sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Um Anônimo


Quando se mora em grandes centros urbanos, acostuma-se com os ruídos. Uma questão de sobrevivência.
Tornam-se conhecidos. Mesmo dentro de um apartamento, no alto, aprendemos a decifrar ruídos. Horário de entrada de escola mais carros, chuva, muita buzina, provavelmente semáforos apagados... e assim, mesmo sem olhar pela janela, os acontecimentos se codificam nos ruídos.
Era perto da hora do almoço quando um ruído nos sinalizou algo fora dos padrões conhecidos. Um helicóptero bem próximo, num voo pausado.
Mesmo difícil de ouvir a nossa televisão, ligamos no noticiário local do meio-dia.
Na tela da tv a imagem gerada do helicóptero: uma obra, um prédio, um operário morto.
Seria mais um caso como quase todos dos noticiários: morte, morte, morte.

Reconheci de imediato a construção. Um edifício que abrigará um hospital.
Sim era mesmo a construção que acompanhamos desde o início. A chegada das máquinas, o prédio tomando forma e mais do que isso, os trabalhadores.
Feriados, noite adentro, lá estavam eles: incansáveis no cansaço disfarçado dos músculos e suor escorrendo.
Parados ali em frente à obra, aprendemos sobre cooperação, sobre dons.
O engenheiro com o projeto debaixo do braço necessitando do dom de braços fortes para tornar seu papel realidade. A cooperação de cada um desempenhando o seu papel.
Ali em frente àquela obra, que simplesmente estava no nosso caminho, parávamos para aprender sobre a vida.
Ali conversamos sobre igualdade: não há dom mais importante que outro, precisamos de todos. O operário sujo, queimado de sol, cheirando a suor não é menos que o engenheiro, não é menos que a faxineira que irá trabalhar naquele hospital. É tão igual ao médico, tão necessário. Infelizmente no nosso planeta as diferenças se fazem em tantos aspectos...
Esse operário que nós nunca vimos o rosto, ou talvez tenhamos visto num horário de almoço onde ele poderia estar sentado na beira da calçada, morreu.
Um anônimo que tanto nos ensinou.
Não sei o porquê, de quê ele morreu. Sei que ele não ganhará uma biografia com direito a pré-venda.
Sei que passamos novamente em frente à obra e ali apenas consta em grande placa o nome dos engenheiros responsáveis.
Não há flores ou desenhos pelo chão para homenageá-lo.
Lá dentro, vários trabalhadores anônimos. Disfarçando a tristeza em seus músculos fortes. Escorrendo suor no lugar das lágrimas.
Queria um dia passar por uma obra e ver, como num convite de formatura, o nome de todos que ali trabalham, em ordem alfabética.
O Anônimo também estaria lá.


14 comentários:

✿ chica disse...

è bem verdade...São tantos anônimos que passam pelas nossas vidas e no entanto tem tanta importância...

Pena que acabem assim e ganharão uma notícia em uma página do meio de um jornal qualquer apenas...Nada mais!!

Triste.. beijos,chica

Anônimo disse...

Ana,
Quanta sensibilidade, emocionante seu jeito de ver o ser humano, que bom se todos pensassem assim, com certeza a placa com os nomes de todos os trabalhadores envolvidos na obra estaria estaria na frente da construção, não somente dos engenheiros e arquitetos, etc.
Um final de semana maravilhoso pra você e as crianças, bjo
Ivana

Patricia disse...

Tem toda razão Ana, o trabalho dele é tão essencial como qualquer outro.

Uma pena vivermos numa sociedade tão preconceituosa, tenho muita fé que um dia isso vai mudar. : )

Lindas palavras.

bjs

Kimimo Art Book disse...

