sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Duas bisnaguinhas

 - Mãe, amanhã manda só duas bisnaguinhas de lanche.
 - De jeito nenhum. Nem pensar. Você está em fase de crescimento, precisa se alimentar bem.
 - Mãe, é que não vai dar tempo de comer.
 - Nada feito. Vou mandar três e é para comer.
 - Mãe, é que amanhã eu vou ser juiz na hora do intervalo. Manda duas.
 - Piorou. Não quero saber de você jogando futebol na hora do recreio, além do que é proibido, além do que eu já publiquei no blog que você come três bisnaguinhas de lanche e não quero passar por mentirosa.
 - Mãe, não faz drama e manda só duas. E eu não vou jogar futebol no intervalo; eu sei que é proibido. Eu vou ser juiz de batalha de rap.

( Silêncio externo prolongado enquanto vozes ecoam no meu interior )


Sabe, eu fui uma pessoa que sofreu de afetação durante a gravidez do primogênito. Pus na cabeça que meu filho só usaria pomada de assaduras fabricada além mares, em terras germânicas. Paguei três vezes mais por isso, deixei de comprar creme anti-rugas e nem me importei com isso.
Já no segundo filho, ou melhor, segunda, a afetação desapareceu por completo. Eu não tinha tempo nem de ir ao mercado, quanto mais em pensar em pomadas para assaduras. Fato esse que fez com que a menina sofreu de abstinência de pomadas brancas e vejam só: ela nunca assaduras.
Fato este que hoje me faz refletir que, os tubos de dinheiro que eu gastei com cremes fabricados com ingredientes importados... bem, creme importado, creme genérico ou ausência de creme, dá na mesma e agora não adianta chorar o creme espalhado.

Ah! Teve também a luz azul no quarto, que depois eu soube que não era tão boa quanto a lilás. E foi uma dificuldade para arrumar uma lampadazinha de chama violeta suave, mas eu viajei a uma outra cidade e trouxe na bagagem. E era banhado em luz violácea que meu primogênito também se banhava de sonoridades à la baby eistein. Muitos, muitos cds baby eistein. Não acredita? Ouça só um pedacinho aqui e me veja na situação: uma poltrona confortável, luz lilás, música de fundo, cheirinho de pomada para assaduras.
Não posso deixar de registrar que levei o menino num concerto. Aos doze meses de idade ele foi à um concerto de cravo. Confesso que foi bastante difícil conseguir a permissão para a entrada dele. Não era recomendável, porém eu travei uma batalha gentil e perfumada a creme de assaduras e eles me deixaram entrar com o rebento desde que eu me sentasse em lugar estratégico para caso acontecesse alguma rebeldia sonora por parte do pequeno, eu deveria me retirar à francesa para nào importunar o cravista.
Um lorde! Assim se comportou meu perfumado filho - como um lorde. Encantou-se com a música, seus olhinhos faiscavam e eu interpretei isso como sendo um sinal. Ah, aquele bebê devia estar se recordando de sua vida passada em grandes salões reais, bailando com senhoritas que disputavam entre risinhos encobertos por seus leques, que meu filho a tirasse para uma dança ao som do cravo. E eu já havia decidido: este menino seria um grande cravista. Nem que para isso eu precisasse trazer um cravo sei lá de onde. 

 - Mãe, você tá me ouvindo?
 -Ãhn? Sim, sim, estou.
 - Mãe, então, manda só duas bisnaguinhas porque eu vou ser juiz de batalha de rap. Sabe mãe, os meninos falaram que eu não sou bom em rap. Além de ser bom em rima, precisa gingar o corpo para cantar e sincronizar com a rima e eles falaram que eu não sirvo para isso. Mas, que eu tenho tenho um bom ouvido e sou justo, não vou favorecer uma pessoa só por amizade. Então agora eu sou o juiz de rap.

Na manhã seguinte preparei duas bisnaguinhas.
E depois perguntei como tinha sido a batalha de rap.

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

47/52


Borboleta na escola da filha no projeto "Para Sempre"

Convido-os para ouvirem a linda música Sem Perceber clicando aqui.

Música de Paula Santisteban e Eduardo Bologna.



