quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

As surpresas da vida


Escrevi a uma amiga, uma breve carta por esses dias onde eu desnudava a minha incapacidade de compreender a imensidão do que é ser avó, avô.
Tenho teorias, livros lidos, programas, filmes, tudo muito discursivo, mas o sentimento me é distante.
Meu velho pai, como encontrava energia, disposição para cuidar-me?
Queria ouvir a resposta pelas palavras dele. De certa forma também sei que a resposta se resumiria em uma palavra - amor.
Penso que meu pai adotando-me em avançada idade para aquela época, era um  pai-avô. Possuía algo que costuma ser típico dos avós, muita paciência!
Levava-me a passear todos os domingos. Tenho muitas fotos, algumas lembranças dos parque aonde íamos.
Esse da foto é o Parque da Água Branca em São Paulo.

Eu não sei muitas coisas sobre meu pai. E ele nunca soube de algo sobre mim.
Eu tinha cinco anos de idade e lembro-me bem pois foi exatamente nessa época que um revés financeiro, levou-nos a morar na casa de meus avós paternos.
Talvez o semblante de meu pai deva ter se entristecido tanto, perdido brilho ou algo que eu nem mesmo soube, mas eu olhava para meu pai e pensava com desespero em sua morte.
Minha mãe colocava-me na cama e logo depois papai aparecia no quarto para dar-me um beijo.
Eu esperava ansiosa por esse momento e assim que ele saía e encostava a porta, eu me punha silenciosamente a chorar deixando-me ser tomada por esses pensamentos de que logo ele não estaria mais comigo.

Nunca perceberam meu choro. De alguma forma eu sentia que não devia contar-lhes essa angústia e ela ficou comigo por vários anos.

Passou, depois vieram-me as orações em meu auxílio e por fim o maior de todos os ensinamentos trazido pelas mãos de ninguém menos que, a própria vida.

Enquanto eu tinha um medo avassalador da morte aproximar-se de meu pai, ela, a morte, chegou sorrateira e tomou as mãos de minha mãe. Minha jovem mãe que era 27 anos mais nova do que ele.

Foi uma das lições mais duras que recebi em tenra idade. Não há controle. A vida surpreende com seus mistérios.

Tristeza? Não só.
Teve muita música! E daquelas de arrastar sandálias!


Era sanfoneiro e dos bons meu querido papai José Augusto!






11 comentários:

✿ chica disse...

Quantas boas recordações esse papai te deixou. E uma pena a morte de tua mãe tão cedo...Triste mesmo! E tenho certeza que QUANDO A HORA CHEGAR saberás com sobras como ser avó! Adorei te ler!

beijos ainda praianos,quaaaaaaaaaaaaaaase acabando a moleza...chica

Pandora disse...

Tanto lirismo e delicadeza e afeto... e amor... estou emocionada sim não tem como não senti...

Érika Oliveira disse...

Que lindo. Seu texto está incrível, deu pra passar o sentimento. Como diria Maria de Andrade, amor é um verbo intransitivo.

Roselia Bezerra disse...

Olá, querida Ana Paula!
Saudade do meu pai amado...
Ser avó é uma delícia e você vai gostar muito de babar netinhos... rs...
Seja muito feliz e abençoada!
Bjm de paz e bem

Laura disse...

Oi! Que tal?,
Gostei dá entrada, foi ótimo.
Acabei para seguir seu blog, você me seguiria de volta?...

Um abraço.
Obsesión por la lectura

As Mulheres 4estacoes disse...

Ana Paula,estou gostando muito de saber mais sobre sua vida com seu pai.
Você consegue descrever um momento de dor e tristeza, sem peso, com muita delicadeza e afeto.
Você pergunta sobre o sentimento de ser vó,ainda outro dia estava fazendo um rascunho sobre isso para futuramente colocar no blog, me animei em continuar,rs.
Um beijo
Sônia

Poesia do Bem disse...

São dores e socos da vida, são aprendizagens e quantos conflitos vivemos não é? E o medo que paralisa, a dor da caminhada , a solidão. E por coincidência falo um pouco sobre medo e dores, e lágrimas no blog, com um vídeo da Alice tbm. Amei conhecer mais de tua história e saber mais de teu pai.

Calu B. disse...

Somos feitos destas lembranças, momentos inesquecíveis a nos desenhar n'alma contornos que a vida delineia. Por sorte ou por fado, conseguimos apesar das tristezas, eleger as alegrias como primordiais; isso nos acalanta.

Vc sabe destacar cada momento com extrema delicadeza, Ana.
Tua história com teu pai traz-me lembranças próprias com o meu...convívio precioso.

Bom final de semana.
Bjo,
Calu

Graça Pires disse...

Com Amor você disse tudo. São tudo memórias do amor...
Uma boa semana.
Beijos.

Érika Oliveira disse...

Agradeço por ter ido no meu blog e ter deixado uma indicação de documentário. Obrigada e uma excelente semana! Beijinhos!

Camila marquez disse...

Lindo