domingo, 30 de novembro de 2014

Dia de Domingo

"Mas você não se incomoda mesmo?"
"Não."

A interrogação, dirigida a mim, partira de uma senhora, que ao ouvir minha resposta, meneou a cabeça deixando bem claro que ela não acreditava na minha resposta.
Emendei então "ele sempre volta com um presente!"
A expressão facial, a inclinação da cabeça, o esboço de um sorriso, eu não soube traduzir, não saberia dizer se ela acreditou. E eu não menti quando disse que sempre ganho um presente.

Esse diálogo se deu perante à incredulidade da mulher ao saber que eu não me importo que meu marido trabalhe num domingo. Aquele domingo que amanhece com a promessa de ser uma combinação perfeita entre o azul do céu e o sol colorindo a cada minuto e te chamando para não ficar em casa. Eu verdadeiramente não me importo, mas fico ansiosa pelo presente.

Hoje ele chegou à tempo do almoço e me entregou o pacote.
Tinha a seguinte história embrulhada:

"Uma velhinha de 89 anos me pediu para ir embora pra casa hoje porque tinham chegado pessoas da família que ela quer muito bem e ela queria almoçar com eles neste domingo.
O nome dela é Rosa. Eu brinquei, cantarolei alguma coisa com rosa e ela devolveu me chamando de "meu cravo"e sua companheira de quarto, lá no cantinho disse - "é cravo nada Rosa, isso é um anjo que você arrumou!"

Quando eu estava indo embora, um homem alto, sisudo parou na minha frente e disse que eu havia dado alta para a mãe dele e que ela não tinha condições de ir para casa.
O tom de voz dele era mesmo para criar complicações.
Respondi: "é verdade, tua mãe não tem condições de alta, mas você e eu sabemos que ela não vai melhorar além disso, ela tem um câncer terminal. Eu não dei alta para ela, eu estou atendendo um desejo dela de passar um domingo ao lado de familiares que ela preza muito, além da vontade que ficou ao saber que no almoço haverá polenta com rabada. Pode ser que amanhã ela precise voltar, mas hoje ela terá um especial dia de domingo."

O aperto de mão foi forte demasiado, talvez para conter as lágrimas do filho.
Ele disse não ter pensado dessa forma.

Ah! É um presente de uma delicadeza, de um aprendizado que me comove. 

Agora já é domingo à noite e eu quero imaginar que dia lindo dona Rosa teve com os seus!

* Esta é a postagem de número 800 e quero celebrar ter conseguido escrever, o que para mim é muito(!), dedicando-a a meu marido, amor e meu presente!

8 comentários:

✿ chica disse...

Arrepiei de emoção! Que lindo! E que bom que todos tivessem a sensibilidade do teu marido em perceber a importância dela passar um domingo em casa, comer o que queria e sentir-se em casa!

MARAVILHA e que bom que o filho entendeu! bjs, adorei! Sensibilidade pura! chica

✿ chica disse...

Esqueci! Parabéns pelo 800 textos, todos lindos sempre ,pois a cada um novo, é assim que os vemos! bjs,chica e que venham muiiiiiiiiitos mais!

Clara Lucia disse...

800? Isso é a glória!
E me divirto muito com vc, ou me emociono... ou simplesmente leio e gosto... rsrsrs

Momentos delicados, únicos, simples, intenso...
Tbm queria saber como foi o dia de Rosa...

Uma ótima semana, beijos!

Poesia do Bem disse...

Parabéns por mais um texto lindo, me emociono muito ao te ler.

Moacir Willmondes disse...

Bonita homenagem, Paula.

Gosto da fluidez com que escreves, é tão natural.

Um abraço!

thalento arnônimo disse...

Parabéns pelos 800!

Dra. Cristiane Marino disse...

Que linda declaração de amor, Ana Paula.
Parabéns pelos 800 posts, não é nada fácil…
Bjs
P.S O meu marido também trabalha aos domingos e feriados e eu me incomodo sim.

A Menina das Ideias disse...

Foi um lindo texto Ana! Parabéns! E bom domingo kkkk