sábado, 4 de fevereiro de 2012

Casquinha de amendoim

imagem google


Há dias em que as coisas aparentemente simples de serem resolvidas, tornam-se tarefas das mais complexas, quando, por exemplo, você sai de casa bastante animado e acaba filosofando: “não devia ter saído de casa hoje”.
Aconteceu comigo na semana passada.
Tudo seria simples e rápido porque o que precisava ser feito estava pago e reservado, era somente retirar.
Animada, saí com destino à capital – ônibus + metrô. É fato que não contava com a chuva, mas não deixaria que um dia nublado e chuvoso influenciasse meu estado de espírito.
Organizei uma listinha de acordo com o trajeto e estava tudo caminhando bem.
Na metade da lista, entro na livraria na qual já havia encomendado e pago os livros escolares anteriormente, e já havia retirado a maioria, ficando pendente apenas dois itens.
Uma hora e quarenta minutos foi o tempo que eu utilizei lá dentro, entre localizar o pedido, ligar para o funcionário que me atendeu e justamente naquele dia estava de folga, informarem que o livro estava esgotado, porém estava pago e havia complicações no sistema para a devolução do dinheiro...
E meu sistema nervoso começou levemente a se alterar, o que foi contornado com técnicas de auto-sugestão, porém com o sistema digestório não houve técnica que dese jeito na fome.
Saí de lá insatisfeita, deparei-me com uma multidão dentro de qualquer lugar que vendesse comida que resolvi comprar de um vendedor ambulante um pacotinho com amendoins de casquinhas vermelhas lustrosas, daqueles que se vê o cristalzinho de sal reluzindo.
Andando, segurando o guarda-chuva e comendo.
No meio do caminho guardei o pacotinho e segui até uma outra livraria aonde o livro estava reservado e eu recebera um e-mail informando da chegada do pedido.
O setor de reservas é sempre vazio. Naquele dia havia uma considerável fila. Tudo bem. Aquele era o penúltimo item da listinha.
Na minha frente havia um senhor de sobretudo. E seu atendimento foi sobremaneira demorado.
Primeiro falou o número do cpf e quando o funcionário voltou dizendo não ter encontrado o item, ele disse que estava perdendo momentos preciosos do seu trabalho, que trabalhava no São Paulo Fashion Week.
Imediatamente fiquei fascinada. Aquele senhor de sobretudo era uma figura importante da semana de moda.
Eu estava diante de uma celebridade, quero dizer, estava logo atrás.
Fiquei com um misto de nervosismo e empolgação, que peguei o pacotinho de amendoim e comecei a comê-lo sem tirar os olhos do tal homem que àquela altura já havia mandado chamar um superior, um chefe, um gerente, sei lá.
E prosseguia em seu discurso indignado que ele recebera um e-mail informando da chegada de seu pedido. Disse que gastou dinheiro com táxi e que bem poderia ir à Nova Iorque comprar o tal livro ( que era importado e bem caro).
Neste momento eu fiquei hipnotizada. Eu estava próxima a alguém que pode ir a New York só para pegar um livro.
Mastiguei o último amendoim, quando localizaram o livro noutra loja, no setor de artes.
Alguns minutos e chega uma funcionária ofegando porque deve ter corrido bastante e a chefe/gerente/ superior se desmancha em desculpas e solta em voz calma e clara.
Este livro será uma doação da loja para o senhor por todo este constrangimento”.
Embasbacada. Essa era a palavra para me descrever naquele momento.
Eu estava diante de um acontecimento.
Um homem de sobretudo e um livro doado... Eu estava aturdida.
Ele virou-se e disse que iria para o café. Ela respondeu que não se preocupasse com mais nada. Faria a nota de doação e o encontraria.
Minha vez de ser atendida.
Entrego meu documento porque agora que a lucidez voltou, lembrei-me que comi todo o pacotinho de amendoim e meus dentes poderiam estar impregnados daquelas casquinhas vermelhas. Era melhor nem abrir a boca, pensei. Pego o livro e vou embora.
A demora sinalizava que alguma coisa não ia bem. Eu começa a ficar preocupada com as casquinhas de amendoim grudadas nos meus dentes.
E depois de muita demora o funcionário me diz – seu livro não se encontra aqui, a reserva está na loja da Pompeia.
Um flash de segundo foi suficiente para eu me ver falando como o homem de sobretudo:
Eu sou muito ocupada, tive que deixar meus filhos com a vizinha, ainda nem coloquei o feijão de molho, gastei dinheiro com ônibus + metrô e bem poderia pegar um avião e ir até a cidade natal do livro, mas nesse momento lembrei do preço do cafezinho que o marido me contou que vendem no avião e lembrei também que podia haver uma casquinha de amendoim no meu dente. Achei melhor ficar de boca fechada e esquecer que eu também poderia sair de lá com um livro doado após falar também que eu recebi um e-mail de confirmação.
Sem mover os lábios, fui embora. Dei por encerrada a listinha.
Quando cheguei em casa e vi...

Foi realmente um milagre. Ainda bem que eu não abri a boca, porque o e-mail deles estava correto indicando que eu retirasse na loja da Pompeia. Eu estava na loja errada. Sobretudo passaria a maior vergonha.
Fiquei tão atucanada, que escovei os dentes e fui dormir.

19 comentários:

Sandes disse...

"Imediatamente fiquei fascinada. Aquele senhor de sobretudo era uma figura importante da semana de moda."

