domingo, 2 de agosto de 2015

Um carteiro, um livro

A chaleira está no fogo.
Em alguns minutos, o vapor.
Um carteiro segura uma carta enquanto aguarda o momento de, com o vapor,  abrir o envelope.

Não, por favor não fique com raiva do carteiro!
Bilodo, o carteiro, era um carteiro fora do comum.
Realizava seu trabalho com destreza.
Separava as cartas e depois as entregava. Em seu trajeto, aqueles prédios com escadas externas; juntos somavam 1.495 degraus.
Mas não é isso que faz Bilodo ser especial. Há algo mais...
Ele praticava caligrafia - a arte da bela escrita manual, que havia adotado como hobby.
Um carteiro que pratica caligrafia? Não é demais?!!!

"No meio dos milhares de pedaços de papel sem alma que entregava em suas rondas,vez por outra ele se deparava com uma carta pessoal - artigo cada vez mais raro nesta nossa era do e-mail, e mais fascinante ainda por causa da sua raridade."

Em meio a essa raridade dos tempos modernos, o carteiro Bilodo encontrará um envelope com uma bela caligrafia e dentro dele a carta apenas com um haicai. Um haicai que ele ainda não sabe bem o que é, mas naquelas dezessete sílabas ele sente como se fossem várias páginas. Ele se sente preenchido.

"Sem dúvida, a caligrafia de Ségolène contribuía muito para aquela magia extraordinária: ela costumava usar a cursiva italiana mais graciosa que Bilodo já tivera a sorte de poder admirar. Eram traços ricos, cheios de imaginação, com mergulhos profundos e voos celestiais adornados por volteios opulentos e pingos distribuídos com precisão - uma escrita clara e fluida, admiravelmente bem-proporcionada com a sua inclinação de trinta graus exatos e o espaçamento impecável. A letra de Ségolène era um doce colírio para os olhos, um elixir, uma ode."

Ah, que esse elogio eu nunca vou receber por minha letra :(
Imagino que seus ( meus ) graus exatos, sejam mais próximos a uma parede a desabar!

"... Era tão linda ( a letra ) que fazia chorar. Tendo lido em algum lugar que a caligrafia era um reflexo da alma da pessoa que escreve, Bilodo concluiu que a alma de Ségolène só podia ser de uma pureza incomparável. Se os anjos pudessem escrever, certamente o fariam daquele jeito".

Já dá para imaginar o desenrolar dessa história que está me encantando.
E igualmente encantador foi o cuidado gráfico com o livro:



A aba do envelope que forma a capa nos faz tão curiosos feito o carteiro e nem é preciso vapor no bico da chaleira para abrir!




Em tempos de tantas correspondências que são tudo, menos cartas, esse livro é um colírio, um lenitivo, um encantamento que nos faz até perdoar a gravidade de abrir cartas no vapor da chaleira.





7 comentários:

✿ chica disse...

Sempre mágico passar aqui,Ana Paula! Que lindo deve ser e essa capa com o envelope já e demais! Adorei e fiquei curiosa.Deve mesmo ser perdoado por abrir com o bafo da chaleira,rs bjs dominicais,"Marinando " por aqui, entre musiquinhas, frutinhas e papiunhas...Ela já dormiu aqui ontem conosco e ficamos com ela até segunda!Bem diferente de até ontem lá, mas lindo! chica

Marcilane Santos disse...

Que coisa mais linda, Ana! Fiquei morrendo de vontade de ler toda a história.
Você sempre nos trazendo essas singelezas tão gostosas.

Beijo grande :*

Tina Bau Couto disse...

Amei e fiquei com o biscoito na mão com vontade de um chá e o livro pra devorar

Poesia do Bem disse...

Ai e eu que amo receber aqui a visita do Sr Carteiro adoraria conhecer o Bilodo, e também assim como ele me encantaria pela bela caligrafia que a mim também em nada tem de semelhante. amei o livor em forma de envelope. Amei de cara a história. Tem desejos no blog, depois passe lá

Poesia do Bem disse...

Oie Ana olha só que coincidência sai daqui e ao entrar no facebook achei a indicação do livro na fanpage da Leya editora dai com link para ler o primeiro capítulo no ISSU , vim compartilhar assim quem desejar se encnatar mais pode ler

http://issuu.com/leyabrasil/docs/a_vida_peculiar_de_um_carteiro_soli/1?e=2185351/14550068

Pandora disse...

Esse livro é um deleite para os olhos, a forma como você o apresenta também... Deus eu tenho tantas dividas de cartas, faz meses que não me correspondo com pessoas com as quais sinto necessidade de me corresponder... Esse post é quase um puxão de orelhas, um puxão lindo, diga-se de passagem!

Carmem Grinheiro disse...

Olá, Ana Paula.
Uma postagem que parece nos introduzir nessa dobra do envelope e entrar carta adentro, ou, neste caso, entrar livro adentro. Imbuídos no desejo de receber cartas escritas à mão, com caligrafia desenhada, ou nem por isso, mas sentir em cada dobra do papel a abrir-se nas mãos, um pouquinho da presença de quem as enviou. E enviar também, cartas com nossa escrita caprichada, para causar boa impressão em quem queremos que leia as nossas novidades.
Tudo coisas dum tempo que parecia andar menos depressa, e que, agora lembrado, parece ainda mais bonito.