sexta-feira, 18 de maio de 2012

Protetor solar ou pega-pega

Eu não uso protetor solar para praticar atividades físicas ao ar livre. E outras oito ou nove pessoas que praticam comigo, também não.
É que nós começamos às dez para cinco da madrugada. Está tudo escuro. Ninguém precisa disto!
Eu sou novata na turma.
Comecei no dia das mães. Não que eu tenha ganhado alguma roupa esportiva, ou um tênis bacana. Não, nada disso.
Na véspera do dia das mães, houve a tradicional festinha na escola. E eu participei com a Júlia, minha filha, do pega-pega.
Fui pega aos dois segundos do início da brincadeira. Minha filha ficou muito decepcionada comigo. Eu ainda tentei descontrair dizendo que isso era um recorde, mas ela pareceu não se convencer.
Acordei arrasada no dia seguinte, o domingo das mães. Não propriamente pela Júlia, mas sim porque me doía o corpo todo. Aqueles míseros dois segundos me deixaram toda dolorida. Um trapo.
Um belo dia resolvi mudar. E foi naquele dia mesmo que comecei a caminhar. Domingo à tarde.
Porém durante a semana, o único horário possível é às dez para cinco da matina.
O silêncio e a escuridão são incríveis.
Não é preciso se preocupar com o tênis. Ninguém enxerga marca, modelo, nada disso.
A moda é bastante misturada. As poucas pessoas que lá estão, estão vestidas de tudo: cachecol inclusive. Inclusive eu vou de cachecol. Faz bastante frio de madrugada.
Há dois caminhos: o estreito de terra, que é para os profissionais do pega-pega. Eles correm bastante. E há o caminho mais largo, para aqueles que vão mal no pega-pega, tiram nota baixa ou mesmo são expulsos, que é o meu caso.
Por alguns segundos ficamos lado a lado: a turma que corre e a que caminha. Saudamo-nos gentilmente. Um aceno de mão ou de cabeça.
Por falar em cabeça, eu caminho de chapéu, não por eu ser princesa, é que sempre me lembro de papai falando "pegar sereno na cabeça faz um mal danado".
E por falar em sereno, hoje eu comecei a caminhada e já me deu calor, tive que tirar o cachecol e amarrar na cintura. De repente comecei a sentir delicadas gotinhas tocando o meu rosto. Sereno, porém prefiro orvalho. O orvalho a me beijar a face. Que poético, pensei.
Também pensei que a escuridão e o silêncio trouxessem muita inspiração poética. Trazem sabe o quê? O seu lado mais sombrio.
Primeiro a gente inveja daquela turma do pega-pega profissional. Dão umas vinte voltas, enquanto eu nem completei a primeira.
Depois veio a maledicência em mim. Vi uma mulher na minha frente caminhando de guarda-chuva aberto por causa do orvalho. Pensei: que falta de poesia, ao invés de deixar que o orvalho lhe beije a face, abre essa coisa enorme durante a caminhada.
E segui sendo acariciada pelo orvalho, só que não sei o que aconteceu que o orvalho ficou tão forte, mas tão forte, que eu despertei daquele transe poético e percebi que estava chovendo. E percebi que aquela mulher de guarda-chuva à minha frente era feliz. Eu não devia ter tido pensamentos maldosos em relação a ela.
O guarda-chuva era tão grande, que ela abrigou uma amiga e seguiram a caminhada. Eu também segui. Usei o cachecol da cintura para enxugar o rosto que escorria. Mas não desisti.

Sabe, quando me vem a soberba e eu acho que estou arrasando na caminhada, ultrapassando e acenando com um bom dia ( deveria ser boa madrugada ) e deixando gente para trás, surge uma senhora japonesa que passa por mim com tanta tranquilidade e agilidade que eu penso que ela ter patins invisíveis que a torna tão rápida.
Por mais que eu me esforce, fique ofegante, não consigo ultrapassá-la.
E com toda aquela orvalhada caindo, esta senhora se ausentou da pista de caminhada, foi até o seu carro e voltou de guarda-chuva e ainda por cima em dois segundos me ultrapassou.
Segui arrasada e ensopada. Mas, segui.
No caminho, quando o orvalho era só orvalho, um senhor à minha frente parou perante um arbusto, arrancou um pequeno galhinho com umas três ou quatro folhinhas, colocou no bolso e arrancou numa corrida surpreendente. Devia ser mágico aquele arbusto. Com inveja, pensei em arrancar também umas folhinhas, mas naquela escuridão fiquei com medo de confundir os arbustos. Vai que eu arrancasse um com efeito tartaruga.
Já na hora de ir embora, o céu limpou, clareou e fiquei com aquela sensação de feriado prolongado que só chove e no dia que você volta para trabalhar, sai aquele solzão.
Enquanto tudo isso ocorria, dormiam meus rebentos e sonhavam com pega-pega. E eu ali, me esforçando para aumentar os segundos no próximo dia das mães.


