domingo, 23 de novembro de 2014

Impresso na pele

Ela já estava sentada no banco alto em frente ao balcão. Shorts e regata.
Fixei o olhar em seu tornozelo que trazia uma tatuagem.
Quase um hipnotismo. Eu nunca vira uma tatuagem como aquela.
A pele muito alva que recobria o corpo gorducho, jovem, simpático, sorridente, esbanjando vitalidade, tornava ainda mais belo o ornamento.
Traço fino e negro compunham a simplista imagem de um cabide. Apenas um pequeno cabide.
Com o olhar fixo e encantado tive que explicar carinhosamente para meu velho pai, já falecido e nascido no remoto século passado que, as tatuagens hoje não são marcas marginais. Na verdade elas contam as histórias que as cicatrizes contavam no passado.
Hoje não existem mais aquelas marquinhas onde se lia que você brincava de esconde-esconde e resolveu subir na mangueira e aquele arranhão quando escorregou...
Nossos bebês ganham joelheiras para proteger os joelhos durante o engatinhar; crianças não sobem em árvores para se esfolarem e também não há carrinhos de rolimã. Até mesmo o mertiolate não arde mais. Então escolhemos tatuar nosso corpo para contar uma história.
Meu velho pai, ao menos, parece refletir olhando também para o cabidinho.
Eu, que não tenho histórias tatuadas, sinto um impulso tardio. Poderia sim ter tatuado um cabide: ele significaria "passagem". Um dia, eu e a Chica, escrevemos sobre os cabides que de repente ficam pequenos para o uso de nossos pequenos. O viço de minha carne hoje é tardio.
Quando começo a folhear a pele alva da moça sob o cadinho tatuado, surge a velha sobrevivente do holocausto e me relembra a sua história. Contou-me mês passado pela tv.
Ela tinha um número tatuado, não de traço fino e delicado como da moça alva. Era grosseiro e não me recordo referência a cor.
Tentando reconstruir a vida em outra pátria, lembrava dos dias ensolarados em que pessoas pousavam o olhar no braço dela e lançavam-lhe um olhar reprovador.
Assim que conseguiu trabalho e dinheiro, pagou para remover uma parte de seu destino impregnada na pele.
Participou certa vez de um encontro com octogenários sobreviventes que exibiam de alguma forma triunfantes um número tatuado. Ela não conseguiu. Olhar para aquilo era inalar o odor do campo de concentração. Peço a ela que aprecie comigo e tente imaginar uma linda história.
Ela se esforça.
Eu tento imaginar um avô com fita métrica envolta no pescoço exercendo a tarefa de um alfaiate.
A moça homenageia-o.
Poderia bem ser a avó que a criou, tirando o sustento de uma máquina de costura singer com pedal e cada vez que ela toma banho e passa creme hidratante sobre o cabide tatuado, pode ouvir o som da máquina tatuando linhas pelas diferentes texturas dos tecidos.

Ela se levanta e sai. Bem quando eu começava a esboçar uma vontade de me aproximar dela e indagar o motivo do cabidinho.
Ela se foi.
Fiquei sem saber.

Às vezes é tão melhor ficar sem saber...

Mas eu insisti e fui falar com o tio dela que é meu também. E também seu! O tio google, que prontamente respondeu.
É uma tatuagem clichê, tão comum como sei lá, qualquer coisa de hoje em dia.
Para quem estuda moda, aprecia moda ou simplesmente não sabe que tatuagem fazer pela primeira vez e ganha como sugestão um simples e fácil cabidinho preto.

Ah, tudo bem, eu repito a mim mesma.
Eu nunca tinha me deparado com cabides tatuados. Para mim sempre terão uma delicada história.
Assim como a moça que tatuou uma gaiola aberta num braço e no outro os pássaros voando.
Gosto de imaginá-los inspirando liberdade nos pulmões da moça e depois se banhando em amor no seu coração antes de espalhá-lo através do seu canto.

imagens google

E você imagina histórias ao se deparar com tatuagens?!





12 comentários:

lis disse...

Oi AnaPaula
Essa da tatuagem do cabidinho realmente me surpreende e encanta.A gente só tem que dar asas a imaginação... rs
Seu texto me faz lembrar do quanto eu não gostava de tatuagens e hoje já as aceito e até gosto quando são delicadas como esse cabidinho.::))
Uma feliz semana e abraços Ana

Pandora disse...

Hoje quando fui tomar banho reparei nos meus joelhos, repletos de cicatrizes... como não sorrir olhando para eles, penso nos meus primos e nas nossas aventuras escadarias acima e abaixo. Uma pena que as crianças de hoje não tenham esse tipo de aventuras!

E sim, quando eu vejo as tatuagens eu me pego imaginando as histórias que elas escondem. As vezes eu não consigo aguentar e pergunto, mas já aprendi que é melhor não saber... é melhor se deixar devanear e imaginar como vc fez tão lindamente Ana!

