pouquinho do que é a felicidade para eles.
Vou tentar escrever aqui algumas coisas que eu anotei.

Gritar, porque não há palavras!
Gosto de uma palavra que os franceses usam que quer dizer: se sentir bem na sua pele.
Acordar de bom humor.
A pergunta sem resposta.
O sentido da vida.
Limpar e fazer brilhar sua alma.
Os momentos tristes fazem da felicidade uma preciosidade.
Desde que eu acorde mexendo os dedos dos pés, isso é felicidade.
Alguns nascem com o dom de ser feliz.
Minha avó, num terraço, me ensinou a fazer crochê, era importante para mim, isso é felicidade.
Ver os pessegueiros crescer, isso me faz feliz.
Ter água. As pessoas vêm na minha casa porque tenho água (Etiópia).
É estarmos satisfeitos com o que temos.
Felicidade são relâmpagos, momentos passageiros.
Estamos cercados de felicidade por todos os lados.
Era feliz com meu marido. Ele não está mais aqui. Falta sol.
Um passarinho que voa alto e não se alcança.
Fui feliz três vezes: quando me casei e quando nasceu meus dois filhos.
Sou feliz porque tenho um baú cheio de ouro em casa. Tenho um bom marido (Camboja).
Sou feliz quando chego do trabalho e minha mulher preparou o jantar. Amo minha família.

Vou me estender um pouquinho e relatar à minha maneira alguns outros depoimentos que me marcaram.
Uma senhora da Finlândia dos seus 60 anos disse que a felicidade para ela foi quando depois de 9 anos de casada estava grávida. Parecia estar flutuando do chão. Seus grandes olhos azuis se encheram de lágrimas ao mesmo tempo parecia que ela queria pular tamanha a sua felicidade ao relatar isso.
Um homem de Mali disse: minha maior felicidade foi quando papai me propôs 'case com essa moça'foi a melhor proposta que seu pai lhe fez em toda sua vida!
Um homem de Burkina Faso disse que a felicidade é respiração.
Quando você nasce e você respira, você faz sua mãe feliz, é isso o que ela espera de você.

Não quis entrar em outras tendas, esta da felicidade me bastou, quis ficar somente com aquelas palavras. Muitos rostos estavam iluminados, falavam sorrindo, outros não, falaram com tristeza da felicidade.
Não saberia responder em uma única frase o que é felicidade. Mas tenho a certeza de que é um pouquinho do que cada 6 bilhões de pessoas possam dizer.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Caligrafia

Focal Point by tompagenet

Focal Point, a photo by tompagenet on Flickr



Depois que li e reli os comentários carinhosos do post anterior, referente ao scrapbook, no final da tarde fui a uma livraria, sem a intenção de comprar, mas somente olhar e folhear e quando dei por mim eu estava na parte infantil (fórmula encontrada para amenizar a ausência dos pequenos!).
E encontrei um livro delicioso, que li ali mesmo em pé que falava da caligrafia.

A história da mão que queria ter uma letra bonita”, claro que imediatamente eu fiz a associação com o post do blog. E a definição da minha própria letra mudou depois desta leitura.
Uma mãozinha está triste por achar que a letra que produz não é bonita. Então o papel, no qual ela está escrevendo, com sua sabedoria milenar de árvore lhe diz que a beleza é relativa, que o diferente é bonito. Não convencida, a mão diz que a letra do João é mais bonita que a dela. O papel pede para ser levado até o João para que ele escreva nele. Muito atento, depois revela que a letra do João não é mais bonita apenas diferente. A mão então questiona o papel do por quê que a professora sempre escreve 'precisa melhorar a letra'. O papel se oferece como detetive para descobrir o que a professora pensa. E vai parar na casa dela ( professores sempre levando trabalho para casa!). No seu retorno, diz para a mão que desvendou o mistério. A professora não acha a letra feia, apenas quer que capriche mais porque no futuro as pessoas irão ler o que ela escreve e precisarão entender o que está escrito. E a mão passa a treinar todos os dias, agora alegre porque sabe da sua importância para o futuro e vai melhorando a cada dia!

