segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Diário das coincidências

Diário das coincidências é o título de um livro que ainda não li. Sequer o tenho. Pretendo.
Acho que todos nós temos coincidências que dariam um livro. Alguns prefeririam chamar de acaso, simultaneidade, serendipidade, auspício quando a coisa é boa. Eu já tentei encontrar significados para as coincidências mas, hoje em dia, desisti. Acontecem e pronto. Desfruto desse acaso simplesmente.
Vou arrancar uma página do meu diário e transcrevê-la aqui.
Domingo.

Querido diário,

Hoje, domingo, 18 de setembro, o dia amanheceu ensolarado.
Promessa de um grande dia!
Lavei roupa. Muitas pessoas não lavam roupas aos domingos. Eu, sim. Gosto mesmo de lavar roupa aos domingos.
E foi bem cedo.
Ainda é inverno no calendário. Não lá fora.
Tudo está tão absurdamente florido. Os pássaros piam com alegria. Vi meninas com vestidos estampados, chinelinhos nos pés e ainda por cima olhei a programação do parque perto de casa e sabe quem vai estar lá querido diário?
Barbatuques!
Sim, sim, aquela trupe que faz sons com o próprio corpo.
Eu nunca os vi, só mesmo rapidamente em algum programa infantil e confesso que fiquei mais empolgada do que as crianças!

Pendurei as roupas no varal e de repente, quando olhei, o varal estava todo revirado.
Também estranhei quando vi duas cédulas de dinheiro, uma nota de dez e outra de vinte estendidas na cama do meu filho no rastro de sol que pousava ali.

Fácil decifrar: ele esqueceu dinheiro no bolso da calça; eu esqueci de inspecionar ao colocar para lavar. Após o mergulho espumoso e após o amaciamento, foram resgatadas do varal e postas ao sol.

O parque parecia mesmo um enorme jardim com a alegria e o zunir, o ir e vir de abelhas alegres.
Pegamos um bom lugar e combinamos: se sairmos, perderemos o lugar, então enquanto um vai, o  outro fica.

Diário querido, sabe o que tinha lá?
Geladinho.
Será que é do seu tempo querido diário? Ou será que você conhece como gelinho, sacolé?
Tudo o que sei é que é delicioso!

Olha só diário:




E olha só que coincidência diário: tinha um sujeito na fila atrás de mim que tinha jeito de quem comprava geladinho na vizinhança. Puxei conversa e não deu outra. Não é mesmo que o cara comprava mesmo geladinho?!
Ele até lembrou que os que eram feitos com leite, era mais caro. Eu nem me lembrava disso. Só comprava mesmo de ki-suco!
Lembramos das plaquinhas no portão, nas janelas, todas feitas de papelão.

Ih, esqueci de contar diário. Acredita que eu achei vinte reais no chão enquanto ia comprar geladinho? No meio de toda aquela gente, justo eu que fui achar?

Minha filha disse "nossa que dó de quem perdeu né?"
Eu respondi "não tenho dó nenhuma"
"Nossa mãe"- ela se indignou.

"Esse dinheiro é do teu irmão, tenho absoluta certeza".

Acredita diário que ela não acreditou em mim?
Quando cheguei de volta ao nosso lugar para assistir ao show, perguntei pro meu filho quanto ele ainda tinha de dinheiro. O moleque afirmou ter vinte e cinco reais. Meteu a mão no bolso e tirou duas notas de dois e uma moeda de um real. Então ficou pálido. "Perdi vinte reais".

"Eu achei; aqui está está".

Que coincidência hein diário?!
A própria mãe achar dinheiro no chão e saber que era do filho.
Minha filha perguntou como eu tinha certeza. Essa nota está cheirando a amaciante.

E depois do geladinho, do perdido e achado, depois de uma semana com notícias tão tristes, a leveza da música, os sons saídos do próprio corpo, a alegria do público.
Precisa de explicações diário?!