Na verdade, eu nem sei por quanto tempo vai durar essa determinação pela caminhada. Vamos caminhando e veremos.
Agora vou confessar uma coisa: quando estou na volta final, eu sinto uma vontade enorme de encontrar um pipoqueiro. Que fome de pipoca.
Mas não deve ter. Milho não deve gostar de pular de madrugada.
Confesso também que estou prestes a seguir a sabedoria de Mario Quintana:

As pessoas sem imaginação
podem ter tido as mais imprevistas aventuras,
podem ter visitado as terras mais estranhas.
Nada lhes ficou. Nada lhes sobrou.
Uma vida não basta apenas ser vivida:
também precisa ser sonhada.

Estou pensando em sonhar mais tempo na minha cama, comprar um protetor solar e ir caminhar no sol a pino!
Agora, uma opinião: que título fica melhor neste post, pega-pega ou protetor solar?
Beijo

14 comentários:

✿ chica disse...

rs...me diverti contigo, com teu jeitinhos de contar. Lembrei to tempo que fazia caminhadas com as amigas, até na chuva!!

E mesmo sem disposição pra caminhar ou caminhando mais lenta, nas palavras ninguém te ganha,tenho certeza. Ninguém deles fez ou faz um post assim lindo e ainda ilustrado tão bem! Um amor.

Fico imaginando aqui em Poa caminhar a essa hora. Ninguém volta vivo... beijos, lindo fds!chica

✿ chica disse...

Aqui levam tudo, até a vontade de caminhar,srsr beijos,chica

Patricia disse...

Ai Ana, me diverti agora!!
Só vc para contar histórias com esse bom humor e criatividade.
Tb tô precisando deixar de ser sedentária, quem sabe me animo com a sua corrida na madruga?
Eu já falei para o meu marido, vou parar de dormir, pq me falta para fazer minhas coisas.
Tá aí a saída, fazer de madrugada. Mas no frio ninguém merece, vamos deixar para o verão, não é melhor? rs
Lindos os pequenos dormindo, q inveja boa!!
bjs ebom final de semana

Ivani disse...

Oi Ana, que linda postagem! a foto dos fofos dormindo ficou deliciosa. Vontade de entrar no "meinho" deles e dormir também.
Ficou bem divertida a sua maratona.
Eu também andei fazendo umas loucuras, caminhando antes do dia clarear. Éramos eu, o Edison meu irmão, a namorada dele e a minha Fulha Juliana.
Santo Deus, eu ficava sem fôlego, porque o Edison anda muito depressa, e a gente ia conversando...não dá pra falar e andar!
Aproveitamos uma gripe geral, terrivel, para cada um debandar para o seu esporte favorito, cama!
Até hoje a gente se cobra, porque era bom demais a disposição durante o dia.
Eu gosto e acho que voce deve continuar o seu pega-pega.
Durante o dia é mais complicado.
Não pude deixar de ler o comentário da Chica. Ela acha que só em Poa tem ladrão? Diz pra ela como é por aqui!
Beijos querida, adorei o assunto (dá pra notar pelo tamanho do comentário rsrsrs).

Coisas da Vida disse...

Olá Ana!

Minha mãe sempre me corrigiu quando eu ria... “Pra que rir alto assim? Mocinha “ri” baixo”.
Mas minha gargalhada nunca obedeceu minha mãe, sempre saiu alta e sem vergonha.
Estava eu em minha mesa de trabalho com vários papeis me aguardando, resolvi fazer um intervalo, meu recreio... e vim aqui visita-la
Como sempre achei o texto muito bom, mas quando cheguei na japonesa que te ultrapassava com ou sem sombrinha, soltei minha gargalha malcriada, sem modos.
Foi a hora que me denuncie a hora que anunciei que estava fazendo qualquer coisa menos trabalhando. Minha imaginação não anda ela tem asas e voa. Logo imaginei que a senhora japonesa era mulher do japonês dos pasteis, lembra? Cheguei a vê-la com seus passos curtos e rápidos. Rsrsrs.
Continue com suas caminhadas, o ano que vem quero ver foto sua de medalha, pode começar com a de bronze... “Mãe pega-pega do ano!”

Beijos!

lis disse...

