quarta-feira, 26 de abril de 2017

A carta maldita

Eu era uma criança. Oito pra nove anos quando peguei e li aquela carta.
Não tínhamos caixinha de correspondências; eram deixadas no portão.
Estranhei aquela carta, eu era familiarizada com cartas, e aquela não continha selo, nem o carimbo dos correios, não havia remetente e no destinatário estava escrito: PARA VOCÊ.
Sim, era para mim.
Abri-a ali mesmo sentada nos degraus próximo ao portão.
Fiquei paralisada e os sentimentos que se sucederam, hoje já não sei descrever.
Por vários dias, convivi com aquela sensação horrorosa.
A carta era descrita como uma corrente e quem a quebrasse, ah... quem a quebrasse...
Houve sim pessoas que romperam a corrente e ali na carta estava descrito tudo o que de ruim lhes aconteceram.
Acidentes automobilísticos, casas incendiadas, perda de emprego e empobrecimento estarrecedor e o pior de todos na minha opinião de oito pra nove anos - a mãe daquele que quebrou a corrente, em menos de três meses, morreu.
Não quebrar a corrente significava escrever, ou melhor, copiar dez cartas iguais àquela e enviar para dez pessoas diferentes.

Comecei desesperadamente a fazer as cópias, angustiada com as desgraças ali descritas, angustiada com e como eu iria distribuir aqueles envelopes anônimos. E fui salva pelo flagrante de minha mãe.
Caí no choro com medo de que ela morresse em menos de três meses.
Ela entendeu o tamanho do sofrimento para tão poucos anos de vida e disse-me que aquilo era coisa de gente que não tinha o que fazer e que não deveria acreditar naquelas coisas. Ao invés de escrever cartas daquele tipo, apenas reze e tudo ficará bem, ela me disse.
Eu me acalmei, rasguei tudo e ela não morreu em três meses, nem houve incêndio, ou qualquer outra tragédia.
Encontrei outras cartas daquele mesmo tipo, apenas com desgraças diferentes descritas, na minha infância e depois nunca mais.
Achei, depois de adulta, que tínhamos evoluído o pensamento e por isso aquelas correntes desapareceram.
Que engano!
Ganharam apenas novas roupas.

Estão nas redes sociais, exigindo que você diga amém, que você compartilhe em vinte e quatro horas, que você repasse a dez amigos. Continuamos a querer obrigar o outro. Continuamos a ter medo e por isso repassamos, abaixamos a cabeça mesmo sem querer, sem acreditar que aquilo sirva para algo.

Agora, em tempos políticos somos desafiados, ameaçados - "agora é pra valer Quem não responder com um fora temer... Estará fora do meu twitter, do meu face, do meu snap, do meu instagram... prazo Até sexta feira 28/04."

Sério, acho incoerente esses tempos. Lutamos por igualdade, lutamos para acabar com o racismo, com a xenofobia, lutamos por inclusão, mas somos incapazes de aceitar quem pensa diferente da nossa ideologia? Boas amizades são desfeitas porque não se coloca um fora temer, fora dilma, fora sei lá quem?
Vamos construindo relações agradáveis pelas redes sociais e de repente, fulano já não serve porque é isso ou aquilo?

As cartas malditas estão por todos os lados... fazendo ainda enormes estragos.

11 comentários:

✿ chica disse...

Ana Paula, quem não lembra dessas cartas? Que coisa mais sem propósito isso, não? E as ameaças eram terríveis.Amedr0ontavam mesmo! Cumprir a tarefa de escrever aquelas cartas ,só não era pior do que fazer 15 cópias de toda lição de aula que não havia sido feira em tempo, no dia certo e entrega-las com letra bonita e caprichada no dia seguinte.E pior: assinado pelos pais... Aff!rs...

O tempo passou, nem as cópias ,nem as cartas malditas. Mas realmente tenho visto na internet coisas parecidas. Ainda bem não recebi! Mas se receber, ninguém vai me mandar colocar FORA esse ou AQUELE. Tenho o meu candidato e não abro mão de vê-lo bem loooooooooooonge ,onde deveria estar!!! Enquanto isso, vamos tendo e mantendo nossas ideias, ideais e não nos deixando ameaçar por A ou B... Basta isso! E saber que cada um deve respeitar o outro! SÓ!!! bjs, tuuuuudo de bom, como sempre me estendi aqui... chica

* Li teu comentário lá e fico feliz que o blog dos céus esteja dando alegrias pra outros...Eu adoro a qq hora do dia vê-los! bjs, chica

Cristiane Marino - Mulheres em Círculo® disse...