SEM PERCEBER
(Paula Santisteban e Eduardo Bologna)

SEM PERCEBER
A SEMENTE SE TRANSFORMA EM ÁRVORE
A LAGARTA VIRA BORBOLETA
E O VENTO VAI CONTANDO A HISTÓRIA

SEM PERCEBER
A GOTA SE TRANSFORMA EM NUVEM
O AMARELO VAI FICANDO VERDE
E O TEMPO VAI CONTANDO A HISTÓRIA

SEM PERCEBER
OS OLHARES VÃO VIRANDO FLORES
AS ESTRELAS VÃO VIRANDO NOMES
E A GENTE MUDA DE DENTRO PRA FORA

SEM PERCEBER
A CERTEZA SE TRANSFORMA EM DÚVIDA
OS BRAÇOS VÃO FICANDO LIVRES
E AS ONDAS VÃO CONTANDO A HISTÓRIA

SEM PERCEBER
O BARULHO VIRA PENSAMENTO
A JANELA SE TRANSFORMA EM SONHO
E AS FOLHAS VÃO CONTANDO A HISTÓRIA

SEM PERCEBER
AS PESSOAS VÃO FICANDO PRÓXIMAS
OS CHINELOS VÃO FICANDO GASTOS
E AS PEDRAS VÃO CONTANDO A HISTÓRIA

SEM PERCEBER
OS AMIGOS VÃO FICANDO VELHOS
O SORRISO VAI FICANDO LARGO
E A GENTE MUDA DE DENTRO PRA FORA

SEM PERCEBER
OS OLHARES VÃO VIRANDO FLORES
SEM PERCEBER
AS ESTRELAS VÃO VIRANDO NOMES
SEM PERCEBER
AS PESSOAS VÃO FICANDO PRÓXIMAS
SEM PERCEBER
OS CHINELOS VÃO FICANDO GASTOS
SEM PERCEBER
OS AMIGOS VÃO FICANDO VELHOS
SEM PERCEBER
O SORRISO VAI FICANDO LARGO
SEM PERCEBER
A SEMENTE SE TRANSFORMA EM ÁRVORE
SEM PERCEBER
A LAGARTA VIRA BORBOLETA
SEM PERCEBER
E A GENTE MUDA DE DENTRO PRA FORA
SEM PERCEBER
A GENTE MUDA DE DENTRO PRA FORA
SEM PERCEBER
A GENTE MUDA DE DENTRO PRA FORA
SEM PERCEBER
A GENTE MUDA DE DENTRO PRA FORA
SEM PERCEBER

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Pêssego em calda

Quando a atriz Angelina Jolie anunciou a retirada das mamas preventivamente por causa do histórico de câncer na família, houve o chamado efeito Angelina Jolie, ou seja, aumentou consideravelmente o número de mulheres que procuraram o exame genético e muitas também optaram pela cirurgia.
É um fenômeno conhecido dos especialistas seja em moda, em comportamentos: divulgado um comportamento, atitude, para o bem ou para o mau, e ele se replica, se repete, vira espelho.

Por esses dias, a mídia mostrou a jovem americana com câncer que agendou sua morte no chamado suicídio assistido. E depois veio a divulgação da morte e da criação de uma png que leva o nome da jovem e pretende ajudar na divulgação.

Esse caso me fez lembrar muito de minha mãe.
Há 30 anos que ela morreu de câncer.
A última semana de vida foi de um sofrimento intenso. Algumas horas antes de morrer, estávamos apenas eu e ela em casa, e ela pediu-me que queria comer pêssego em calda com creme de leite.
Escolhi o maior dentro da lata e coloquei num copo, não tínhamos taça de sobremesa.
Acrescentei o creme de leite e a vi comer, ou melhor, apreciar, saborear com delicadeza, sem nenhuma pressa. As dores naquele momento cessaram e deram espaço para que a doçura tomasse conta de todo o seu ser. E depois de comer ela me abraçou. O abraço mais doce que já recebi.

Temo que nesses tempos difíceis em que ideias e atitudes se espalham numa velocidade assustadora, que muitas pessoas deixem de saborear um pêssego em calda.

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

46/52


Há pais que se orgulham de pagar a melhor escola da região para o filho, a mais cara, mas...
os exemplos que dão são lamentáveis.
O fato de pagar não lhe dá o direito de desrespeitar a faixa de travessia ficando ali estacionado.
E a vaga para portadores de deficiência?
Ah, nem vale a pena escrever sobre isso, afinal são só dois minutinhos parados lá.

terça-feira, 4 de novembro de 2014

Libertar livros



Chegando mais uma edição do BookCrossing Blogueiro! Escolha um livro e dê-lhe asas, liberdade!
Tem alguém que vai gostar de encontrá-lo, de recebê-lo e vai ter muita agitação e interação aqui pelos blogues!
O evento é público, convide quem você quiser, espalhe a ideia no teu blogue, nas redes sociais.
Quem organiza, listando as participações para que a gente possa interagir, ver as formas de "esquecer"o livro, é a Luma do blogue Luz de Luma.
E tem também a versão infantil!
E então, se animou?
De 8 a 16 de novembro muitos livros serão espalhados!
Se quiser pegar uma imagem, um banner, passa lá na Luma, prepara um recadinho para deixar dentro do livro e vamos incentivar a leitura, a troca.

