segunda-feira, 19 de novembro de 2018

Maritacas e flores

Saí para fotografar maritacas. Antes, porém, que alguém se empolgue em ver as fotografias das tais aves, aviso de antemão que não consegui.

Ano passado, exatamente à esta época, primavera caminhando para o verão, eu avistei as maritacas dependuradas numa árvore a comer seus frutos.
Eu que só avistava pardais e bem-te-vis na outra cidade em que morávamos, fico deslumbrada em ver os bichinhos assim tão próximos.

Pois esse ano assim que vi os frutinhos perfumados da árvore, lembrei-me que logo elas estariam ali para se alimentar. Numa tarde abafada, ouvi a algazarra.

Fui para casa, peguei a máquina fotográfica e voltei com a intenção das fotos.
Só que...
Eu levei como companhia nosso cachorro.
Algazarra das maritacas, latidos do cão e foram-se todas empoleirar em outros cantos distantes.

No retorno caminhamos por uma outra rua e encontrei flores por entre árvores.

Não fiz as fotos dos alegres bichos de plumagem verdes, mas trago flores para alegrar nossa semana!






domingo, 18 de novembro de 2018

Solidão na maternidade


Participando do projeto Na Casa da Vizinha, uma blogagem coletiva que ocorre no terceiro domingo de cada mês, organizada pelas meninas Cris Philene do blog Prosa de Mãe e Tê Nolasco do Bolhinhas de Sabão para Maria, que hoje traz o tema Solidão na Maternidade.

Assim que vi o tema proposto para essa blogagem, imediatamente lembrei-me de um lindo texto que me tocou à epoca da gestação da minha filha Júlia, hoje com treze anos.


"Um dos momentos mais especiais da minha vida foi o mês após o nascimento de Tara. Descobrir minha filhinha era observar o milagre do desabrochar diante dos meus olhos. Ela era o ser mais precioso, bonito e divino que eu jamais vira.
Mas havia um outro aspecto desse tempo que guardarei para sempre como um tesouro. Numa tradição seguida por muitos indianos, a parturiente e seu bebê recém-nascido ficam na casa dos pais durante 40 dias após o nascimento. Esta tradição se explica pelo fato de tanto a mãe quanto o bebê necessitarem de cuidados e carinho nessas primeiras semanas. Cuidada por sua própria mãe, a recém-mamãe pode então se concentrar nos desafios e descobertas desse primeiro momento e dar início ao relacionamento com seu bebê num ambiente estável.
Voltar com minha filha recém-nascida para a casa de meus pais foi uma experiência comovente e tocante. Passei com eles um tempo lindo e emocionante nessa nova fase da minha vida, com meu bebê nos braços. Eu era agora uma mulher adulta, expandindo a nossa família e despertando em todos sentimentos de um amor ilimitado. O amor e o orgulho nos olhos dos meus pais tanto por mim quanto por sua neta me fizeram descobrir que Tara era não só um dom para Sumant e para mim com também o presente mais sagrado que eles haviam recebido"           Mallika Chopra

Nossa solidão é cultural, geográfica. Comunidades indígenas, sertanejas, quilombolas, ribeirinhas, por exemplo, relacionam-se de outras maneiras que nós de comunidades urbanas.

Por horrível que isso possa soar, vivemos uma cultura de isolamento. Não sabemos pedir ajuda, não sabemos oferecer, por medo. Medo de se expor, medo de parecer ridículo, medo de que o outro não saiba fazer do "nosso jeito"e assim, uns com medo dos outros, seguimos isolados.

As amizades podem mudar; se antes saíamos para um bar, um noite de conversas, com um bebê fica mais difícil e amigos podem se afastar, mas também podemos fazer novos amigos por afinidades - bebês, escola, brincadeiras, passeios.
Precisamos de abertura, abrir-nos para outras possibilidade. Muitas vezes não incentivamos nossos filhos assim, seja numa praça, clube, festinha: "vai lá, fala com ele, empresta o brinquedo". Estamos dizendo "faça um amigo! "Precisamos repetir isso para nós mesmos e nos esforçar para olhar para essas pessoas que terão em comum conosco a maternidade.

