domingo, 24 de junho de 2012

Histórias de aeroporto

Não, não tenho nenhuma história de arrancar suspiros em aeroportos. Se era isto que você desejava ler, lamento. Terá de buscar em outro blog.
As histórias que trago são pouco glamorosas. Acho que os aeroportos estão perdendo ( ou já perderam ) o encantamento, o fascínio do passado.
Mas bem que estão divertidos!
Nestes tempos de eleições políticas se aproximando, sempre sai nos noticiários, as últimas pesquisas sobre os candidatos e suas colocações. E a parte que eu mais gosto, é quando no final, o apresentador diz ( e eu falo junto, pois já decorei! ): "A margem de erro é de três pontos percentuais para mais ou para menos."
E sabe o que eu descobri? É que dá para usar esta frase nos aeroportos. Nada a ver com os políticos que passam por lá.
É que as balanças dos aeroportos de Cumbica e Congonhas estão errando o peso das malas, três quilos para mais ou para menos!
Se for para mais, azar o seu porque pode ser que precise pagar por excesso de bagagem.
Se for para menos, azar o seu, porque o avião pode decolar com excesso de peso... Mas não vamos pensar no pior, vamos continuar a nos divertir nos aeroportos.

No início do mês, fui buscar uma amiga que veio passar uns dias conosco ( foi uma delícia! ) e o voo dela atrasou.
É confuso de explicar porque o voo não atrasou, mas atrasou. Era para chegar às 15h. Foi aparecer às 16h.
Enquanto eu esperava um voo atrasado que não estava atrasado porque no painel eletrônico informativo estava escrito aeronave em solo, porém minha amiga não aparecia.
A princípio, eu comecei a ficar preocupada porque chovia muito, chovia demais, chovia baldes.
Mas as pessoas estavam tranquilas, andando de um lado para outro e parecia não haver nenhum problema por ali. Comecei então a observar o ambiente e notei que as pessoas não estão mais fazendo uso daqueles carrinhos usados para colocar bagagem. As malas evoluíram e elas mesmas estão com suas próprias rodinhas. Há um tipo de mala com rodinha giratória 360 graus que é muito interessante ( eu não tenho uma dessas). Elas não andam atrás de seus donos. Vão lado a lado. Parece até que está abraçada ao seu dono. Uma intimidade bonita de se ver.
A chuva continuava, a amiga não aparecia, a aeronave continua em solo e eu fui perguntar para aquela funcionária que fica na saída do desembarque e que deveria vistoriar a correlação numérica entre dono e mala, e não faz mais isto e azar o seu se pegar outra mala preta que é igualzinha à sua.
Perguntei a ela: cadê a minha amiga?
Está ali no meio daquelas pessoas que estão esperando a bagagem e algumas já estão saindo.
Não. Não. A minha amiga não está com estas pessoas não.
Como é que você sabe? Tem bolinha de cristal?
Não, não tenho bolinha de cristal mas sei ler pés.
Como assim, ler pés?
Olhe para as mulheres. Elas estão saindo dali de dentro com sandálias, unhas pintadas, dedinhos à mostra. Com o frio que está fazendo lá no sul, com geada e possibilidade de neve, ninguém estaria calçando sandálias.
Acertei!
A primeira pessoa que passou por mim, eu perguntei: daonde é este voo?
Recife.
Hahaha. Num disse que eu sabia ler pés?

E continuava a chuva, a aeronave em solo, a amiga desaparecida.
Continuei a observar as rodinhas que facilitam a vida. Para os funcionários da limpeza então, uma mão na roda aqueles carrinhos que deslizam levando água, vassoura, rodo e tudo o mais necessário para esta finalidade.
Mas, de repente, passa por mim uma funcionária da limpeza carregando uma pilha de baldes tão alta que mal dava para ver seu rosto.
Não me contive e falei: Nossa, nunca vi tanto balde!
É goteira minha filha. É goteira...
E segui andando enquanto falava para não se desequilibrar.
Realmente eu li que com as reformas e melhorias e parcerias que estão fazendo, aquele aeroporto seguiria modelos sustentáveis.
Só não imaginei que eles iriam reaproveitar água da chuva. Vinda de goteiras!
E a minha apareceu! Abracei-a já indagando sobre o seu sumiço.
É que eles não conseguiam encaixar a escada no avião, porque nós não descemos por aqueles túneis.
Ah! Sim. Eu tinha me esquecido de dizer a ela que descer direto num tubo daqueles é coisa de muita sorte. A maioria desce mesmo já no meio da pista, eles encaixam a escadinha, daí você pega um ônibus – gratuito – por enquanto. Mas que azar em amiga? Não conseguiam encaixar a escadinha?
E durante todo esse tempo eu senti falta daquela voa linda que anuncia voos, chegadas, partidas.
Descobri depois que a voz "senhores passageiros"foi silenciada pela Infraero que disse não haver mais necessidade. Esse serviço pode ser feito por qualquer voz esganiçada ou não de um funcionário da companhia aérea.
É um show de talentos esse aeroporto, não? As aeromoças agora além de precisarem ser vendedoras e garçonetes anotando pedidos num aparelho preso ao pulso tipo relógio, fazendo o troco, agora precisam dar uma de locutoras também? É de se chutar o balde ( mas cuidado porque ele pode estar cheio de água e vai ser muito azar para você).
Sentirei falta desta senhora. Voz tão bela que gravou várias mensagens telefônicas e corre o mundo em alguns ônibus do país.