Lição linda para incentivar filhos e netos, especialmente os meninos (será que estou enganada?!) para capricharem mais na letra e para nós adultos que não há letra feia, apenas diferentes.
A facilidade que a vida virtual nos trouxe é inegável, mas também acho que corremos o risco de nos distanciarmos de uma marca nossa: a nossa letra.
Está lá num comentário anterior – ver a letra, seja como for, palavras escritas em momentos, ficam marcados, registradinhos para sempre.
E a sua letra, tem se mostrado bastante ou você terá que contar uma historinha para ela voltar a aparecer?!


Scrapbook

Eu estava grávida do Bernardo quando uma vizinha me falou que tinha visto um álbum de fotografia muito diferente e lindo num programa de tv, chamado de scrapbook, mas não soube me falar detalhes, apenas que era diferente e lindo.
Guardei aquele nome, até então estranho para mim, e lá pelo oitavo mês de gestação eu encontro numa revista uma pequena nota falando dos tais álbuns e divulgando um curso.
Liguei para me informar da data e era bem próxima à data do parto. Resolvi arriscar e me matriculei. Quase que não me deixam ir! Pegar metrô sozinha aos 9 menses?
Sim peguei sem problemas e me apaixonei pelo curso. Cheguei lá sabendo apenas que era uma maneira de organizar fotos.
Era muito mais do que isso. Passei uma tarde agradável aprendendo técnicas bem simples e básicas que me encantaram pelo que significavam.
São álbuns de memórias”dizia com paixão a professora!
Nessa época de internet e fotos digitais (eu ainda era totalmente analógica), as fotos tem perdido o sentido, ficando apenas armazenadas no computador, dizia ela.
Esses álbuns são muito antigos, talvez nossas avós ou mães fizessem de maneira intuitiva, ou seja tentavam registrar com fotos e palavras aqueles momentos, podiam até mesmo anexar um cartão recebido, uma carta. O problema é que tudo amarelava, até mesmo se apagava. A promessa dos materiais específicos é que isto não ocorra.

E esta parte da memória escrita foi o que mais me tocou.
Depois da morte da minha mãe, lembro-me que pegava os álbuns que ela fizera para mim e abaixo das fotos ela marcava”6 meses”. Apenas isto.
E olhar a letra dela me transmitia um sentimento muito agradável. Lembro-me também de ter procurado entre suas coisas algo escrito para mim. Não havia. Encontrei num pedaço de cartão recortado um pensamento escrito por ela e o tinha bem perto justamente pela letra dela.

Então a professora dizia: registrem, com sua letra, não importa se é bonita ou não, importa que é sua marca. Escrevam o que se passou naquele momento, porque muitas vezes esquecemos o motivo de uma risada e ficará somente uma imagem; se você escrever, a imagem fica mais bela!
Fiz muitas páginas de scrapbook, e em muitas delas imprimi a minha letra mesmo, escrevi cartinhas que ficam “secretamente”guardadas em envelopinhos, às vezes uso as letras do computador, às vezes coloco somente imagens.
Fiquei bastante tempo sem fazer nada, quando vi uma postagem num blog querido de uma mamãe querendo por a mão na massa. E não é que eu me animei!
Revelei fotos, comprei novos papéis e fiz uma bagunça criativa!
Não tenho muitas ferramentas, são bem caras, então faço um estilo bem simples, caseiro e com todo o carinho. Admiro muito essas artistas do papel e tem muita coisa linda aqui pela internet.
Quem vai se animar também?!




domingo, 3 de julho de 2011

Vida virtual

Quero deixar registrado o meu ingresso na vida virtual. Meus filhos precisam saber.
Não nasci em berço digital. Mas havia alguma tecnologia à época.
As ruas eram repletas de fuscas.



