Há uma rua nos arredores de onde eu moro, na verdade uma pequena rua, ruazinha, ruela, que, toda vez que saímos de carro, precisamos passar por ela para acessar avenidas largas e as várias possibilidades de trajeto.
Seu comprimento pode ser medido em alguns passos. Mão única, tendo à sua esquerda uma também pequena praça e à sua frente um semáforo, que raras vezes se mostra verde para nossa passagem.
Inevitável pararmos ali. Parece mesmo que sempre está fechado o sinal na nossa vez.
E ali, sempre que aguardávamos a abertura do sinal, um homem se aproximava da janela do carro oferecendo algo dentro de um recipiente retangular de plástico que ele segurava com um dos braços.
O gesto era automático por dentro do vidro fechado - um não com um pouco de agradecimento, misturado também com um desejo de boa sorte ao vendedor, afastando porém o que quer que fosse aquilo.
Certo dia, o vidro do carro estava aberto pela metade e a voz do moço pode nos alcançar - "Cocada moço? Cremosa hein?!
O obrigado saindo pela boca e pelo gestual da mão era a maneira educada de dizer não.
O semáforo sempre fechado quando por ali passávamos. O homem sempre ali com sua caixa plástica.
Deixamos de ver o homem ali, enquanto o semáforo mudava a cor para nos sinalizar a passagem, e nem percebemos. Ele havia se tornado como que invisível a nós.
Até que...
Ano passado, durante meu tratamento, muitas vezes precisei usar o serviço de carro por aplicativo para ir ao hospital.
O caminho, obrigatório passar pela ruazinha.
Então numa dessas tardes, o motorista que me conduzia começou a falar-me ainda quando esperava o semáforo esverdear.
"Nossa dona, sabe que sempre que eu passo por aqui eu fico procurando o vendedor de cocada e nunca mais o encontrei?
Um dia, faz tempo já, eu passei por aqui e tinha acabado de almoçar. Tava com aquela vontade de um docinho sabe e quando parei aqui no semáforo, ele veio e me ofereceu uma cocada. Eu olhei bem, porque dona, eu sou conhecedor de cocada, olhei, olhei e achei que aquilo era puro pelote de açúcar com uns fiapos de côco perdido. Mas a vontade de comer doce tava grande e eu comprei.
Dona...
Eu posso lhe garantir - a melhor cocada do mundo era daquele moço. Nunca comi cocada tão boa, e olha que sou conhecedor, já comi cocada na Bahia, no Ceará, aqui em São Paulo e falo mesmo que não tem melhor que a desse moço. Mas faz tempo que eu não vejo mais ele".
Eu engoli em seco enquanto o semáforo abria e o carro arrancava.
A melhor cocada do mundo sempre ali acenando a cada vez que parávamos na dita ruazinha e nós nunca demos uma chance para ela. Senti uma pequena tristeza.
E agora que sei que não existe iguaria melhor em todo o mundo das cocadas, não posso comprá-la porque não existe mais o vendedor.
Naquele dia, quando meu marido foi me buscar no hospital contei-lhe a história da melhor cocada do mundo.
Apenas me respondeu - "é verdade, nunca mais eu vi aquele homem e olha que sempre que eu passo o farol está vermelho e eu fico olhando ali para a praça e é mesmo, o homem não está mais lá".
Havia também uma pequena tristeza na voz de meu marido.
"Talvez ele tenha arrumado um emprego, ou passou a oferecer suas cocadas para algum lugar. Tomara esteja bem né?"
Na ausência do doce, tentei essas boas palavras.
Pois bem, dias desses indo a pé para algum lugar, na volta paramos ali, naquela praça da ruazinha, aguardando a luz vermelha do sinal paralisar os carros para podermos passar.
Foi então que vimos o homem.
Não foi preciso nenhum diálogo entre meu marido e eu. Fomos ao encontro do homem instantaneamente e minha alegria era tanta que enquanto marido escolhia, eu ia falando:
Nunca mais te vimos aqui...
Fui interrompida de imediato - "dona, eu venho todos os dias, mas acontece que a cocada acaba antes mesmo das 9 da manhã. Trago a caixa cheinha. No começo eu ficava aqui o dia inteiro... agora tá assim.
Aceita pix? - sim, mas leva o papelzinho com o número para casa, não é bom ficar de celular na mão né?
Enquanto marido fazia a escolha, dois carros abaixaram o vidro, estenderam a mão e levaram a melhor cocada do mundo.