Dra. Cristiane Marino disse...

Oi Ana Paula, para mim os cabidinhos são novidade e olha que eu já vi tantas tatuagens… respeito quem faça, mas não gosto.
Adorei a história que você criou à partir de um fato tão inusitado.
Bjs e ótima semana

Poesia do Bem disse...

São marcas que podem contar muita história ou apenas servir de um selo ao modismo, tanto a revelar, ou dar asas ao imaginário e fluir em belo escrito como este teu. bjs

✿ chica disse...

Ana Paula, nunca vi essa tatuagem de cabidinho. Não deixa de ser bonitinha, se assim pequeninha como mostraste a do Google. Mas eu não gosto de tatuagens, e ainda bem , nunca gostei. Imagina na minha idade se tivesse feito no pescoço, com a lei da gravidade e enrugamento, onde estaria agora?rs ...

Gostei das evocações que a tatuagem provocou em ti...Lindas ,mas melhor n~´ao perguntar e ficar apenas com a do Google.

Sempre legal te ler! bjs, obrigadão sempre! chica

Ana Bailune disse...

Um belo texto!
Eu temo as tatuagens, justamente porque elas contam histórias. Às vezes, existem histórias que, mais tarde, desejamos esquecer...

Tina Bau Couto disse...

Antes de responder sua pergunta eu adorei essa observação da atual falta de cicatrizes q contam histórias e algumas são troféus.

Tenho algumas e as histórias delas e sua observação vão virar post lá

Ñ imagino histórias na maioria das vezes, em algumas sim. Vejo profissão, gostos, sintonias.

Admiro algumas pela delicadeza ou criatividade.

Penso fazer o simbolo tipo um T com topo aberto, tipo base com um fiapo de um desflorado dente de leão, que representa o signo de Aries um dia, despenso, repenso.

Todas as over demais e q tomam um mesmo e grande espaço ñ gosto.

Tatuagens como já contei aqui me remetem a cuidar que meu irmão ñ tivesse um arranhão e hj é cheio delas.
Disse fará uma nova. Já que fará eu mandei a sugestão de fazer o chapéu do chapeleiro maluco.

Enfim!
Cabide nunca vi.

Amara Mourige disse...

Ana, eu nunca vi de cabide!
Minha sobrinha é tatuadora profissional ela tem o corpo todo tatuado,não aprecio muito,mas já fui cobaia dela no inicio da sua profissão, e tatuei uma borboletinha no pulso.Hoje sou uma velhinha tatuada! Beijos
Amara

Luma Rosa disse...

Oi, Ana Paula!
Eu prefiro romantizar, como você fez no início da postagem. Fiquei triste em constatar que a sua história não foi real. Imaginei a menina ainda pequena, vendo o avô tirar as medidas dos clientes e por fim, homenageando-o com a tatuagem. Dei uma parada na leitura e contei ao meu filho, que morre de vontade de fazer uma tatuagem, mas não faz, pq diz que tem que dizer algo, mas até agora, nada fez com que ele sentisse a real necessidade de marcar a pele. Ele também tem a pele alva, apesar da praia, nao toma sol, é um roqueiro nato. A mãe (eu) já tem uma tatuagem, feita escondida da avó quando tinha 12 anos. Escondi tanto tanto para ela não ficar brava, até que um dia eu mesma esqueci da tatuagem e, tomando banho com minha mãe, ela perguntou o que era. Contei morrendo de medo e ela disse simplesmente "Que legal". Acho que me decepcionei... e disse para ela "Nunca mais sai, mãe..." e ela reafirmou: "Melhor ainda". A nossa cumplicidade se confirmou nesse dia, pois eu fiz a tatuagem em um lugar em que o biquini tamparia. A tatuagem seria somente minha. A minha mãe gostou pq viu que eu fiz para mim e não para os outros. O importante da nossa história é isso: Fazer para nós mesmos e não como forma de se mostrar para os outros.
Beijus,

Tina Bau Couto disse...

Adorei saber desse desenho da amada Amara
Saber algo pessoal
Imaginar descer no Rio e borboletas tatuadas procurar

✿ chica disse...

ANA PAULA, VOLTEI AGORA DA FESTINHA NA PIZZARIA E ENCONTRO TEU CARINHO EM PALAVRAS LINDAS! oBRIGADÃO! vALEU! BJS, CHICA

Bia Hain disse...

Oi, Ana! Que texto tocante!!! Curioso mesmo o cabidinho... tem razão deve haver alguma história consciente ou inconsciente atrás da escolha das tatuagens. Eu já disse que tatuaria pequenas estrelas, uma borboleta ou o nome como chamo quem amo, tudo muito pequeno e delicado. Assim como a tatuagem já foi simbolo de preconceito e disriminação, como lembrou, simbolo de prostitutas... cruel, nesse sentido. Gostei mesmo foi da ideia da moça que tatuou num braço uma gaiola aberta e no outro pásaros, achei o máximo! Um abraço!