terça-feira, 15 de março de 2016

Não ajudei a velhinha

O dia estava pesado.
Amanhecera pesado, estava pesado e possivelmente assim continuaria...
Pesado o ar; céu carregado, nuvens densas, escuras; um calor sufocante mesmo sem o sol e o peso de ter que enfrentar resoluções burocráticas.
Acessei, mesmo que não precisasse, bastava olhar pro céu, a previsão do tempo no celular. O desenho da nuvem com o raio a lhe escorrer do meio confirmava que o mal tempo chegaria.
Coloquei o guarda-chuva na bolsa e saí.
Sair antes que a chuva começasse a cair dava-me um pouco de ânimo.
Cheguei ao destino, não consegui resolver o que precisava e apertei o passo para voltar antes que o céu desabasse.
E foi na minha pressa que uma velhinha me parou:
 - Você sabe onde tem uma sorveteria? Será que lá na avenida tem?
Faltava uns poucos minutos para as dez horas da manhã. O céu sobre nossas cabeças era tão assustador que a última coisa que eu pensaria era em sorvete.
Mas a velhinha estava ali na minha frente, sem afogamento algum. Trajava um vestido simples e confortável de uma estampa suave azul-claro.
Disse-me que acordou com vontade de tomar sorvete hoje. E não servia nem de mercado, nem de padaria. Ela queria mesmo uma sorveteria. " O dia está abafado, muito bom para um sorvete, não acha?"
Desculpei-me por não poder ajudar. Eu não conhecia aquele bairro, seus arredores. 
Ela me olhou firme e disse quase ter certeza de haver uma sorveteria na avenida.
"Mas não está longe a avenida?" - eu indaguei.
Talvez eu tenha julgado a distância com a idade, mas ela pareceu nem se importar com isso. 
Respondeu-me que iria devagar, fazia bem caminhar.
Desejei-lhe um "bom sorvete" e segui.
Entrei no ônibus e um pouco depois, pela janela, vi uma sorveteria.
Deveriam ter acabado de abrir. Uma funcionária passava pano no chão.
Dali a um pouco, a velhinha estaria ali certamente escolhendo seu sabor predileto.

Já em casa, sem ter feito uso do guarda-chuva me peguei pensando que quando li o livro Comer, rezar, amar e depois assisti ao filme, desejei tomar um sorvete às nove da manhã, na Itália. Ainda não pude, talvez não irei, continuo a desejar...
Mas aquela velhinha também não estava indo para a Itália. Por enquanto ela tinha uma sorveteria um tanto longe para seus passos, mas tão próxima de lhe proporcionar uma alegria.
Eu não pude ajudar a senhora.
Foi ela que me ajudou, mesmo sem saber.

A previsão do tempo no celular se equivocou.
Não choveu no horário determinado. A chuva só veio cair no começo da noite.
O dia, afinal, estava mesmo perfeito para um sorvete.
E agora que sei o endereço da sorveteria, vou aparecer por lá, assim numa manhã qualquer!

15 comentários:

✿ chica disse...

Que ternura sempre aqui,Ana! E, tenho certeza, essa velhinha, mesmo sem a teres ajudado, deve ter encontrado a sorveteria.pelo jeito, é decidida e caminhante como se mostrou, a encontrou. Por falar na tua vontade de tomar um sorvete na Itália, te digo que lá osa sorvetes são MA0RA-VI-LHO-SOS em qualquer barraquinha. Mas como vamos marcar um encontro pra um papo bem legal e enorme por lá, te mando um site. Essa é a mais famosa de Roma e para o tamanho do nosso papo, que tal a COPPA OLIMPICA. Dá uma olhada,rs...

E, claro, vamos chamar umas amigas pra fazer um encontrinho chique por lá.né?rs O que achas?


AQUI:http://www.giolitti.it/


Que tal? Procura essa que citei...Kiko quando ia lá .,claro, escolhia essa e tomei um susto quando vi o tamanho dela! Mas ele conseguia acabar!!! E fico feliz por isso, pois cheguei a conclusão que nunca devemos ficar com vontades e não comer isso, aquilo ou aquele outro por engordar ou fazer mal. De repente, a vida te tira até esse sabor...Então, aproveitemos!!!

bjs, desculpa o jornal!

Ana Paula disse...

Chica, o que você fez comigo???
Agora estou na dúvida entre um Coppa Olimpica ou Copa Primavera.
Que lugar espetacular que eu nem em sonhos imaginava.
Vamos sim marcar um "rolezinho" com as amigas blogueiras e também leva o Kiko porque eu tô achando que vou comer é logo dois de uma só vez!

Felisberto N. Junior disse...

Olá, Ana Paula...
eu aprendi que nem tudo o que pensamos torna se realidade, porque a mente sozinha não consegue realizar nada, ela precisa da energia do desejo, que é a emoção, acrescida da vontade e "bota" vontade da senhorinha para tomar o seu sorvete, tanto que ela pensou, "correu atrás" e conseguiu realizar seu desejo...adoro sorvete de flocos, "tomarei" mais tarde, até porque a previsão está indicando que NÃO vai chover e eu adoro tomar sorvete, quando chove...adorei a sua crônica...
simm, a próxima Special Guest é tu, okei? Obrigado pelo carinho,belos dias, beijos!

Bell disse...