Barbatuques


segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Amizades

Amizade virtual não existe.
Amigo de internet é só uma maneira carinhosa de falar.
No começo do meu blog, que tem cinco anos, participei de várias blogagens coletivas que nos propunham a refletir sobre a existência ou não de amigos virtuais.
Havia até uma certa tendência e outros blogueiros afirmavam sem hesitar, que a tal amizade virtual não era uma amizade. Amigos virtuais era um termo equívoco. Isso não existia.
Meu pensamento divergia desse porque havia algo que talvez em palavras eu não conseguia explicar.
A tela luminosa não era fria e impessoal para mim.
Aos poucos, de blog em blog, recebendo comentários, deixando comentários, encontrando as pessoas aqui e acolá nas praças virtuais eu comecei a sentir uma pulsação ali. Claro que havia e há pessoas que não se mostram totalmente, ou se o fazem, eu é que não tenho a capacidade de percebê-las. Mas, enfim, eu sentia amizades nascendo e florescendo. Eu sentia que, se em alguma manha eu acordasse me sentindo entristecida ou a ponto de explodir, eu podia sim contar com essas pessoas "virtuais".
Nesses cinco anos de blog muitos se distanciaram, outros desistiram, outros permanecem. Os laços, nesses cinco anos, só foram se estreitando, confirmando o que eu sempre senti e acreditei. Existe sim amizade virtual e que cada vez mais são laços que vão se estreitando. Seja por um cartão de Natal, um livro num sorteio, o instagram, facebook, e-mail, whatsaap e outros que eu nem tenho!
Tudo isso nos aproximou e a vida se encarrega de dar uma mãozinha também!
É promoção de companhia aérea, Bienal do Livro, reunião de negócios, uma passada por uma cidade e quando a gente vê, está ali abraçando alguém de nossas telas virtuais!
Sonho ainda encontrar muitos outros amigos virtuais e sei que é possível!


Ana Virginia do blog Filha de José e eu




Maria Dionara - trocamos cartas!



Tina, menina sapeca e meus filhos


Um dia inesquecível!


Conhecer Chica...


Faltam palavras para descrever!


Um sonho que sempre acalentei e enfim se realizou
Chica e eu!




quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Muito além da hashtag

Recebi através do instagram, o convite para postar uma foto em preto e branco pela luta contra o câncer e escrever "desafio aceito".
Neste mesmo dia eu já havia reparado nas tais fotos em p&b e fui procurar saber mais sobre esse desafio.
E é aí que eu me decepciono.
A intenção, a ideia, é excelente. O alcance das redes sociais é imenso, incrível.
Porém, a grande maioria das coisas que eu vi e li dentro da #desafioaceito, foram fotos lindas de mulheres e vários comentários assim escritos: linda, gata, arrasou, diva.
O desafio não deveria ser para enaltecer nossos egos. Dessa forma ele se esvazia.

Lembrou-me de um outro desafio desses recente, o jogar em si ou em outra pessoa um balde com água e gelo e teve uma enorme repercussão, só que muitas pessoas nem sabiam qual era a finalidade daquilo.

Para mim esses desafios só fazem sentido quando nos comprometemos a uma ação, uma atitude.
Além do cuidar-se, e para aquelas pessoas que querem cuidar-se mas não conseguem porque nem acesso a serviços de saúde têm?
O que podemos fazer por uma pessoa que esteja atravessando esse momento difícil do tratamento?
Pegar o filho na escola para ela? Comprar pão, fazer feira, conversar, silenciar.
Estaríamos dispostos a nos desconectar de nossos eletrônicos por uma hora e "doar" essa uma hora em orações, preces, pensamentos elevados? Levar uma flor para alegrar um tantinho aquela casa? Fazer uma campanha para arrecadar lenços para as meninas, mulheres que perdem seus cabelos?

Há tanto a fazer além de apenas postar uma foto.
Ao aceitarmos um desafio, que ele seja muito além de uma hashtag.


segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Dia Mundial da Fotografia


Dia 19 de agosto comemorou-se o Dia Mundial da Fotografia.
E foi um dia bastante celebrado, seja com exposições, selfies, debates, reflexões.
Vivemos na era da imagem. De certa forma, somos todos fotógrafos, o que é muito bom!
Mas será que basta fotografar?

Você sabe, faz ideia, de quantas fotos são tiradas no mundo por dia?
Em dois dias o número de fotos tiradas ultrapassa a população do planeta Terra.
Em dois dias são 8 bilhões de fotografias.
4 bilhões de fotos diárias.

"Nunca se fotografou tanto. Nunca se viu tão pouco" ( Simonetta Persichetti )

É indiscutível o ganho que tivemos com a fotografia digital. Os mais jovens talvez não façam ideia do quão difícil foram os tempos analógicos na fotografia. Desde os custos com filme, revelação até o mais comum deles que era o pouco aproveitamento das fotos. Quantas tremidas, de olhos fechados, vermelhos ou as que não alcançavam o momento exato.
A câmera digital trouxe facilidades, mas também nos levou a exageros, a um turbilhão de imagens.