Acho que temos uma ferramenta valiosa nesses tempos que são as redes sociais, a facilidade dessa tecnologia de comunicação que são nossos celulares e não a usamos em todo o seu potencial.

Eu acredito que a maioria de nós aqui dos blogs vive nessa cultura urbana, que traz em si mesma esse isolamento e por isso mesmo pede esse olhar cuidadoso porque há sim como remediar isso.

"Na contemporaneidade, existem formas alternativas de relacionamento, como as redes sociais, por exemplo, que se apresentam como uma boa sugestão de sociabilidade e trocas importantes"- Dr José Guilherme Cantor Magnani, antropólogo.

No meu começo na internet eu ouvia muito o termo amigos virtuais versus amigos reais. Essa é uma barreira que já se transpôs. Quantas pessoas "virtuais" nós sentimos afinidade, preocupação, cuidado. E por que não dar um passo a mais, trocando e-mails, endereço, correspondências, WhatsApp com essas pessoas? Por que não se formar um grupo com essas pessoas que sentimos emanar um calor? Com um tema em comum, e fazer reuniões online para expor opiniões, trocar experiências, angústias, ir além de nossas fotos bonitas no instagram?
Grupos grandes, gigantes, dos quais a internet está cheia, não funcionam com esse propósito de aproximação, falo de quando a sentimos um pulsar ali na telinha!

Eu participo de reuniões semanais via Zoom, Skype e é muito enriquecedor.

O texto que eu postei acima, na minha opinião é lindo, porém é uma outra cultura. Pode servir de inspiração mas não pode servir como lamentação.

Os filhos estão, ainda bem, crescendo, conquistando a cada dia algo novo, relevante, como já dissemos em outra blogagem, estão ganhando asas, tomara sejam nossos amigos, companheiros de vida, mas terão seus próprios amigos, seus caminhos, cabe então a nós oferecermos essa abertura para que outros se aproximem e para nós mesmas possamos oferecer aconchego, colo para quem possa estar precisando.

Precisamos quebrar essa cultura de isolamento. Abertura, disposição e atitudes, são a possibilidade .

Um beijo e obrigada por mais essa possibilidade de participar em grupo com essa reflexão!


sexta-feira, 2 de novembro de 2018

Medo da morte

Tenho medo. Estou com medo. Medo da morte. Medo da morte morrer.
Você leu direito sim, não é nenhum trocadilho - tenho medo da morte morrer.

Eu estava no supermercado quinta-feira, dia primeiro de novembro, o dia de todos os santos que na minha infância, lá no colégio católico no qual eu estudava, não havia aula, em respeito.
Lá no supermercado, estava uma moça bem jovem que falava ao celular, chamou-me atenção primeiro, a sua voz, a tonalidade daquela voz - mezzo soprano. Um tom grave, imponente e adocicado.
Ergui os olhos dos limões para olhar em direção à moça e pude ouvir a sequencia de sua conversa: 
"Amanhã eu farei uma feijoada lá em casa... sim. sim, só falta pegar limão pra caipirinha. Tá, te espero. Beijo."

Dos limões para a moça, meus olhos pousaram depois em seu cestinho de compras. Dois pacotes de feijão preto, carnes, couve.

Pensei comigo que aquela moça tão jovem sabe fazer feijoada e eu, com mais que o dobro da idade dela, não sei.

Amanhã ( que no caso é hoje, dia dois de novembro, feriado de finados ) vai ter feijoada na casa dela. Será que é para homenagear algum finado ancestral apreciador de feijoada com caipirinha?
...
Diário de hoje, dia dois de novembro, feriado de finados.

Saio cedo com o cachorro. As ruas estão vazias e silenciosas, numa combinação dos que foram viajar com os que estão dormindo um pouco mais por conta do feriado.

Há uma escola aberta, afinal o Enem bate às portas. Um estudante entra.

Sigo para uma praça. Quatro outros estudantes da mesma escola, escolheram ficar debaixo de uma árvore jogando cartas.
Esses não pensam no Enem nem na morte.

Mais à frente uma mesa dobrável acomoda vários itens de café da manhã. Um homem com um apito na boca e gestos firmes comanda ladeira acima um grupo de corredores.
"Falta mais três chegadas, pensem no café especial depois!"
Esses correm da morte.