Iris Lettieri, 70, que é locutora de aeroportos há 36 anos

12 comentários:

Poesia do Bem disse...

Bela história! Vem ver o Poesia do bem, bjs e bom domingo

O meu pensamento viaja disse...

Só é preciso estar atento que as histórias estão aí para serem contadas. Gostei muito da tua.
Tem uma bela semana, linda!

Patricia disse...

Q ótima história!
E olha que tudo isso aconteceu e nem era época de Copa ou Olimpíadas. Já imaginou como vai ser? Quantas escadinhas demorarão para serem encaixadas? Quanta gente no meio da pista dividindo espaço entre os aviões?
Melhor não pensar, né? rs
Boa semana!!
bjs

✿ chica disse...

Infelizmente o chame de outrora, não vemos mais nos aviões.

E a voz da Iris também não mais tem vez... Pena!!

Linda tua crônica e quanto há pra ver por lá,não???beijos,chica

lis disse...

Oi Ana
Engraçado as histórias de aeroporto, também passei por eles essa semana e senti falta da voz da Iris ,e também chovia demais!
Ainda nao vi as malas de rodinhas que andam do ladinho, mas reparei que no desembarque a gente pega as malas e sai nao tem conferencia alguma mesmo, cada um que pegue a sua! e se nao achar _ reclame com o papa porque nao tem ninguém por lá...
história de aeroporto , sempre são assim boas! rs
gostei Ana
boa semana, fique bem
abraços

Ivani disse...

Bom dia Ana, que coisa boa ter uma amiga por uns dias em casa, né?
Deve ter sido bem bom!
Também gosto de ficar observando as coisas, as pessoas, tentando adivinhar para onde vão, de onde vêm.
É divertido. Gostei de suas aventuras "aeroportuárias".
n]ao sabia que tinham goteiras por lá.
Que coisa feia em? um aeroporto internacional com goteiras e baldes?
Tenho uma sensação ruim de que vamos passar muita vergonha nessa copa do mundo. E você?
beijos querida, boa semana.

mfc disse...

Um texto bem disposto e atento a tudo o que se passava por ali...
Um texto em que os sorrisos são muitos e em que a perfeição da frase nos estimula a continuar a ler!
A cena dos baldes, a leitura dos pés e a escadinha que não encaixava no avião são autênticos flagrantes da vida real!
Beijinhos,

Tina disse...

Pois é, tanta desorganização, mudanças de hábitos, tradições e se fosse para melhor até que me esforçaria em me adaptar, mas vejo é td piorando, degringolando.
Salve as belas vozes dos aeroportos, rádio e telejornalismo!
Salve a pontualidade!
Salve o td como era antes!

♫*Isa Mar disse...

Oi Ana, vc arrasou no texto, dei boas risadas aqui
Bom que assim a gente fica por dentro das novidades dos aeroportos rsss
Beijos com carinho!

Marcilane Santos disse...

Amei seu blog!
Te convido a visitar o meu, tem uma postagem lá que acho que gostaria de participar!

Beijos,

Marcilane do Blog Simples Inspirações: http://simplesinspiracoes.blogspot.com) por indicação de Carolina Lima de Um blog simples.

Bicho-mãe disse...

Muito bom! Um dia ainda aprendo a escrever rss...

BEijoss

Graziela disse...

Amei esse post, ate compartilhei la no tuiter!
Voce e' uma grande leitora de pes, eita sensibilidade.
Agora que os aeroportos ja' nao sao mais como antigamente, ah nao sao mesmo. Lembro que eu suspirava quando ia a uma rodoviaria (era algo tao distante para mim). Imagina o dia que conheci um aeroporto - eita trem grande - e eu ja' era adulta!!!
Mesmo assim ainda continuo me encantando pelas novidades, senao a vida perde a graca!
Abracos
Gra