domingo, 2 de novembro de 2014

45/52


Andávamos, eu e minha filha, pelas ruas asfaltadas a caminho do centro da cidade.
Foi no chão tingido que soube estar diante de uma amoreira.
Levantei os olhos, os braços mas não conseguia alcançar uma sequer.
Levantei então a menina pegando-a no colo.
Ai! Como cresceu! Quase não aguentei.
Duas frutinhas foi o que conseguimos. E dividimos!
Ficou a vontade de mais, de outras.
Encontrei no mercado numa pequena embalagem de isopor e grande preço. Trouxe para casa.
"Mãe, adorei a surpresa, mas sabe, aquelas lá da árvore eram mais saborosas."

As flores de finados

"Ih, num sei nem pra que vão. Vai chover mesmo. Finados sempre chove."

Essa era a fala de alguma tia velha quando nos ouvia planejar nossa viagem para o litoral. Éramos todos muito jovens, recém chegados à maioridade e tudo o que queríamos naqueles dias de um feriado prolongado era ficar longe das tias velhas que falavam com voz agourenta e nos recriminando, que choveria.
E chovia mesmo.
Alugávamos uma casa na praia e a turma "rachava"todas as despesas - desde o macarrão, que era mais fácil de fazer, até passar um pano na casa, o que causava na maioria das vezes alguma briga pois sempre tinha a turma dos folgados. Mas era assim: colchão ruim e fedido, panelas um tantinho ensebadas e nada disso importava.
Só que chovia. Sempre chovia.
Era uma chuva triste e fina e em algum momento a gente achava que era a praga da tia velha que tentava estragar o passeio.

No ano passado, nesta exata data, fui cedo ao mercado. Logo na entrada algo não habitual do dia a dia: muitas prateleiras de flores logo ali, bem na entrada, abarrotadas de vasos floridos; crisântemos várias cores eram a maioria.
Peguei o pão e por algum motivo precisei voltar ao mesmo mercado já anoitecendo.
Estavam lá ainda as prateleiras,  as flores e a funcionária que comentou: "Que estranho esse ano, não vendeu flores, acho que o povo não vai mais ao cemitério."

Ano passado fez um dia lindo, de deixar a previsão de tia completamente errada.
E eu me lembro de ter tido o mesmo pensamento da funcionária das flores - as ruas estavam repletas de pessoas passeando tranquilamente, tomento sorvetes, andando de bicicleta na ciclofaixa e o parque próximo de casa lotado.

"É provável que as visitas aos cemitérios se tornem cada vez mais raras"- estava escrito no jornal; eram palavras de Contardo Calligaris.

As pessoas mudam de lugares, cidades, estados e deixam para trás seus mortos; vivemos um momento de culto à tudo que seja jovem, vivemos um momento de total felicidade nas redes sociais.
Mas...
Também conhecemos pela globalização, pelo advento da internet outras maneiras de celebrar o dia de finados, como por exemplo na cultura mexicana ou japonesa.
Acho que não é uma questão de cemitérios e sim de permitir as lembranças.

Lembrei-me de uma historinha que há muito tempo li que falava mais ou menos o seguinte: uma mãe tinha perdido seu filho e estava muito triste e ao mesmo tempo com muita raiva pois achava injusto e pediu a Buda que queria seu filho de volta. Buda então disse à mulher que fosse de casa em casa no vilarejo e se ela encontrasse uma casa onde não houvesse um morto na família que teria seu filho de volta.
Em cada casa do vilarejo uma história mais triste que a outra; em cada casa do vilarejo havia sempre um morto. E assim a mulher compreendeu, mesmo com sua tristeza, que a vida é assim, gostemos ou não.

Também li que há projetos ( ou à essa altura já seja real ) em alguns cemitérios você chega com o seu celular posicionado perto da lápide para que o aparelho leia um código que está ali e você passa a ver fotos, histórias da pessoa.
Já há também um cemitério virtual, pensando especialmente nas muitas migrações e imigrações que são cada vez mais constantes.
Neste cemitério virtual é possível construir ou visualizar  a história das pessoas que você conheceu ou se for destemido pode deixar a sua própria história registrada ali - people memory.

Que a nossa saudade não seja dilacerante, que o sol que nasce e se põe a cada dia se encarregue de amainar a dor e possamos lembrar, recordar os momentos vividos com nossos mortos com serenidade, mas que a gente não deixe de lembrá-los. Trazemos sempre um pouquinho de alguém em nós.