"Neste momento eu fiquei hipnotizada. Eu estava próxima a alguém que pode ir a New York só para pegar um livro."

huauhauhuha Muito hilária a sua odisséia, viu Ana paula, rsrsrs Adorei... E eu nunca poderia supor que livro tinha cidade natal, tampouco que celebridades estavam assim, ao alcance dos olhos, rsrs... Muito cômica a forma como você relatou os fatos. Ah! Afinal de contas, Senhora emudecida, havia ou não casquinhas vermelhas nos dentes quando chegou em casa e pode, finalmente, abrir a boca? rsrsrs

Tina disse...

Eu nem consigo destacar a parte que mais gostei.

Uma final de semana sem casquinha de amendoim, de pipoca, fiapo de manga ou palavras presas entre os dentes pra vc.

Beijos e carinho :)

Tina disse...

Voltei para ler de novo sua história, acredita?

Na volta percebi meu errinho: "Uma final de semana", insere ai entre uma e o final: "maravilha de" e uma vírgula depois de semana pra arrematar a correção. E entre as coisas entre os dentes não deixe tb sorrisos ok?!

Muitos sorrisos, bom humor, narrativas, algodão doce, que só cola no céu da boca.
Falando em céu, como está o céu por ai? espero que azul.

+ bjos e carinho

Imac by Artes disse...

Querida amiga!
É incrível como você narra bem!
Fico fascinada quando leio seus textos,
parece que estou contigo... Muito legal mesmo!
Abraços! Um final de semana abençoado e alegre pra ti.

Ivani disse...

Olá ! que delicia de texto, adorei! Muito engraçado o seu modo de contar suas peripércias pelas livrarias paulistas.
Fiquei curiosa em saber quem era a personalidade de sobretudo.
Convenhamos que usar sobretudo em S.Paulo, durante o dia, com chuva, já é para uma pessoa com MUITA personalidade.
Querida, obrigada pelo carinho lá no blog, estou mesmo meio preguiçosa, cansada, e com aquela "bagaça" funcionando precariamente. Já não sei pra quem reclamar.
Existe uma seção fale conosco para blog? eu não sei onde é.
Beijos amiga, parabéns pelo texto gostoso demais.

Su disse...

Ana Paula, que aventuraaaaaa, posso imaginar. E que delícia sua narração, me fez bem, me fez rir... Seu senso de humor contagia, viu moça das casquinhas vermelhas nos dentes, ou não???!!!rs.


Beijinhos.
Fica com Deus.
Su.

Blog do Óbvio - Manoel disse...

Ana Paula, sobretudo(do homem) por sobretudo (seu) ainda passaria a maior vergonha, rs...rs. Mas valeu sua ironia e observação para poder alimentar essa gostosa postagem. Ainda mais, concordo que tem dias que a gente não deveria se expor. Não digo nem sair de casa!
Beijo.
Manoel.

Aleska disse...

Caramba que Odisséia! O mais incoerente é que o cara podia pagar e ganhou o livro... adorei o detalhe das casquinhas de amendoim rsss. Como está quela situação da escola dos seus filhos? já está resolvido? Espero que sim, depois dá uma passada no meu blog? deixei o convite para uma blogagem coletiva lá. Beijinhos!

mfc disse...

E imagino que dormiste bem descansada... e a certa altura até esboçaste um sorriso!
Ora diz lá que não o fizeste?!

Aleska disse...

Caramba, a foto do céu de coração é sua? vixe desculpe rss eu peguei non google.

Débora disse...

Oi Ana!
Como sempre, consegue narrar coisas do cotidiano de maneira leve e sutil.
Bjo grande e que venham mais peripécias.
Débora

Evanir disse...

Tenho sido abençoada com sua presença em minha vida
com seu carinho no meu blog.
Hoje venho desejar uma semana abençoada
e deixar meu eterno agradecimento.
Nunca esqueça leio sua postagem e trago comigo no
meu coração.
Hoje ñ estou conseguindo digitar.
EU vou continuar te seguindo e te amando sempre.
Aceite meu beijo no coração e meu carinho
na sua alma.
Evanir..

Aleska disse...

Vá receber seus aplausos no folhetim utopia! O pessoal gostou muito^_^

Compartilhando Sentidos disse...

Oi Anaaaa... Que narrativa mágica e cheia de links com outras narrativas tão frescas em minha memória!

Ainda bem que você não simplificou com a frase:“não devia ter saído de casa hoje”.

Boa semana e até breve!

Carolina Lima disse...

Ana,
os seus textos são o máximo!
É bom saber que não sou a única que fico 'paralisada' diante de pessoas que vivem em um mundo tããão diferente do meu.

Meus pais tem uma loja e minha mãe atendeu uma senhora que estava muito apressada (para começar ela tinha motorista particular). Na conversa ela disse que voltaria depois porque estavam esperando por ela no aeroporto. Inocentemente minha mãe perguntou que horas o vôo dela saia e a resposta foi a minha humilde possível: 'O meu avião é particular'. Descuuulpa, né? :P

Que bom saber que você também faz scraps!
Bem que você podia mostrá-los para nós (a curiosidade!).

E dia 10 a participação está confirmada!

Uma excelente semana!

Beijinhos,
Carol
www.umblogsimples.com

Anne Lieri disse...

Ai Ana Paula!Como tem dias assim em nossas vidas!...rsss...e adorei as casquinhas de amendoim!Salvaram seu dia!...rss...bjs,

Su disse...

passando pra deixar um beijinho e o desejo de um lindo dia!

Su.

Laiz disse...

A sua casquinha de amendoim me fez rir! Estava tão chateada por aqui e me diverti com você. Adorei! Mas fiquei super curiosa: Quem será o senhor do sobretudo?hahaha Bjoooooooooooooo

Flor disse...

kkkkkkkkkk..ana você é demas.adorei kkkkkk