Numa outra reflexão que não relacionada ao dada fotografia, o prof. Leandro Karnal diz o seguinte:

"Alfabetizamos para a leitura dos textos e raramente educamos para a leitura de imagens. Vivemos imersos num mundo visual e não nos adaptamos a isto.
O desafio do olhar é intenso e o jovem quase nunca tem habilidade e repertório para julgar esse mundo de fotos e desenhos que flui pela rede. Somos quase todos analfabetos visuais"

O prof. Karnal sugere maior ênfase para as artes plásticas e visitas a museus; tudo para educar o olhar.

Um outro fotógrafo sugeriu no dia da fotografia que as pessoas se reunissem para olhar álbuns de fotografia.

E você, o que acha da fotografia atual? Estamos fotografando demais? Qual o significado que você dá para suas fotos? Estamos gerando memórias ou algo vazio?
O que você sugere para "olharmos" melhor?

E se você ajeitar aí na sua agenda um tempo de 27 minutos, deixo a sugestão do excelente programa JC Debate sobre o assunto.

Sorria, diga xis, click, click!


domingo, 14 de agosto de 2016

Colher de pai

Abri a gaveta dos talheres e demorei uns instantes o olhar naquela colher que eu nunca tinha visto.
Como fora parar ali?
Lembrei de uma confusão festiva num Natal, onde no lavar de louças, as peças iam sendo separadas - esse daqui é da Corina; não tenho certeza, mas deve ser da Teresa.
E depois era um tal de telefonar a saber se uma tigela assim, com flores em amarelo tinha ido por engano, ou então era o conjunto de colheres para sobremesa, em casa de quem estaria?

Marido foi quem esclareceu, não com uma resposta afirmativa ou negativa.
Contou-me a seguinte história:
"Lá na roça tem-se o hábito de, antes de dormir, comer leite com farinha.
Meu pai me chamava para um canto da cozinha já silenciosa, pegava um caneco cheio de leite, acrescentava a farinha de milho e então se dava - metia a mão num esconderijo e de lá tirava a colher."
Dizia que aquela colher sim era boa para comer o tal leite enfarinhado. Era mais funda que as outras colheres que haviam na gaveta. Era rara. Habitava um esconderijo na cozinha. Agora habita nossa gaveta.

Aos pais, que contam, que deixam histórias.
Que em seus dias comuns, imprimem marcas que nos ficam.

sábado, 9 de julho de 2016

As coisas que deixamos

Mudei de casa várias vezes.
Antes de sair, muitas vezes com a mudança lá no caminhão, andava pelos cômodos vazios, agradecia por ali ter vivido dias bons e outros nem tanto e vasculhava também se não havíamos esquecido algo.
Nas várias casas, apartamentos, que chegamos, muitas vezes encontramos "coisas" ali deixadas. Coisas por vezes impossíveis de se levar. Adesivos grudados nos vidros das janelas. Figurinhas de álbuns coladas na parte interna da porta de guarda-roupas.
Na casa mais recente de nossas vidas, encontrei um regador.
E ele me fez uma alegria no peito de um dia de céu bem azul cheio de sol!


Eu nunca havia tido um regador. E não nego a minha ausência de intimidade com plantas e flores - talvez seja esse o motivo.
Se tive algum de levar à praia, não recordo.
Recordo de figurinhas e álbuns e papéis de carta com lindas meninas de cabelos longos, vestidos esvoaçantes segurando um regador.
Penso ser poético tal objeto.
Uma mangueira bem faz suas vezes, ou como via uma senhora íntima das flores, um balde e a própria mãos a fazer chover.

Assim como temos vontade, secreta, tímida, ou transparente, de carimbar, pular corda, comer algodão doce, acho que temos de regar!

Lá na Praça Belo Horizonte em Salvador ( não confunda a geografia, a coisa é mesmo na Bahia! ) há um projeto para incentivar o cuidado com mudas e árvores nativa da Mata Atlântica com o projeto "Vem me regar".
Desconfio que faz o maior sucesso. Mas sejamos sinceros, entes mesmo do cuidar está aquela vontade de usar regador!


Quem tem, quem usa, quem ficou com vontade?

Quando nos mudamos daquela casa, ficou lá regador. Seria inútil trazê-lo para um apartamento sem plantas.
Há algum tempo passamos de carro pela antiga casa. Parecia mágica! Vasos, flores plantadas, um árvore crescendo. Quero acreditar poeticamente que a nova moradora faz um bom uso daquele regador!