Para mim isso era alta tecnologia e meu pai tinha um 66. Ainda não existia a brasília (depois meu pai teve uma, cor ocre).
Outra tecnologia que eu achava fascinante eram as fichas telefônicas usadas nos orelhões alaranjados por tempo indeterminado. Sim podia-se falar o quanto queria, sem se preocupar com o tempo com apenas uma ficha. As filas que se formavam nos orelhões eram piores que as de banco. E quando você seria o próximo a poder falar e ficava ali em pé, sol quente e ouvia a conversa alheia perguntando se hoje iria lava roupa, se iria pendurar no varal da frente ou de trás, percebia que era conversa fiada, coisas inúteis e por que então não desligava logo para ser a minha vez de falar inutilidades?
Certa vez cismei de pedir a minha música favorita para a rádio pelo orelhão. O que era aquilo? Só dava ocupado, meu dedinho de criança já avermelhado , mas eu não desisti e consegui! Corri para casa, sintonizei o rádio com bombril na ponta da antena e eles falaram o meu nome e tocaram a música. Meu coração disparou e meu dia ficou azul.
Outra tecnologia que eu utilizava muito era a dos correios. Adorava cartas. Escrever, recebê-las...
Meu pai, homem rigoroso, nunca permitiu que eu chegasse perto de gibi. Mas permitia que eu fosse à venda do português Joaquim para comprar meia bengala, assim se chamava o nosso pão. A banca de jornal era em frente. Contei minha tristeza para o dono que me deixava folhear uma revistinha. Eu não tinha agilidade na leitura, somente apreciava os desenhos e descobri ali uma coluna em que publicavam o seu endereço para você fazer amigos através da troca de correspondência. E meu nome foi publicado e eu recebia até três cartas por dia e respondia em papel enfeitado de cor de rosa! O coração ficava à espera do carteiro porque tinha certeza que um envelopinho chegaria!
E a vida foi soprando seu alento que faz crescer e também redomoinhos que nos levam para longe.
Fui parar numa cidade pequena do Paraná, mas bem próxima da capital. Dia cinza.
Morei alguns por lá com uma amiga mais velha, cujos filhos eram da minha idade.
A moça trabalhava na fábrica de cerâmica da família, no escritório e vivia com os dedos pretos, tingidos pelo carbono que usava para as notas fiscais datilografadas.
Certo dia, na mesa colorida do almoço, o irmão anunciou a inovação que ele trazia para o escritório. Computador e impressora para as notas.
Que inovação! Eu passava por lá e ouvia o barulho constante da impressora e das grandes folhas de notas fiscais. O trabalho melhorou muito para minha amiga.
Esse filho, que se tornou meu amigo, estudava computação na faculdade. Eu achava aquilo engraçado porque não havia computadores por ali, ele mesmo não tinha, como é que podia estudar?
Ele sempre me pedia para trazer livros técnicos da Capital. No caminho da volta eu folheava os tais livros: grossos, pesados. Eu só pensava naquela música “mais fácil aprender japonês em braile”do que entender aqueles códigos.
Então chegou o grande dia em que ele conseguiu montar a partir de sucatas e placas o seu computador e instalou em casa e nos chamou para navegar na internet. Escolhemos o museu do louvre.
Como aquilo demorou. Parecia-me mais fácil trabalhar, economizar e ir até Paris.
Mas conseguimos, foi uma emoção estar diante daquilo. Alegria que durou pouco porque depois descobriu-se os problemas.
A linha telefônica ficava ocupada o tempo todo em que o computador estivesse ligado. A mãe mandou que ele providenciasse uma linha só para ele.
E depois veio a notícia que aquelas ondas do computador eram maléficas.
Que horror. Tão gostoso era ver os quadros famosos e tão prejudicial.
Veio então a descoberta: spray para computador. Não desses que limpam a tela. Eram um spray para essas ondas nocivas. Sim, meu amigo usou muito e todos nós também.
O vento soprou novamente e quando eu fui visitar as escolas para colocar meu filho, todas pediam o meu e-mail. Como assim se eu nem tenho computador?
Sentia-me com uma criatura de outro mundo. Acho que só eu não tinha e-mail.
Algumas escolas foram logo dizendo que a comunicação, os informativos, os boletos, tudo eletrônico.
Pensei que pudesse viver sem um computador. Até aquele momento não tinha feito falta. Tive que me render.
Mas antes de comprar um, matrícula na escolinha de computação.
Instrutor particular no melhor estilo: perca o medo do mouse...
Sim eu tinha medo, minhas mãos tremiam e eu ficava aflita cada vez que aparecia uma janela ali sem eu ter chamado. Foi sofrido, mas pelo menos hoje não tenho mais medo do mouse. Não aprendi muita coisa não. O suficiente para vir aqui na pracinha digital, fazer amigos, papear e ver a vida bem colorida! 