A morte segue evoluindo em seus rituais.
Já achei engraçado as carpideiras. Já me emocionei ao ver pela tv a cobertura dos túmulos mais visitados nos cemitérios de São Paulo. O dia de finados era um dia triste, cabisbaixo. A cobertura da tv agora mostra o movimento nas praias.

Antes tinha só o cemitério, várias são as opções mais modernas - cinzas acomodadas em um bonito e sustentável recipiente que plantado se transforma em árvore, ou ainda a opção de encaminhar as cinzas do ente querido para seres transformadas em fogos de artifício.

Tem também a celebração mexicana que é mais colorida e cheia de vida.

Tem as novidades tecnológicas aliadas com a biologia, medicina que prometem o fim da morte, título de um livro - A morte da morte.

Tem o aceno de viver trezentos anos.

300 anos recebendo WhatsApp de brigas relacionados à políticos? 

Acho que prefiro uma boa morte!

Viver bem é imprescindível para um bom morrer.

Fiz preces, agradecimentos e agora inicio uma nova leitura.

Bom feriado para vocês!



"No início, você deveria ser perseguido pelo medo do nascimento e da morte, como um veado escapando de uma armadilha. No meio, você não deveria ter nada a se arrepender, mesmo que você morra neste momento, como um camponês que tenha trabalhado a sua terra com cuidado. No final, você deveria ser feliz, como alguém que completou uma tarefa imensa"
Matthieu Ricard

terça-feira, 23 de outubro de 2018

Voltar a sorrir

Às terças, vou cedinho para a feira.
É uma pequena feira; para ser bem sincera, é minúscula. Uma dúzia de barracas apenas.
Na barraca de frutas, percebi a ausência da moça de traços orientais. Esperei, talvez na próxima terça, ou na próxima ainda.
Achando prolongada a ausência, perguntei à mãe dela. Achei que pudesse ter arrumado um outro emprego, pois sabemos como é difícil a vida de um feirante.

A resposta saiu com imensa dor da boca da mãe: perdeu o bebê, sete meses de gestação; uma cesariana às pressas, hemorragia, foi preciso retirar o útero, quase que ela morre também.

Silenciei por um momento e tudo que consegui balbuciar foi perguntar o nome da moça e dizer que faria oração por ela, era o que eu podia oferecer.

Passei dias a pensar nessa triste situação, fiz minhas orações e queria fazer algo concreto para oferecer solidariedade.
Foi então que me lembrei de um livro escrito por uma mãe que perdeu seu bebê e a partir da rede de apoio, de mensagens que ela recebeu, tornou a sua dor um relato sensível.

Fiz o pedido, li o livro para ter certeza de que era mesmo um presente a ser oferecido para a moça da feira.
E eu me encantei com a sensibilidade, a narrativa, as imagens delicadas. Achei que sim, caberia para esse momento. Embrulhei o livro e levei-o comigo para a feira.
Sua recebeu com ambas mãos, num gesto lindo.




Ao longo do livro, a mãe de José, o filho que partiu, vai conduzindo a narrativa da dor à primeira vez que ela sorriu espontaneamente depois de tanto luto.

Meu desejo é que a moça da feira, que eu só conheço de "bom dia, será que está doce?, boa semana" volte a sorrir.






domingo, 21 de outubro de 2018

Uma exposição

Neste domingo, dia 21, fomos, a filha e eu para uma exposição que veio do Japão sobre as bombas e seus horrores.
Não é fácil olhar para tudo aquilo, mas é tão necessário...



Mas, voltarei a esse tema em outro momento para deixar mais fotos, anotações, reflexões.

Saímos do pavilhão onde estava a exposição e fomos arejar um pouco.
Minha filha Júlia notou que haviam muitos fotógrafos no parque realizando seus ensaios.
Eu disse que devia ser pelo horário, final de tarde, que tem ma luz suave.
Então ela me disse: 
"Então já que estamos aqui, vamos fazer uma sessão também de fotos!


Fez graça para espantar um tantinho a tristeza anterior.



Aproveitamos a exposição e depois o entardecer entre fotos e poses!
Um beijo!



Maternidade sem competição


Participando mais uma vez do projeto "Na Casa da Vizinha", uma blogagem coletiva organizada pelas meninas Tê Nolasco e Cris Philene, hoje com o tema maternidade sem competição.