Muito verdadeiro seu texto Ana!
São tantos anônimos por aí que sem eles muitas outras coisas, pessoas e/ou profissões não existiriam, mas tão esquecidos e desmerecidos.
Valeu a lembrança e homenagem aqui, mesmo sendo anônimo...Aqui aconteceu a pouco tempo um caso parecido, o elevador que utilizavam na construção do prédio despencou com vários dentro e morreram...e como este daí, também foram só mais algumas vidas que se foram no anonimato!
Bjo grande!
Débora

Helena Chiarello disse...

Esse teu jeito de olhar a vida e as pessoas e escrever sobre elas de forma tão reflexiva, profunda e verdadeira sempre me comove!

Perfeito esse texto, em observação, análise e sensibilidade. O final tem a qualidade das palavras fortes que batem na emoção da gente e ficam fazendo eco.

Sempre um presente ler você!

Um beijo no coração, querida amiga!

Rachel Facó disse...

Oi Ana,

Você, com seu texto e sensibilidade, tirou este trabalhador do anonimato.

Por que não imprime esse texto e leva para os amigos dele de lida, da obra? Imaginei, nesse instante, a emoção deles, inclusive dos engenheiros e, quem sabe, da família ao ver que ele não passou "em branco", que, ao contrário, escreveu esse belo texto dentro de você!

A importância de alguém depende mesmo do olhar. Parabéns pelo seu!

Beijos,
Rachel Facó

Anne Lieri disse...

Ana,vc é fantástica!Um texto sensivel,real,muito lindo!Adorei cada linha e repasso!Bjs,

Blog do Óbvio - Manoel disse...

Ana Paula, você primeiro criou e descreveu o ambiente e em seguida contou a história. Ficou muito linda sua postagem e mexeu bastante com o coração da gente. Damos importância para as estátuas, placas de rua, prêmio Nobel e até os BBB, todavio os "anônimos" que permitem que tudo isso aconteça são até, de certa forma, explorados e desprezados. Como você bem o disse, com eles aprendemos o conceito de colaboração e unidade no trabalho, mas...
Ana, estava difícil definir você e a amiga Helena conseguiu com muita propriedade no seu comentário. Veja:
"Esse teu jeito de olhar a vida e as pessoas e escrever sobre elas de forma tão reflexiva, profunda e verdadeira sempre me comove!"
Essa é a melhor definição do lindo ser humano chamado Ana Paula.
Beijo.
Manoel.

Ricardo Miñana disse...

Entre los anónimos siempre hay gente muy importante,
si te gusta la poesía te invito a mi nuevo espacio,
que tengas un feliz fin de semana.
saludos.

Maggie May disse...

seria justo, afinal sem eles os projetos não sairiam das pranchetas ou das telas de computadores...

Ivani disse...

Oi Ana, que belo texto amiga!
voce está certa, faz parte do ser humano essa coisa de ignorar o que nao interessa no momento, o que nao trará acrescimo.
Modo de falar, é claro, pois uma conversa com pessoas simples sempre acrescenta algo em nossas vidas.
e as pessoas humildes sao sinceras e sábias em seu anonimato.
muitas e muitas pessoas nacem e morrem assim, Ana, sem sequer serem notadas.
Que dirá entao reconhecidas...
que pena, náo é mesmo?
Beijos querida, um lindo fim de semana para vocës.

@MAKEPOPULAR disse...

adorei seu blog
e ja estou seguindo pode conferir
me ajuda e me segue tb ?

www.makepopular.blogspot.com

LUCONI disse...

Bravos levanto para te aplaudir uma excelente crônica minha amiga, os anônimos são a grande maioria, são os que levam este país adiante, mas infelizmente são também os que menos direitos têm, os que mais preconceitos sofrem, realmente minha amiga é uma pena, todo ser humano deveria ser tratado com dignidade e respeito e receber honrarias sim mas não pelo trabalho que faz, mas pela sua dignidade, pela sua generosidade, pelo fato de ser gente e agir como tal, beijos Luconi

mfc disse...

... mas não terá direito a menção na placa que se descerrará no dia da inauguração com toda a solenidade, mas com o esquecimento das dores imensas com que o edifício foi construído.