Ana Paula, também recebi essas cartas!
E hoje nas redes sociais acontece o mesmo, são correntes e novenas que não podem ser quebradas, passe para 10 amigos incluindo a mim e veja o que acontece....nossa! Não acaba nunca!
Eu fico totalmente fora desse tipo de coerção. Se uma amizade depende desse tipo de atitude, pode ser qualquer coisa, menos amizade.
Bjs

Poesia do Bem disse...

É tanta corrente de mal se passando por bem, tanta gente se iludindo a toa . Um mal que nos assola , antes e sempre retrógrados os homens.

Ana Bailune disse...

Ah, eu detesto essas correntes! Já deixaram nos comentários dos meus blogs, me desejando doença e morte se eu não repassasse. Elas chegam por e-mails também, e in-box pelo face.

Mas cavalo gordo não tem medo de urubu.

Pitadasdilu disse...

Oi Ana Paula! E não é que continuam mesmo, agora até no whatsap. Graças à Deus que faz tempo que também sei que é tudo balela.
Com essa história de política já vi muita amizade desfeita, por isso concordo com aquela máxima de que religião, política e futebol não se discute.
Bjos, Lú.

As Mulheres 4estacoes disse...

Ao te ler, recordei cartas assim que também recebi na infância e a sensação de medo de algo ruim pudesse me acontecer. Hoje, infelizmente, ainda há quem faça e pior, compartilham tais correntes.
Um abraço,
Sônia

A Menina das Ideias disse...

Ah outro dia eu descobri essa origem das correntes. Fiquei surpresa que as pessoas gastassem dinheiro para repassar cartas assim quando nem de graça eu repasso esses e-mails kk. Quanto à parte política, bem eu te entendo. Eu tenho amigas que são contra o PT e outras que são a favor de diminuir a maioridade penal e a gente continua se falando, mas também já deletei um povinho por falar demais. Quer dizer, se são "bolsominions" não tem nem como conversar com a pessoa porque ela é a favor da discriminação de mulheres, gays e negros. Levantam mesmo a bandeira da intolerância.

Graça Pires disse...

Não mudamos nada de uns anos para os outros, minha Amiga. Tudo continua na mesma quando se trata de inquietar os outros...
Uma boa semana.
Um beijo.

Bia Hain disse...

Oi, Ana, nossa, eu lembro dessas correntes opressoras e ameaçadoras! Que absurdo! E o pior é que entravam/entram na nossa vida sem que nós procuremos por elas, quero dizer, leu inocentemente pronto, já está "dentro", rsrsrs!
Está aí mais um motivo para eu ser pouco frequente no face e evitar participar de grupos no whats, rsrsrs!
Sabe, uma vez escrevi um post, "Educação desorganizado e greves: colapso" que falava justamente dessa situação, o povo clama por democracia mas não sabe aceitar e respeitar a opinião do outro - não é uma ditadura? Na verdade vemos o reflexo dessa postura em nosso dia a dia, com atitudes impostas goela abaixo por todos os lados, onde a individualidade é suprimida e com isso, o amor próprio, a motivação e a estima.
O mais interessante é que na época o post teve pouca adesão, naturalmente porque muitos devem ter discordado de mim, que não quis participar de uma greve e fui hostilizada, rsrsrs. Ou seja, a maioria das pessoas é democrática? rsrsrs
Das correntes há tempos perdi o medo, pois acredito que a força do bem sempre é maior que a ausência dele, e nem sempre se tem por perto uma mãe atenciosa para explicar que as coisas não são bem assim, rsrsrs!
Abraços!

vitalina de assis disse...

Olá amiga.

Acho que todo o malefício que tais correntes possam lançar por aí, só serão efetivas em mente que as abrigue e as tema. Nunca as passei adiante e hoje menos ainda, existe sempre a possibilidade de um vírus bem escondidinho, entre tais maldições.

Uma boa semana cheia de boas e abençoadoras palavras.

Felicidades mil, sorria sempre.

Juliana Lira disse...

Anna

Bom ler teu texto, bom saber que outra pessoa percebeu isso além de mim, infelizmente esse tipo de "carta" ainda existe em correntes de internet e mais infelizmente ainda, as pessoas estão cada vez mais intolerantes com o mundo do outro, sim porque temos dentro de nós um universo inteiro, crenças, opiniões e eu acho o proselitismo a forma mais banal de se agredir alguém.
Seria tão bonito se amassemos apesar da ideologia, da fé, apesar das escolhas, se como o poeta disse "eu te amo porque te amo", amassemos só por amar, respeitando a pessoa...
Infelizmente não é assim, mas ainda podemos rasgar essas "cartas" e fazer nossas preces, tudo ficará bem.

Milhões de beijos
www.reticenciando.com