sexta-feira, 16 de maio de 2014

Sapatos e chinelos e mães

Nas duas semanas que antecederam o dia das mães, meu filho Bernardo estava às voltas com uma redação para homenagear as matriarcas. Passado alguns dias, disse-me com voz sorridente que a professora escolhera três redações de sua turma e a dele era uma delas. No dia seguinte, carregando decepção na voz e no coração, confessou que somente uma das redações foi escolhida para estar em um folheto entregue às mães e a escolhida foi a de uma colega da sala e não a dele.
Antes mesmo que eu terminasse meu diálogo efusivo sobre o primeiro lugar no meu coração ser ocupado pela redação dele, ele me interrompeu dizendo:
 - A dela realmente era a melhor; ela sabia falar sobre chinelos virados e a morte das mães. Eu nunca soube disso.

Naquele momento não havia nada mais que eu pudesse dizer a ele. 
Silenciei apenas.

E agora vou dizer aqui, em forma de palavras o que nunca lhe ensinei.
Você Bernardo, nasceu numa época em que nós, as mães de primeira viagem nos gabávamos por romper com os padrões que fomos criadas.
Você nasceu na época em que a psicologia nas revistas, nos programas de televisão nos diziam sobre traumas e nunca que nós, as mães modernas, colocaríamos traumas em nossos filhos. Talvez muitos de nossos fracassos se devessem a esses traumas de pais que tinham olhar severo que falavam sem dizer. E com você tudo seria diferente. 
E tínhamos também a ajuda da ciência que não permitia que fiapos de lã, preferencialmente vermelho, pousassem em sua testa para lhe cessar o soluço.
Então um chinelo virado, era somente um desleixo.

Sabe meu filho, eu nunca lhe disse que você tomou banho com um pedaço de telha virgem colocada em brasa na água da banheira para tirar o seu amarelão; acho também que nunca lhe falei que a tia de coração Josefina, enterrou seu umbigo debaixo de uma roseira e eu acredito que tenha dado certo porque você é por demais formoso. Também deixei, contrariando os cientistas, colocarem um fiapo enroladinho em sua testa e o soluço passou.
Quanto aos sapatos virados do qual eu nunca lhe falei, eles existiram na minha infância quando a minha mãe, a avó que você não conheceu, morreu. Mas eu, de alguma forma, soube que não foram eles o culpado.

A tua "eliminação" num concurso de redação me trouxe uma admiração imensa pelas mães que ralhavam o tempo todo com os chinelos virados e bradavam que poderiam morrer. Elas jamais quiseram causas qualquer trauma na sua prole. Era somente amor.
Amor que zelava, que cuidava, que gostava de tudo em ordem.
Os tempos mudam e cada qual tem uma característica, uma marca.

A tua eliminação me fez querer te contar todas essas "coisinhas" e me fez ver que a gente quer ser tão moderno e se esquece de tantos detalhes que são atemporais.

Ah! eu também não torcia as suas roupinhas de recém-nascido para não dar cólicas; apenas espremia entre as mãos e nem pensar em esquecê-las no sereno...

Agora que você já sabe um pouco sobre chinelos virados, dê os parabéns para a sua amiga, de quem quero ressaltar um trecho escrito:


"As mães não são iguais, cada uma tem seu jeitinho, umas mais fofas, outras mais brutas, umas mais fortes, outras mais sensíveis, mas, independente de como é a sua mãe, garanto que qualquer um já "desvirou o chinelo"para ela não morrer, mesmo sabendo que não iria acontecer nada." 
Vitória Souza

A bênção meu filho.

18 comentários:

✿ chica disse...

Nooooooooooossa! Que lindo!!! Adorei ao trecho da Vitória que falou muito bem!

E tu, ao te dirigir ao Bernardo, contando essas coisinhas que nem sempre lembramos de falar, emocionou!

Adorei e qual mãe não fez isso? Sempre querendo o melhor para os filhos! Muito lindo, um encanto passar aqui!Aliás, isso é rotina! beijos,chica

Luma Rosa disse...

