sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

No meu dicionário


Qualidade da foto de uns setenta anos atrás. Relevem.
Eu mesma no retrato. Sorrindo para disfarçar o desconforto do peso da mala.
Sem rodinhas, sem alças. De mão mesmo.
Não acredita que estava pesada?
Pois bem, ali dentro eu carregava todas as palavras do mundo. Do meu mundo, do meu idioma. Todas devidamente registradas no pequeno, porém grosso dicionário escolar.
Durava por vários anos. Era bem cuidado: havia um canto especial para ele dentro da mala.
Acontecia de repentinamente uma professora solicitar um outro dicionário pois para ela, aquele já não era tão bom, havia um mais atualizado. Até podíamos utilizar o antigo, mas no geral ele era substituído.
Eu realmente acreditava que todas as palavras estavam ali. Tentei até imitar uma colega de sala muito inteligente que lia dicionário. Apenas tentei e não avancei nem até a metade do "a".
Em algum momento do primário alguém descobriu que havia lá um palavrão.
Claro que fui procurar. Em casa, escondida, cheia de culpa, achei o sinômino de duas letras para ânus. Foi um horror.
Outro horror foi logo no início do ginásio um professor severo nos revelar que a língua era viva e que dicionários nasciam de tempos em tempos. O que significava que uns outros tantos ficavam obsoletos.
Que decepção. Achava que fossem irretocáveis.
E fui ao longo dos anos me habituando com uma ou outra palavra que merecia entrar numa edição revisada.
Muitas me causavam estranheza, repúdio, mas segui carregando dicionários malas a dentro.
Agora, já me acostumei com a língua viva. No final do ano, por exemplo, sei que uma palavra será eleita para adentrar no conceituado dicionário Oxford.
"Selfie" já ganhou seu lugar.
Emoji foi a eleita do ano que passou. Aliás nem foi a palavra, mas sim aquela carinha de chorando de alegria.
E assim seguem nossos dicionários, ora reformas ortográficas, ora novas palavras.
Acabei de me lembrar que a tal busca pelo sinômino de ânus com duas letras caiu no ouvido de algum padre em absoluto segredo de confissão. Lembro-me de ele ter me dito para nunca mais ficar procurando essas palavras pecaminosas.
E realmente eu nem procuro mais.
Nem preciso mais procurar. Elas me chegam assim, do nada.
E nem me causam mais espanto, nem me levam mais para o confessionário.
Quer um exemplo?
Você é foda, hein?!
Sim, isso mesmo que você leu: você é foda.
Agora, se você está achando que eu te xinguei ou estou a usar um termo chulo, meu amigo me desculpe dizer, mas, você está mais ultrapassado que essa foto aí acima.

"Para essa geração, foda é adjetivo e não palavrão"
Pitty Leone

Sacou? Você é foda é o maior dos elogios que uma pessoa pode receber.
Dizer que você é o máximo é pouco perante a grandiosidade desse imenso, agora, adjetivo.



15 comentários:

✿ chica disse...

Leitura que nos encanta, diverte, faz pensar e tudo ao mesmo tempo!

Aqui ao meu lado tenho um adolescente e uma menininha de quase um ano. O vocabulário do menino, sei bem! O da menininha, qual será até lá?rs

E adorei ver o peso da tua pasta! Muito pesada mesmo pois as palavras são tantas!!! Linda foto, um amor!
Tive que rir lembrando as "artes" à procura de palavras feias dentro do dicionário. E quando as achávamos: Eram risadinhas pra cá e lá! Enfim,ADOREI te ler! Não vou repetir a palavra te elogiando mas tu és mesmo muito boa, pra lá de genial!! bjs, tudo de bom,chica

Tina Bau Couto disse...

Primeiro, a foto:
Aaaaaaamei
Muitos as para dizer que muito.

A lancheira tive uma igual;
Uma pasta também foi um dia minha mochila;
E uma amiga que lia, tipo lia corrido, o dicionário.
Eu sempre só consultei, para treinar ordem alfabética (lista telefônica também servis) e para saber o que era, classe gramatical, sinônimos e tal ou talz.

Aqui na Bahia: Ser Barril, era ser furada (coisa, situação, pessoa).
Hoje ser Barril, é ser legal.
É foda! A moda antiga, eu penso, para a comunicação entre gerações.

Enfim...
Desde que te vi na foto e li e comecei a comentar, meu pensar numa matéria que vi sobre as mochilas dos japoneses ou são chineses, nunca6 fui boa em geografia.

De engenharia, em homenagem a Luis Felipe vou fazer ponte de seu post e postar da tradição oriental escolar por lá.

CamomilaRosaeAlecrim disse...

Confesso que sou meio antiquada quanto as palavras modernas de diálogo...peço a benção a pai e mãe e falo Sr e Sra para os que percebo mais velhos que eu e ainda estou me acostumando com os palavreados que vão mudando de sentido. Seu texto é perfeito, tb reconheço estas mudanças em meu dia a dia!
Sua foto é muito fofa e tenho uma parecida, hehehehe!
Beijos!!!
CamomilaRosa

Majoli disse...

