segunda-feira, 17 de abril de 2017

Mistérios

Cecília, a responsável pela faxina no prédio onde moramos, dirigiu-se a mim na entrada do elevador:
"Você se incomoda se eu subir com você?"
"Larga de frescura Cecília"
Subimos sorrindo.
Enquanto deslizava o pano na parede de aço inoxidável, relatou:
"Ana Paula, você se lembra daquele cheiro horrível que estava aqui no elevador? Eu limpava, limpava, morador reclamando e o cheiro não passava? Então, tiveram que chamar os técnicos e eles descobriram que o cheiro vinha do fosso do elevador. Fizeram uma limpeza e tanto lá. E você nem vai acreditar o que eles encontraram por lá..."

Comecei a passar mal. Visivelmente.
Cecília, percebeu.
"Nossa, você está pálida, suando. Será que é o cheiro do produto? Calor?"

Cecília tem aquela prosa agradável; um bom dia que faz melhor mesmo o nosso dia.
Mas naquele momento, tudo o que eu queria era ser rapidamente içada para o meu andar o mais rápido possível. Ainda bem que não houve tempo para ela concluir o relato do que foi encontrado lá no fosso do elevador que exalava horrendo aroma.

Já em casa, tomei um gole de água e joguei-me no sofá para me recuperar.

Não tive coragem de falar para Cecília.
Farei a confissão aqui no blog:

Eu perdi meu espremedor de alho no dia internacional da mulher.

Porque só agora estou escrevendo?
Bem, minha filha alertou que não seria nada bom falar de espremedor de alhos no dia da mulher.
Eu, apesar de discordar, afinal, feminismo a parte, mas comida bem temperada todo o mundo gosta, acabei acatando a recomendação da menina.

Ia escrever na Páscoa, mas fui novamente alertada por ela, que chocolate não cai bem com alho. Insisti no bacalhau, mas acabei cedendo e me calando.

Se eu demorar mais, será dia das mães e aí não pega bem, mesmo que as mães utilizem alho o ano inteiro. Dia dos namorados então... falar em alho deve dar separação.

Então agora é a hora. Repito, perdi meu espremedor de alho.
Vou descrever o modelo: ele é do tipo andarilho. Após exercer sua função, é devidamente higienizado, precisando algumas vezes ser utilizado um palito de dentes Gina e após isso ele vai para o sol antes de repousar na gaveta dos talheres e utensílios grandes ( a segunda gaveta ).

Não, não adianta que já tentei usar aqueles potes com uma massa de alho mas eu não gostei nem do gosto nem do cheiro que ficou na geladeira, no armário, enfim, gosto mesmo é da cabeça do alho, de descascar, e amassar no sumido espremedor. Acho que esse gosto herdei de papai, que era obrigado a andar com um colarzinho com alho no pescoço por causa do saci-pererê. E eu não estou brincando.

Mas, voltemos ao sumiço.
Desapareceu mesmo e isso me desesperou. Já imaginou se ele foi parar lá no fosso do elevador?
Porque já revirei gavetas, armários, debaixos, cantos e nada.

Até hoje não consegui comprar outro. Sei lá, talvez seja a esperança dele aparecer repentinamente, um certo apego talvez.

Um pouquinho mais da descrição dele: era daqueles completos, que só depois da internet eu aprendi que ele tinha muitas utilidades como por exemplo, tirar caroço de azeitona. Quando descobri isso, corri comprar um vidro, só para testar a novidade recém descorberta. Depois de umas dez azeitonas, aquela "perninha" quebrou, mas tudo bem, ele continuava a exercer a função de espremer perfeitamente.

Durante todo esse tempo, tenho feito o trabalho de picar o alho manualmente. Descasco, corto ao meio, depois em tiras no sentido do cumprimento bem finas. Venho então com a faca no outro sentido cortando cubinhos ínfimos e depois faço uma espécie de passeio com faca em todas as direções para torná-lo ainda menor. Declaro que esse é o motivo de eu estar tão ausente dos blogs...
É bastante demorado esse processo.

O dedo indicador e o polegar, depois de uns dois minutos nesse procedimento começam a arder e latejar. Mas, até a próxima refeição, passa.

Ah! Você quer saber se minhas mãos ficam cheirando a alho?
Claro que não.
Eu assisti ao episódio que a Rita Lobo ensinou um truque: nada de leite ou limão. Basta esfregar as mãos na pia de inox que o cheiro sai feito mágica.

Sigo assim meus dias. Evitando falar com a Cecília sobre o que foi que encontraram nas profundezas do elevador, esfregando as mãos na pia e lembrando de papai sendo salvo daquele encontro com o saci por causa do colarzinho de alho.

Inté.

5 comentários:

✿ chica disse...

Ana Paula, tu nos leva contigo na leitura, me deixaste curiosa...O que está no fosso? Onde foi parar teu ralador de alho? Adorei te ler ,com os pormenores, detalhes que fazem da leitura aqui um momento sempre agradável e ficamos com pena quando chega ao fim.

Por falar nisso, quando um novo livro chega?

beijos, lindo dia e continua a ser assim! Gostamos muito! bjs, chica

Poesia do Bem disse...

Menina eu me vi em vc com as mãos cheias de tiras, depois quadrinhos e pequenos grãos de alho, tbm não amasso, e o meu sumiu tbm estou cortando hehe

Nossa o que será tinha no fosso?
Morro de medo de elevadores!

Vem se encantar com um post lindo e releitura da obra, bjs

Lúcia Soares disse...

Agora "preciso" saber o que tinha no fosso!Tem que ouvir a Cecília e contar!
Sobre o espremedor, tenho uma teoria: deve ter ido para o lixo. Comigo aconteceu com um descascador de legumes: havia muita casca na bacia, deixei-o em cima delas, na hora de limpar a pia joguei mais alguns restos, sem perceber o cortador, que acabou ficando por baixo. Depois coloquei tudo num saco de joguei na lixeira. (Não sei se foi isso, mas é a única explicação que encontro). rs
Beijo, Ana Paula.

Ana Bailune disse...

rsrsrs... excelente!
Me ensinaram a não esfregar as mãos quando for lavá-las, deixando que a água escorra durante alguns minutos. Experimentei, e é verdade: não fico cheirando a alho.
Ganhei um espremedor muito interessante: são dois discos de plástico que têm, cada um, uma fileira de dentes; coloco o alho ali dentro e depois junto as duas metades dos discos, que são pequenos, menores que a palma da minha mão, e depois eu os faço girar em sentidos contrários. Em segundos, o alho está todo amassadinho. Acho que os discos devem ter custado muito pouco, parecem ser de camelô.
E se ficarem perdidos no poço do elevador, com certeza não vão cheirar tão mal.

Cristiane Marino - Mulheres em Círculo® disse...

Ah Ana Paula, você sabe fazer um suspense, hein...
Estou doida pra saber onde está o espremedor de alho, mas quanto ao fosso do elevador, não sei se quero saber não...
Bjs