Que hóspede! Que gato! E bota gato nisso... um gatão, para ser bem sincera.
Hospedei um gatão aqui em casa.
Eu havia me animado com a ideia de ter um gato aqui por casa, afinal a última vez que tive gatos foi na minha infância.
Trouxeram os apetrechos, caixa, areia, ração junto com o gato e as recomendações. Na casa havia apenas um ponto que se mostrava perigoso: um acesso, a um pulo felino, do muro do vizinho.
A mãe do gato, ou seja, a sua jovem dona, pediu-me que cuidasse para que o bicho não fosse para aquelas bandas do muro.
No primeiro dia do gato aqui em casa eu já me senti exausta de tanto ir atrás dele para impedi-lo de subir no tal muro.
Marido disse que eu podia relaxar; o bicho era inteligente.
"Você acha que ele não sabe que tem cachorros lá do outro lado? Claro que sabe, já sentiu o cheiro do perigo, não vai se meter a besta".
Então na segunda diária da hospedagem, todos se foram e eu fiquei a sós com o bichão.
Achei tudo bem diferente da minha infância, onde gatos viviam soltos por entre telhados e árvores. Esse gatão, por exemplo, não tinha acesso a árvores, pulava, surgia repentinamente na pia da cozinha e eu tomava cada susto...
Abria um armário para pegar uma panela e rapidamente o bicho já estava enfiado lá dentro.
Mas, voltando ao segundo dia da hospedagem, aconteceu que o gato sumiu.
Era por volta das 10h30min da manhã, ele já havia subido por toda a bancada da cozinha, na pia, havia ganhado alguma carne crua e então desapareceu.
Achei foi bom, pois assim eu poderia cozinhar em paz.
Conforme os minutos foram passando eu comecei a sentir falta do gatão.
Procurei, chamei, almocei e nada do bicho aparecer.
Então às duas horas da tarde, após ter revirado a casa e com o estômago também revirado de tanto nervoso, eu mandei mensagem para a minha filha comunicando o desaparecimento.
"Mãe, relaxa, daqui a pouco ele aparece".
Uma hora depois, minha filha me perguntava - e aí apareceu?
Diante da negativa ela se deu conta da encrenca que estávamos, ou melhor, eu estava metida.
Então perto das quatro da tarde ela me ligou, falando rápido e baixo: "Mãe, a mãe do gato está tomando banho tenho que falar rápido. Mãe, não chora, não tem nada o que fazer".
Eu havia relatado à minha filha que tinha revirado a casa, sacudido o pote com a ração e feito aquele som com os lábios - pichi- pichi- pichi. Acho que nesse momento até esfreguei assim os dedos das mãos para chamar o bichano ( devia ser alguma memória de infância ).
Então, entre lágrimas, eu confessei: minha única esperança é a coleira.
A mãe do gato havia colocado uma coleira nele com o número do telefone dela.
Disse para minha filha: fala pra mãe do gato ficar atenta ao celular, qualquer número estranho, ela precisa atender.
"Mãe, eu não posso falar isso para a mãe do gato, aí ela vai saber que ele fugiu, vai se desesperar e vai querer voltar da viagem. Isso não, deixa para ela saber quando a gente tiver indo embora.
"Ah e eu posso ficar aqui desesperada né? Eu que nem mãe de gato sou, passando esse sufoco".
Rapidamente combinamos que seria melhor mesmo a mãe do gato não saber nada. Que curtisse as férias e deixasse o choro para a volta. Eu já estava chorando por ela. Também combinamos de falar do desaparecimento quando elas passassem pelo posto na avenida já perto de casa. Filha concordou.
Segui chorando. Um vazio, um silêncio dentro de casa, a luz do sol cedendo para penumbra do poente.
Fosse eu a mãe do gato, tudo bem, seria muito triste. Agora um gato alheio, um gato hóspede sumir sob meus cuidados, era mesmo tenebroso.
Com um paninho já ensopado de lágrimas e fungueiras, apertado entre as mãos, entre orações soluçadas já perto das 18h, surge o gatão.
Faltava-lhe apenas a coleira. Exultei de alegria! Poderia ele pular o quanto quisesse nas mesas, pias, na estante. Ele estava de volta!
Poderia levar todas as lagartixas que ele caçava à noite para a cama que eu nem me importaria.
Mandei foto do hóspede para a filha que também suspirou de felicidade!
A mãe do gato voltou, gostou de ver seu filhote bem tratado e saiu novamente para voltar só no final do mês e ele seguiu conosco.
Em sua última noite em casa ( eu só não comprei fogos para celebrar a data porque ele poderia se assustar e fugir ) aconteceu algo estranho: a cozinha começou a ser invadia por abelhas. Uma meia dúzia delas e... comecem a desconfiar o que aconteceu.
Na véspera de ir embora, de ser entregue íntegro para a sua mãe, o gato sai em caça pra cima das abelhas e claro que isso não foi bom.
" Mãe esse gato tá muito estranho, olha pra ele".
Por tudo o que é mais sagrado, faltando apenas algumas horas para o hóspede ser levado embora, ele começa a ficar estranho? Se mordia, se coçava e não deixava ninguém chegar perto.
"Foi abelha - sentenciou marido.
Se ele não morrer, amanhã amanhece bom".
Não fala isso nem brincando. Já pensou no último dia esse bicho sucumbir?
Passei a noite em claro olhando se o bicho respirava. Amanheceu com um olho inchado e logo depois estava correndo atrás de passarinhos.
Quando a mãe do gato surgiu para buscá-lo, ele tinha uma lagartixa na boca.
Ela agradeceu, disse que o gato estava muito feliz. Ela podia ver nos olhinhos dele que ele tinha sido muito bem cuidado.
Já eu não posso dizer o mesmo. Eu não fiquei nada feliz com esse hóspede. Até hoje não consigo imaginar por onde ele andou durante seu sumiço.
Concluo que os gatos da minha infância eram bem mais fáceis de serem cuidados.
Dizem que é uma maravilha para a saúde ter um gatinho por perto... Pra minha saúde não fez nada bem.
Não quero mais saber de hospedar gato não!


