Uma blogagem coletiva é como uma colcha de retalhos, ou mesmo um quebra-cabeça, onde cada pedacinho vai se somando ao outro e temos, com cada participação, várias ideias que formam um todo muito enriquecedor.

Antes de escrever, já que estou publicando no final da noite, pude ler as participações e fica bem claro que não é positivo, não é saudável emocionalmente essa competição. Respeito ao tempo de cada criança é um ponto central na maternidade.

Quero contribuir com duas propostas ( não são minhas, são da sabedoria que pertence à nossa humanidade ) que podem mesmo ser chamadas de "antídotos".

Para quando sentirmos que nossos filhos são os únicos, os melhores do mundo; para quando acharmos que somos a mãe mais extraordinária de todas. Ou seja, se cairmos no modo exagero:

O agradecimento é o remédio, o antídoto.

"Ao agradecer reconhecemos que as condições que possibilitam a nossa existência dependem de um entrelaçamento imensurável de seres e circunstâncias. Nos prevenimos do isolamento, do autocentramento e da não apreciação". Fábio Rodrigues

Esse agradecer é reconhecer a nossa dependência de várias pessoas, de vários fatores para que nossa vida e a vida de nossos filhos flua.

A moça que aplicou a vacina, a funcionária da limpeza que higienizou o hospital onde ele nasceu, o caminhoneiro que fica tantos dias longe de seus filhos para transportar o arroz que nossos filhos comem. Uma teia incrível que deixamos de ver quando achamos que somos tão incríveis.

Contemplar toda essa teia de apoio, muitas vezes invisível, vai trazendo um frescor ao nosso olhar - somos todos especiais porque estamos interligados! Se meu filho é o melhor pianista, quantas pessoas contribuíram para isso? Não há arrogância, exageros que resista!

Meu filho é um leitor exímio? Obrigada aos escritores das histórias, ao pessoal da gráfica, a quem plantou provavelmente eucaliptos que se tornaram papel, que viraram livros e que fazem meu filho um leitor voraz!

O outro antídoto é para quando nos sentirmos mal, culpados, inferiores perante o outro ou mesmo, para quando sentirmos inveja. 

Alegria empática é o remédio!
Antes de acessar as redes sociais, antes de ir para a pracinha, reunião da escola, antes de abrir o whatsapp, respire profundo e concentre-se em apreciar as virtudes, sucessos e alegrias de outras pessoas.
Se um outro pensamento vier, algo do tipo "nossa, meu filho não faz nada disso, ou, poxa, queria tanto ser como aquela mãe que faz tudo tão perfeito para criar seus filhos", apenas volte para apreciar o outro. Não julgue, não elabore.

Andou cedo, come pão de fermentação natural, fala três idiomas?- alegre-se com sinceridade.

Nossa vida fica mais leve, a alegria flui sem precisar de motivos!

Que a gente possa cultivar cada vez mais a alegria empática e olhar com profundidade para poder agradecer!

Um beijo!



sexta-feira, 19 de outubro de 2018

Um tucano na cidade


Era para ser somente uma ida aos Correios.
Enquanto eu aguardava o semáforo para atravessar, avistei a majestosa ave voando e logo em seguida, um pouso suave na árvore bem a minha frente!
Só lembrava de tucanos em zoológicos. Vê-lo ou vê-la assim, livre, encheu-me de alegria.
Primeiro eu desejei que o semáforo se apressasse em fechar para os carros e pareceu-me uma eternidade...
Atravessei já com o celular na mão, coisa rara, diga-se, porque quase nunca levo o aparelho quando vou por perto.
Havia um outro edifício, não este da foto, bem defronte à ave. Ah! Queria habitar aquela janela no alto!
Depois desejei ter uma câmera fotográfica com lente potente para retratar toda a exuberante beleza.
Por fim, dei-me conta que eu estava ali apreciando a cena peculiar - um tucano na cidade!
Os carros passavam ligeiros. Um ônibus parou no ponto e eu pude ouvir "o que será que ela está vendo? ".
Abri um sorriso enquanto a ave batia asas novamente!
Alguém mais com um tucano urbano?!