Oi, Ana Paula!
Emocionante! Eu me peguei sendo filha e sendo mãe... Também nunca quis repassar superstições ou rituais que pudessem contribuir para o desenvolvimento de uma personalidade obsessiva e/ou compulsiva. A maioris das mães possuem mania de organização e se as crianças fazem tudo direitinho - elas terão menos trabalho e de quebra estarão "ensinando" um mundo perfeito.
A minha mãe era muito chata com roupas do avesso, portas de guarda roupas abertas e outras mil coisas. O que acho mais graça é que os pequenos da atualidade são bem mais práticos e por possuírem um canal de comunicação melhor com os pais, questionam mais! Arrumar a cama todo dia para quê? E ainda argumentam: A cama desarrumada cega os ácaros e abafadinhos debaixo dos lençóis, eles se reproduzem!
Mesmo com toda a capacidade que temos da compreensão desse mundo encoberto por mitos, porque eles estão presentes no nosso dia a dia, queiramos ou não, eles criam significados mentais e inscrevem a pessoa em "tribos" e esses rituais, levam à sentimentos de coletividade - Quem nunca ouviu: "na minha família, nós...", são momentos e emoções compartilhadas que de certa forma dá sentido a vida e "dribla" a morte.
Bacana o seu filho reconhecer o trabalho da colega! Isso prova tanta coisa, mas principalmente o respeito e habilidade social. A assertividade é uma característica que vai muito além do que gestos robotizados podem ensinar.
Beijus,

Tina Bau Couto disse...

Coisas mais linda ele, você, a Vitória Souza, as redações, as relações e histórias entre mães e filhos

Chinelo virado aqui na Bahia é agorar a mãe, sei disso desde sempre, mas acho que usar os chinelos em golzinho nos muitos babas (peladas, futebol de rua) que joguei e o chinelo ficava virado e nada acontecia a minha mãe que sendo espanhola não tem essa maldição bem pode ser outra explicação, me tirou essa zica da cabeça
Passar o fundo de um chinelo no outro para tirar a sujeira ou bater um noutro, dizem faz mal
Como faço isso!
E como me faz um bem, adoro!

Histórias de chinelo virado de ponta cabeça, menino que ficou na cabeça com a sua redação que não ganhou e histórias que disso germinou, pura sorte estar nas beiradas e ganhar tudo isso de sobremesa, após amoqueca de ovo que sobrou de ontem e que enviei a receita para seu e-mail

Não torcer as roupinhas de recém-nascidos para não dar cólicas é novidade que amei, aqui eu conferia, aprendi com minha mãe e conferis nos filhos alheios as dobrinhas de roupas e lençol qd estão dormindo para não marcar a pele

Marcas deles em nós e em nós deles, com crenças, fitas vermelhas na testa para soluços, fundo de colher de sopa também serve, perdas e ganhos de toda a vida e afeto para dar e vender

Sonia Tolfo disse...

coisas comuns a todas as mães e que por vezes julgamos tão sem importância, não é? Escreveste um lindo texto, parabéns!
Abraço ao Bernardo e a ti, mãe!
Sonia

Ana Cecilia Romeu disse...

Ana Paula,
que texto o seu!
Acredita que eu não sabia dessa do chinelo virado? Mas sei de que não podia cortar as unhas à noite, se não a mamãe... De qualquer forma, muitas dessas crendices tem a ver com a ordem e limpeza em casa. Pois, obviamente, uma criança ao cortar as unhas à noite, tem mais chances de se machucar e sujar o chão.

E, sim, todas nós mães temos nosso próprio jeito, mas na essência, todas que se preocupam com seus filhos tem uma conduta muito parecida, muito mesmo :)

Fiquei maravilhada com teu texto, e o trecho da Vitória Souza foi muito ilustrativo.

Beijos para ti e teu filho!

Felisberto Junior disse...

Olá,Boa noite, Ana Paula
Como vai?
Penso que crenças,superstições, clichês,rituais é parte essencial do ser humano, por fazerem parte da cultura que o expressa - sem que ninguém saiba ao certo a origem, muitos foram passados por meio das gerações... por vezes,tínhamos medo,e por vezes , entre outras razões, às vezes era importante abraçar-los, os "clichês,superstições,rituais" e tirar o melhor proveito deles e fazer uma bela crônica...
ah sim, belo trecho da redação vitoriosa da Vitória...
Abraço ao Bernardo!
Obrigado pelo carinho,bom final de semana,beijos!

