sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Fazer contato

Encontrei um antigo livro nas caixas de mudança de autoria de uma médica que enfrenta uma doença grave. No livro pequenas histórias.
Escolhi uma da qual gosto muito e tem um significado bem atual. Espero que gostem também.


do livro: Histórias que curam - conversas sábias ao pé do fogão de Rachel Naomi Remen



A Tarefa Nos Separa

O modo como perdemos uns aos outros pode ser bem simples. Um de meus pacientes descreveu como passava seu tempo com o filho antes do câncer. “Subíamos a pé uma montanha, uma escalada difícil, lado a lado, ambos concentrados em atingir o topo. Depois descíamos até o carro por um caminho diferente, um atrás do outro, e íamos para casa. Fizemos isso muitas vezes. Refletindo agora, tenho uma nítida lembrança de muitas daquelas escaladas, mas nenhuma de algo que meu filho tenha dito para mim ou que eu tenha dito para ele.”
Em psicologia infantil, o que esse homem está descrevendo chama-se brincadeira paralela, e é normal nas crianças de dois e três anos. Nessa idade, as crianças usam a mesma caixa de areia e até os mesmos brinquedos, mas estão brincando sozinhas, perto umas das outras. Em vez de se relacionarem entre si, elas se relacionam com uma atividade comum que fazem paralelamente.
Meu paciente aponta um grande contraste entre aquele modo e a maneira como ele e seu filho se relacionam hoje em dia. “Não sou capaz de fazer muita coisa agora, por isso nos sentamos e conversamos. Pergunto a ele sobre sua vida e como ele se sente a respeito dela. Pela primeira vez, sei o que é importante para ele, que tipo de homem ele é, o que o motiva. E falo com ele também. Sei agora que sou importante para ele, que ele deseja passar seu tempo comigo, e não porque podemos fazer atividades juntos. Às vezes simplesmente nos sentamos juntos, vivendo. A montanha estava em nosso caminho antes. Eu não sabia.”
Muitas pessoas vivem dessa maneira, compartilhando o lar, o emprego e mesmo a família, mas sem fazer contato. É possível ser solitário no meio da família, na própria casa. Com demasiada frequência, nós até mesmo exercemos a medicina desse modo. Lado a lado, paciente e médico concentrados na doença, nos sintomas, no tratamento, sem nunca ver ou conhecer o outro. O problema está no caminho, e cada um fica só.

8 comentários:

Débora disse...

Texto muito bom para uma reflexão Ana.
"Tinha uma pedra no meio do caminho, nome meio do caminho tinha uma pedra"...como diz Drummond...em muitos lares, trabalho, escolas e em muitos outros locais de convívio é dessa maneira mesmo, as pesssoas estão alí uma ao lado das outras sem se conhecerem de verdade, deixam uma pedra no meio do caminho...
Bjo grande e um excelente final de semana!

✿ chica disse...

Belo achado,Ana Paula!!! Valeu! beijos,boa noite! chica

Cris disse...

Ótima reflexão pra uma sexta, que eu chamaria de solitária pra mim!
Adorei!

Te desejo um fds LINDO e FELIZ!

Bjao

mfc disse...

E de repente.... fez-se luz!
Completamente!

Blog do Óbvio - Manoel disse...

Ana Paula, essa postagem é um puxão de orelhas para a gente perceber que foi necessário acontecer uma doença grave, para ocorrer o melhor de tudo na vida, que é o relacionar-se.
Muito útil esse texto para uma boa reflexão.
Beijo.
Manoel.

Ivani disse...

Pelo trecho do livro que voce escolheu imagino que tenha nas mãos um tesouro.
Esses pensamentos são maravilhosos e importantes por nos fazer pensar.
Não que isso mude muito nossas atitudes, mas pelo menos nos ajuda a entender porque as temos.
Sempre acreditei que por mais intimidade que tenhamos com alguém, nunca sabemos exatamente com quem estamos vivendo, conversando.
E é nisso que mora a mágica de descobrir dia após dia porque gostamos tanto de te-la ao nosso lado.
Nem todos tem esse privilégio, claro.
Beijos Ana, belo texto.

Tina disse...

Sabia que vc ia voltar arrasando!

Perfeito, belo achado, divulgarei o texto entre muitos que andam "brincando sós", recomendarei o livro a uma blogueira da qual li um post hoje, me parece a leitura fará bem a ela.

Beijos juntinho e misturado :)

Su disse...

Ana Paula,

um achado mesmo, bom de ler e melhor ainda para levar como reflexão, buscar estar presente sempre, antes que a vida se encarregue de impor essa presença...

belo livro! Como disse a Ivani, um tesouro.

beijos e que bom que está de volta.

Su.