domingo, 14 de agosto de 2016

Colher de pai

Abri a gaveta dos talheres e demorei uns instantes o olhar naquela colher que eu nunca tinha visto.
Como fora parar ali?
Lembrei de uma confusão festiva num Natal, onde no lavar de louças, as peças iam sendo separadas - esse daqui é da Corina; não tenho certeza, mas deve ser da Teresa.
E depois era um tal de telefonar a saber se uma tigela assim, com flores em amarelo tinha ido por engano, ou então era o conjunto de colheres para sobremesa, em casa de quem estaria?

Marido foi quem esclareceu, não com uma resposta afirmativa ou negativa.
Contou-me a seguinte história:
"Lá na roça tem-se o hábito de, antes de dormir, comer leite com farinha.
Meu pai me chamava para um canto da cozinha já silenciosa, pegava um caneco cheio de leite, acrescentava a farinha de milho e então se dava - metia a mão num esconderijo e de lá tirava a colher."
Dizia que aquela colher sim era boa para comer o tal leite enfarinhado. Era mais funda que as outras colheres que haviam na gaveta. Era rara. Habitava um esconderijo na cozinha. Agora habita nossa gaveta.

Aos pais, que contam, que deixam histórias.
Que em seus dias comuns, imprimem marcas que nos ficam.

11 comentários:

✿ chica disse...

São tantas as histórias que contam ou que nos contam e ficam em nós.. Que bom que tens essa colher na gaveta real e cada vez que a vês, vais à outra gaveta, aquela das lembranças...LIndo! bjs, chica

Érika Oliveira disse...

Muito lindo! Boa semana!

Cristiane Marino - Mulheres em Círculo disse...

Ana Paula, que bla história!
A lembrança de momentos especiais tornou um objeto comum do cotidiano imantado de amor...
Ao olhar para a colher, ao tocá-la, tudo o que foi vivido retorna à memória e se torna vivo novamente.
Uma linda semana!
Bjs

Graça Pires disse...

Muito bela a história! Palavras e momentos que ficam para sempre...
Beijos.

Poesia do Bem disse...

Ah! os pais que deixam histórias gravadas em nossa vida, os cheiros, as manias, as histórias. Lá no blog deixei uma marca tbm sobre meu pai avô. Tanta saudade

Ana Bailune disse...

Que lindo texto!
Com certeza, esta colher foi deixada por uma fada.

Roselia Bezerra disse...

Boa Tarde, querida Ana Paula!
Tenho tantas histórias lindas de meu pai... muito bom lembrar!
Bjm muito fraterno

Bia Hain disse...

Ana, gosto tanto das histórias que conta! na casa da minha mãe tem a colher de uma prima minha de pequena, com uma carinha de menina em relevo na concha da colher. Eu sempre usava para comer sobremesa pois achava bonita, rsrsrs! E concordo que há talheres melhores para comer... há uns garfos que parecem que vão espetar o céu da boca, kkk!
Gosto de objetos que despertam lembranças tenras.
Abraços!

As Mulheres 4estacoes disse...

Olá Ana Paula!
Quantas lembranças nossa memória e coração guardam. Do meu pai foi o que restou, lembranças muito queridas.
Da mãe, além das lembranças, guardei uma tigela de louça, que procuro usar em momentos especiais de confraternização familiar.
Um abraço,
Sônia

Filha de José disse...

História gostosa.
Louvo por esses pais que deixam essas marcas singelas.
E também pelos filhos que as têm em suas lembranças e recontam elas.

Abraço Ana Paula.

Felisberto N. Junior disse...

Olá,Ana Paula, boa tarde!
...uma frase, não sei de quem:"Os bons pais dão informações, os pais brilhantes contam histórias. " E dessas simples histórias contadas podemos extrair belíssimas lições de vida, marcas que nos ficam...pela imagem, com certeza, uma colher excepcional para comer o "tal leite enfarinhado"... neste tipo de festa hi-fi,aliás,acho que o nome é festa americana, onde cada convidado leva "comes e bebes", é muito comum esse embaraço na hora de verificar o que pertence à quem e muitas vezes,chegamos com algo que não é nosso,principalmente as taças de cristal e talheres de prata , #brincs...
Obrigado pelo carinho, feliz semana, belos dias,beijos!