Cristiane Marino disse...

Ana Paula, que post lindo!
Fiquei com lágrimas nos olhos…
Achei muito bonita a sua declaração de amor.
Eu desviro todos os sapatos em casa até hoje…
E faço todas as simpatias e rezas que aprendi desde a infância e mais ainda com o nascimento do meu filho, não me preocupo se é científico ou não, faz parte da tradição da família, da nossa história e isso é o que importa.
E além do mais, assim ele vai ter coisas interessantes para contar para os netos, não é?
Bjs

lis disse...

Oi Ana
Cada um mais lindo que o outro,poemas que espremem o coração e o deixam quentinho_ seu filho a coleguinha e o seu 'grand finale'.
Parabéns.
Muito muito bom_ nada a acrescentar aos outros comentários,
Só enviando abraços para agradecer tão bons post's.Li os anteriores o do vozinho também me pegou ... rs
abraços Ana

Rejane Menezes disse...

Adora suas crônicas, parabéns pelo excelente texto e um forte abraço do
http://natalparasonhar.blogspot.com.br/

Calu B. disse...

Há tanta verdade amorosa em tudo o que vc nos conta, Ana, que me vi pequena, grande, filha, mãe e agora avó a repetir algumas dessas inócuas crendices, as mesmas que jurei não repetir e acabei me rendendo à tradição carregada de amor que mora nesses simples saberes antigos.
A Vitória e o Bernardo compuseram páginas recheadas de sentimentos e pra mim, ambos marcaram a atividade com suas emocionantes redações... as mesmas que vc nos presenteia aqui.
Bjkas,
Calu

CamomilaRosaeAlecrim disse...

Menina...me pego pensando que preciso conversar mais com minha filha e contar tantas coisas da vida! Sabedoria, de vida vivida e de amor que vc passa para seus filhos...muito linda declaração!
Perfeito texto de Vitoria! Eu tb desviro os chinelos!
Beijos
CamomilaRosa

Pandora disse...

A maternidade enternece meu coração... Vocês e suas muitas formas diferentes de amar são enternecedoras e inspiradoras ao mesmo tempo....

Rita Sperchi disse...

Que lindo amiga, a gente se emociona com a palavra MÃE....e como vc disse tem d etodo jeito até eu que sou uma babona com meus filhos, já fui um pouco afastada, mas eram outros tempo ,filhos pequenos e a situação precária...Hj estou mais amadurecida e mais amiga....me orgulho disso
Bjuss com meu cari

Bom dia de domingo

└──●► *Rita!!nho a vc!!

Suzy Rhoden disse...

Nossa, que texto mais lindo! Ainda que todos seus textos sejam belos e muito bem escritos, este tem algo de especial, um diferencial: foi escrito primeiramente para seu filho! E nós de metidos estamos aqui lendo rsrsrs
Adorei suas palavras, seu reconhecimento às mães tão antigas e cheias de superstições, que tanto ensinam sobre amor, ordem e limpeza a nós, moderninhas. Acabo de constatar que também ainda tenho muito a conversar com meus filhos...

Beijão!

thalento arnônimo disse...

Gostei do post. No judaísmo é costume ficar de meias em casa durante a semana de luto (“shivá”). A vida toda eu ouvi da minha mãe para jamais ficar de meias em casa para evitar o mau agouro.

Anne Lieri disse...

Ana,maravilhoso é pouco pra esse teu texto! Me sensibilizou porque filhos mexem demais com o coração da gente! E essa história de chinelos tb nunca disse á minha filha...bjs,

Amara Mourige disse...

Nossa passou um filminho e voltei a infância!Até hoje eu não gosto de chinelos virado.
Lindo demais, parabéns pelo belo texto!
Beijos
Amara

Moro em um Kinder Ovo disse...

Lindo e comovente texto. Seu filho sabe, com certeza, que todos os acertos e erros são frutos de um amor sem fim. Um amor que não cabe no peito e transborda. Um amor que está presente em cada letrinha que você usou nesta crônica tão linda.