sábado, 2 de julho de 2011

Flores



Não me traga flores
Leve-me para passear por entre elas
quero um ramalhete em meu coração
Agora sei porque há o néctar
música que baila borboletas
Ceifá-las de etéreo prazer?
Não. Não me traga flores
posso sentir a maciez de tuas mãos
qual as pétalas feitas de brandura
quando entrelaço meus dedos com os teus
A flor se entrega à abelha
confiante, segura
E meus lábios se entregam ao teu beijo
Agora sei porque há o mel
Ceifar outros lábios de sentir o sabor do mel?
Não. Não me traga flores
Quero inalar cada delicado aroma
porque sentirei o teu cheiro
cada vez que caminhar por um jardim
Tocarei delicada pétala
lembrança do teu corpo em minha pele
Não me traga flores
Permita que outros olhares
neste mesmo jardim
colham ramalhetes para o seus corações
E tente imaginar
seres caminhando pelas ruas
peito colorido em buquês
mãos enlaçadas
bailando envolvidos no aroma
de um jardim que um dia caminharam


                    Ana Paula

quinta-feira, 30 de junho de 2011

Manuais

As férias das crianças começaram exatamente às 17h55. E três horas depois eles já estavam na estrada!
Fazenda dos avós em Minas Gerais. Destino sonhado, esperado, planejado por eles.
Lá o bolo, o pão de queijo, o arroz com feijão, tudo com um sabor diferente, muito mais gostoso.
E eu me recordei da fase “bebês”deles, de quantos manuais escritos eu li e tentei seguir. Alguns com sucesso, outros total fracasso e muitas vezes eu recorri aos manuais da vida.
Lembro-me o sono, o dormir do Bernardo, que foi muito exaustivo pois ele não dormia longas ou mesmo algumas horas seguidas.
Depois de camisetas junto ao travesseiro, benzimentos, massagens, luz azul no quarto, passamos a dormir juntos, contrariando todos os manuais.
Como mãe, sentia-me a pior do mundo. Como eu que desejava tudo de bom para o meu filho, estava fazendo tudo errado, estragando a criança?
Os prejuízos para o futuro eram incalculáveis, segundo os tais manuais. Mas era a única maneira que eu encontrei para no dia seguinte conseguir manter-me em pé.
Depois veio aquela fase em que eles não iam no colo de ninguém, a não ser o meu.
Nossa, que pernicioso tal comportamento. Um bebê tão grudado assim com a mãe, só poderia ser fruto da tal cama compartilhada.
Bem, alguns manuais depois...
Eles se despedem nem ouvindo as próprias palavras, mas sentindo os pés apressados para partir.
Dormem felizes em outras casas, sem insegurança mas com imensa alegria e desprendimento.
Não precisava ter me martirizado tanto por sentir aqueles pezinhos quentinhos junto ao meu corpo.

Então, tenho uma semana entre ir resolvendo as situações educacionais, ficando mais tempo pelos blogs amigos e o que mais a vida me surpreender.
Vou aproveitar essa postagem para direcionar a uma leitura maravilhosa.
Uma pessoa maravilhosa se descrevendo em meio “aos manuais" que fizeram parte de seu crescimento, em todos os sentidos.

Helena, sou apaixonada por este texto teu!

Palavras

Um vídeo curto, que dispensa as minhas palavras.