Eu achei você tão gentil, as vezes o certo é dar aquela atenção pq na maioria das vezes o que as pessoas querem mesmo é conversarem.

bjokas =)

Tina Bau Couto disse...

De azul
Querendo sorvete em tempo de chuva
Muito eu

Fez parte de minha lista de desejos, realizado numa das idas a Sampa, ir na Baccio de Latte, me perdoe Seu Kiko e os italianos se escrevi errado e se não é uma das melhores
Eu amei

Ir a Itália está nos meus sonhos também
Para comer, rezar, tirar fotos, ir a pontos turísticos, amar

Falando em amar
Amei te ler

E que tal ir para lista de nós de novo em Sampa essa sorveteria para uma parte 2 dessa crônica?

Tina Bau Couto disse...

To nessa meninas
Com duas fomes como diz Zaion quando quer a comida alheia

Tina Bau Couto disse...

Eu já esperando pra ler:)

Suzy Rhoden disse...

Oi Ana!
Muito legal esta crônica! Fiquei imaginando a velhinha, sem pressa alguma, bem debaixo de um temporal iminente... que não veio!!! E não é assim na vida? Não deixamos de fazer coisas prevendo tempestades? Muitas vezes, não vem tormenta alguma e por medos e anseios a gente perde lindas oportunidades de ser feliz.
Como a velhinha,tenho aprendido a não ter pressa...simplesmente fazer o que sinto vontade. E não é que parece que só agora a vida ganhou sabor? Antes eu vivia lindos momentos, mas não os saboreava...
Ah, e sobre sorvetes, sabes que aqui no sul faz um frio danado no inverno. Pois eu sou a louca que sai atrás de uma sorveteria em pleno inverno! hahaha Adoooro tomar sorvetinho no frio... coisa de gente fora da casa, sabe... rsrs

Beijo grande e muito sorvete pra você e pra vovó!

✿ chica disse...

Seria mesmo muito bom e essa passeadinha na Itália! Roma conheço cada pedrinha de tanto que passeei enquanto lá morei! bjs, chica

Carmem Grinheiro disse...

Olá, Ana.
Crónica de dar gosto, tanto quanto um bom sorvete, desses de taça.
Achei curioso a Chica falando dos sorvetes de Itália ( aqui, em Portugal temos várias gelatarias - cá é mais conhecido como gelado, embora os especialistas façam uma pequenina diferenciação entre "sorvete" e "gelado" - que se dizem seguidoras das "tradicionais receitas italianas" - umas serão, outras, nem por isso), mas a mim, o que me dá verdadeira gana, de vez em quando, é de comer um dos sorvetes que eu comia aí, cobertos com "marshmallow" e castanha do cajú - aqui, pelo menos no Norte, que é a experiência que tenho, quando pergunto, ninguém conhece "marshmallow" como cobertura de sorvete, apenas as formas em "gomas", muito consumidas. E castanha do cajú, quando há, é picadinha e só uma pequeníssima amostra, pois é artigo importado, caríssimo.
Quanto ao seu sentimento em relação à senhora, como você acabou por concluir, ela certamente, sendo mulher de persistência encontrou a sorveteria e usufruiu do que lhe fazia bem, naquela manhã. Aprendeu você, e aprendi eu: esquecer o "medo da chuva" e seguir em frente ;)

bjn amg

Juliara Rodrigues disse...

Me senti dentro desta crônica.

lis disse...

Humm um texto geladinho com sabor'sorvete' rs e ainda um convite super maravilhoso os sorvetes da Itália.
Também quero, geeente !
E a velhinha não se faz de rogada e atropela os passantes porque o importante é achar a sorveteria;
Muito bom Ana
Não esqueça de mim, quando for comprar as passagens ok? rs
abraços

Graziela disse...

Ana por que perdemos oportunidades únicas de termos momentos felizes por medo?
Por que nos apegamos tanto ao previsível e não aproveitamos o imprevisto?
Por que queremos a lógica e não a emoção?
Faço essas perguntas especialmente para mim porque sou assim... sorvete pela manhã que loucura, corre que vem chuva e a danada não vem.
Adorei seu texto e quero aprender com a senhora a ser mais insistente naquilo que eu quero, preciso disso.
Abraços.
Grá
* bem que podíamos marcar um encontro para tomarmos sorvete, o que acha? Na Itália ainda não posso mas por São Paulo posso me organizar, pense com carinho :)

Portugalredecouvertes disse...

Gostei muito do teu texto Ana Paula:)
como essa velhinha me pereceu viva com o seu desejo de sorvete! como se essa alegria que lhe parecia necessária logo de manhã tivesse alguma coisa de sobrenatural debaixo da ameaça da tempestade:)
mas afinal ainda não temos certezas mesmo certinhas em relação ao tempo que continua nas mãos de um criador

faz-me lembrar a canção, vê se gostas Ana Paula: perguntei a uma velhinha se já tinha amado alguém ....



https://www.youtube.com/watch?v=qO0AcQpjjYI

https://www.youtube.com/watch?v=qO0AcQpjjYI

Graça Pires disse...

Um texto muito belo e cheio de delicadeza. Às vezes a pressa das nossas vidas faz-nos descuidar a atenção pelos outros. Todos sabemos como é. E este teu texto faz-nos pensar. E eu gostei tanto de te ler...
Beijos.