Que leitura mais deliciosa, ou melhor fodastica...rsrs...e olha que tentei fodastica assim, e fodástica assim...ambas não aceitas, será que não tem no dicionário?
E eu saquei bem tudinho, tudinho...rsrs
Ler as palavras primário, dicionário...ai que saudades!
A foto tá linda e foi bom por demais passar por aqui.
Beijos Ana Paula.

Estela Vidal Ribeiro disse...

Foto linda! E quanto às palavras... Realmente elas saem da minha boca com mais frequência que eu gostaria. Palavrinhas, palavrões... Sim, sou tagarela. E quanto ao bom e velho dicionário, tive e ainda tenho por aqui, mas confesso que quando o aperto de não saber um significado vem, recorro ao digital (com L mesmo!). Ai, ai... Será que estou ( estamos?) emburrencendo ou seguindo o fluxo? Sei não, melhor não pensar... Hahaha!
Beijo

Poesia do Bem disse...

A foto um sonho, resgata as doces lembranças, eu tinha uma assim que abotoava de dois lados e colocava nas costas lembras? vermelha, e também usei muito o dicionário, minha mãe tinha muitos pois era professora , e lembro nas reuniões sempre diziam, quando não souber escrever uma palavra estude busque no dicionário. hehe
A Alice vez ou outra pega na minha mãe que ainda tem nos baús de livros e diz: vou ler para aprender muitas palavras. Quantas nascem todos os dias não é?
No blog trago uma dica literária para deixar o coação falar e morrer de emoção. muita saudade lágrima e sensibilidade, vc vai amar

Graziela disse...

Ana que foto linda, amei.
Suas palavras sempre encantadoras e apesar de não gostar de falar palavrão vou dizer: você é foda.

Acho que essas lembranças nos ajuda a resgatar quem somos. Um dia li ou ouvi alguém dizendo que era bom termos fotos nossa de criança pela casa para lembrarmos dessa época em que vivemos tantas alegrias. Quem tem filhos acaba priorizando as fotos dos filhos e sem querer acabamos nos esquecendo.
Vi sua foto e já imaginei ela em um canto alegrando ainda mais seu dia.
Abraços
com carinho
Grá

Roselia Bezerra disse...

Bom dia, querida Ana Paula!
tanta coisa mudou e a gente muda com o tempo também pois, caso contrário, estarrecemos...
Bjm muito fraterno

Cristiane Marino - Mulheres em Círculo disse...

Oi Ana Paula, que lindinha na foto!
É... como as palavras mudam...
Adorei o post.
Bjs

lis disse...

Como sempre ,um prazer ler seus escritos Ana Paula
Como menina a foto já diz tudo _ esforçada levava a pasta recheada de 'merenda' naturalmente... rs ou seja além das palavras que hoje tão bem te inspiram!
Falaste bem _as palavras tem sentidos e sentidos_ e'foda' que antes eu abominava hoje quando quero me aliviar de uma raiva qualquer é o 'que se foda' que sai na maior cara de pau. E qtas vezes já proferi _ fulano é foda! ou seja como dizes um elogio e tanto.
Vai entender!! novos tempos Ana, novos tempos!
grande abraço _de volta aos amigos.
boa semana

Bia Hain disse...

Ana, adorei seu texto!!!Tão criativo e atual quanto a mobilidade da língua portuguesa brasileira. Tenho uma foto muito parecida com a sua, rsrsrsr!
Aprendi o valor do dicionário um pouco mais tarde, na adolescência, quando finalmente comecei a ler para valer e queria entender o significado das palavras do texto.
Incentivo muito meus alunos a usá-lo.... o "você é foda", aliás, tem dois significados, o de que a pessoa é "top" (olha aí outra palavra nova) ou furão, egoísta, difícil de aturar... que bom que escolheu o melhor significado para compartilhar, kkkk!
Abraços!

Graça Pires disse...

Língua viva, mesmo. Gostei muito do texto e adorei a fotografia.
Um beijo.

Clara Lucia disse...

Eu tinha uma mala dessa e andava até torta de tão pesada que era. Não tinha dicionário, usávamos o da escola mesmo. Mas me lembro dos cadernos encapados com papel pardo e plástico transparente por cima, e, claro, da cartilha Caminho Suave. E na lancheira que compunha o style continha suco Kisuco vermelho e pão com ovo frito. Que saudades!
Beijos

Calu B. disse...

Amei a foto.Tive pasta e lancheira iguaizinhas.

Tempos saudosos, nesse e nos demais significados,dos corretos aos "proibidos."
Tudo aqui escrito nos envolve em sorrisos antigos e atuais, Ana Paula.
Ainda que tome eu conhecimento desses novos verbetes, os mais bizarros, me surpreendem.

Bjos,
Calu

Nathalia Passarinho disse...

Que Delicia.

Realmente com o passar dos tempos o nosso dicionario vai mudando, as vezes usamos mais palavras do que outras.

Hoje me encontro na letra D decepcionada, mas sei q amanha irei avançar folhas e chegarei na letra F felicidade.