Oi Ana Paula
Nao há nada melhor que as caminhadas pela madrugada, as minhas são mesmo as 6 da matina, mais cedo está ainda escuro e nao consigo sair da cama,a preguiça de deixar os lençoís e o medo dos pivetes, coitados, que dormem (?) sob bancos na praça( o uso as drogas é que faz medo).
Continue firme Ana - vais sentir muito melhor pra seguir o dia.
Bela cronica !
meu abraço
*linda a foto dos filhotes dormindo.

Blog do Óbvio - Manoel disse...

Ana Paula, que postagem gostosa de se ler.
O título, em minha opinião, pode ser Pega-Pega. Está bem de acordo com a postagem. Se você já estivesse correndo minha sugestão seria Arbusto Mágico em homenagem ao dopping por ele oferecido àquele senhor da postagem, rs...rs.
Sempre que a gente tenta uma caminhada tem uma "japonesa" que surpreende a todos. Aqui temos uma que tem 72 anos, é viúva e tem a melhor performance nas corridas. A danadinha tem um corpinho super esguio. Uma nossa amiga baiana, na flor de seus 25 anos, chama a japonesa de "FILÉ" devido ao seu corpinho de manequim.
Não desanime não e continue observando todos esses detalhes. Parece que não, mas tudo fica mais gostoso e divertido visto por esse ângulo. Rí muito e adorei a postagem. Fofinhos os filhotes dormindo!
Beijo
Manoel.

Flor disse...

Li hoje a tarde e voltei só para rir..imaginando todo. Beijos

Tina disse...

Pega-pega com certeza.
Me ocorreram música, risos, admiração, alguns comentários, frases, palavras, filme...

"E em tudo o que eu faço
Existe um porquê
Eu sei que eu nasci
Sei que eu nasci pra saber
Pra saber o quê?"

Adorei o desejo pelas pipocas, chega senti o cheiro...rs
Me lembrei de uma crônica sobre pipocas:
http://www.recantodasletras.com.br/cronicas/1365793

Poético, divertido, desafiador...

Coluvionamento, aprendizados, contatos, encontros interiores...

Vá em frente, dou td apoio e incentivo, Deus ajuda a quem cedo madruga e nessas caminhas vc faz como "Forrest Gump", se enche e nos contempla com muitas histórias.

Tina disse...

RESPONDI LÁ E VIM TRAZER AQUI:

Tb apoio o consumo consciente, pelo planeta e pelo bolso, mas viva os cafezinhos e as pizzas!!!

A foto foi em 2009 em uma exposição sobre Mauricio de Souza em um Shopping aqui de Salvador.
Eu aproveitei que estava com meu filho que já não queria mais se prestar ao papel (pela idade) de entrar e tirar fotos e uma menininha, filha de uma amiga (minha álibi e acesso ao mundinho infantil), para tirar a foto.
Me senti ao lado da Magali :)

Eu sou fã de Rosinha e Chico Bento.
Diz a Julia que eu vou desenhar uma Magali pra ela e mandar pelo correio e que ela me deixou alguns quilinhos mais cheia por esse elogio.

Beijos para as duas e um abraço de cascão em Bernardo :)

Compartilhando Sentidos disse...

Que maneira deliciosa de descrever seu treinamento para o pega-pega!

Espero continuidade neste teu projeto.


bjbj e eutimia!

Kinha disse...

Caramba, adorei seu relato dessa caminhada nada (tão) comum, rs

♫*Isa Mar disse...

Oi Ana, não conhecia esse tal de pega pega, e competição não é muito comigo, me dá ansiedade.
Eu faço aulas de dança e alongamento, no começo foi difícil, agora já entrei no ritmo.
Nas aulas de dança é mais complicado, qdo tem passos novos demora um pouco até pegar o jeito mas eu adoro!
Você escreve muito bem, talento que os do pega pega não devem ter, então cada um desenvolve suas qualidades de um jeito diferente, o importante é nunca se sentir inferiorizado.
Grandes jogadores de futebol podem ser péssimos músicos e cantores e vice versa, e assim é a vida.
Beijos e lindo dia!

Aleska disse...

Voto pelo pega-pega! Eu tb tô precisando fazer exercícios. Comecei a caminhada algumas vezes, mas meus horarios estão muito irregulares. Não conseguiria acordar de madrugada pra fazer rss já tenho q acordar as 5 pra ir pra facul, qq coisa antes disso é indigno rssss e desumano. Espero que vc consiga continuar fazendo sua caminhada, e ainda bem q vc tem uma senhora japonesa pra te ultrapassar, a competição sempre nos ajuda a perseverar. Eu to caminhando sozinha no final de semana, e mal ando 3 quadras e dá vontade de voltar pra casa.
PS: Até mulher gravida já me ultrapassou kkkkkk