domingo, 2 de novembro de 2014

As flores de finados

"Ih, num sei nem pra que vão. Vai chover mesmo. Finados sempre chove."

Essa era a fala de alguma tia velha quando nos ouvia planejar nossa viagem para o litoral. Éramos todos muito jovens, recém chegados à maioridade e tudo o que queríamos naqueles dias de um feriado prolongado era ficar longe das tias velhas que falavam com voz agourenta e nos recriminando, que choveria.
E chovia mesmo.
Alugávamos uma casa na praia e a turma "rachava"todas as despesas - desde o macarrão, que era mais fácil de fazer, até passar um pano na casa, o que causava na maioria das vezes alguma briga pois sempre tinha a turma dos folgados. Mas era assim: colchão ruim e fedido, panelas um tantinho ensebadas e nada disso importava.
Só que chovia. Sempre chovia.
Era uma chuva triste e fina e em algum momento a gente achava que era a praga da tia velha que tentava estragar o passeio.

No ano passado, nesta exata data, fui cedo ao mercado. Logo na entrada algo não habitual do dia a dia: muitas prateleiras de flores logo ali, bem na entrada, abarrotadas de vasos floridos; crisântemos várias cores eram a maioria.
Peguei o pão e por algum motivo precisei voltar ao mesmo mercado já anoitecendo.
Estavam lá ainda as prateleiras,  as flores e a funcionária que comentou: "Que estranho esse ano, não vendeu flores, acho que o povo não vai mais ao cemitério."

Ano passado fez um dia lindo, de deixar a previsão de tia completamente errada.
E eu me lembro de ter tido o mesmo pensamento da funcionária das flores - as ruas estavam repletas de pessoas passeando tranquilamente, tomento sorvetes, andando de bicicleta na ciclofaixa e o parque próximo de casa lotado.

"É provável que as visitas aos cemitérios se tornem cada vez mais raras"- estava escrito no jornal; eram palavras de Contardo Calligaris.

As pessoas mudam de lugares, cidades, estados e deixam para trás seus mortos; vivemos um momento de culto à tudo que seja jovem, vivemos um momento de total felicidade nas redes sociais.
Mas...
Também conhecemos pela globalização, pelo advento da internet outras maneiras de celebrar o dia de finados, como por exemplo na cultura mexicana ou japonesa.
Acho que não é uma questão de cemitérios e sim de permitir as lembranças.

Lembrei-me de uma historinha que há muito tempo li que falava mais ou menos o seguinte: uma mãe tinha perdido seu filho e estava muito triste e ao mesmo tempo com muita raiva pois achava injusto e pediu a Buda que queria seu filho de volta. Buda então disse à mulher que fosse de casa em casa no vilarejo e se ela encontrasse uma casa onde não houvesse um morto na família que teria seu filho de volta.
Em cada casa do vilarejo uma história mais triste que a outra; em cada casa do vilarejo havia sempre um morto. E assim a mulher compreendeu, mesmo com sua tristeza, que a vida é assim, gostemos ou não.

Também li que há projetos ( ou à essa altura já seja real ) em alguns cemitérios você chega com o seu celular posicionado perto da lápide para que o aparelho leia um código que está ali e você passa a ver fotos, histórias da pessoa.
Já há também um cemitério virtual, pensando especialmente nas muitas migrações e imigrações que são cada vez mais constantes.
Neste cemitério virtual é possível construir ou visualizar  a história das pessoas que você conheceu ou se for destemido pode deixar a sua própria história registrada ali - people memory.

Que a nossa saudade não seja dilacerante, que o sol que nasce e se põe a cada dia se encarregue de amainar a dor e possamos lembrar, recordar os momentos vividos com nossos mortos com serenidade, mas que a gente não deixe de lembrá-los. Trazemos sempre um pouquinho de alguém em nós.

9 comentários:

✿ chica disse...

Lindo,Ana Paula!@ Iniciando com as chuvas de finados que sempre estragavam qualquer plano de praia ou coisas assim,.Aqui no Sul, ainda companhado de muito vento esse dia!.

E gostei da história do Buda e realmente não há quem não tenha perdido algum ente querido e temos que conviver com essa falta, mesmo a saudade e quando essa se instale, que seja dos bons momentos vividos com os que já se foram! beijos,tudo de bom,lindo dia! chica

Rita Sperchi disse...

Com chuva ou sol tem sempre quem lva flores aos entes queridos, hj estou triste pelas perdas que já tive, nunca esqueço, mas parece que hj é o dia de chorar ou se alegrar de alguma maneira......gostei de ler e ter a certeza que el algum lugar eles estão com Deus.

Abraços com meu carinho de sempre
Bjusss

Rita!!

Pandora disse...

Lindo mesmo! A Chica está certa! Nós vivemos mesmo em um mundo de culto a juventude, isso é tão grande que as pessoas confundem juventude com beleza e esquecem que o destino de todos é envelhecer e morrer e isso não é necessariamente ruim, o que eu acho necessariamente ruim é esquecer as coisas importantes, é não para e lembrar dos que se foram e o que nos ensinaram enquanto estavam aqui.

Minha família é evangelica, então nós não somos de cerimônias tipicas do dia do finados, até o "Dia das Bruxas" é tabu, mas ontem eu, minha mãe e Rafa, nos pegamos lembrando de Voinha, rememorando suas trajetória e lembrar é como ter ela mais uma vez por perto!

Santa Cruz disse...

Ana Lindo texto adorei cá em Portugal também costuma chover ontem não mas hoje já choveu e bem. Bom domingo
Beijos
Santa Cruz

Poesia do Bem disse...

Olá Ana, foi isso que constatamos hoje por aqui. Cidade pequena dia de finados era de muito movimento, amigos e parentes vinham visitar os mortos, . Minha mãe mora perto de um cemitério acredita hoje não passou uma pessoa sequer para lá? Minha irmã disse até ainda: O povo hoje não se preocupa nem com quem tá vivo imagina com quem já morreu! Nós por nossa religião não visitamos os mortos, mas claro sentimos extrema saudade e lembre muito de meus avós. No blog tem um segredo de vida vem ver tbm as lindas imagens!

Evanir disse...


Sua amizade sempre foi muito importante para mim
sem duvidas acredito ter lutado muito nesses anos
embora poucos estavam comigo a quase dez anos atrás.
Hoje estou passando para deixar um
pouco do perfume que ficou no frasco.
Embora tenha capacidade de entendimento,
que passado é perfume de primaveras mortas.
Agradeço por tua amizade tão especial,
e por me fazer sentir que ainda sou
alguém com quem você se importa.
Deus te abençoe ..sempre..
Um abraço grande ,
e especial.
Com muito carinho.
Evanir.
Tenha uma linda ,
e abençoada semana..
Eu amo vir a seu blog gosto imenso.
Em 14 de Julho 2013..
Hoje posso chamar de ano dourado..
Estou matando saudades!!
Amiga verdade sua postagem
todos finados chovia aos cântaros..

Tina Bau Couto disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Tina Bau Couto disse...

Acho tão poético ir ao cemitério
Tradição
Consideração

Conversar com quem lá não está mas ali foi "deixado"
Levar flores, fotos
Fazer uma visita

Adorei as antigas e novas histórias
E para mim a morte ñ é o fim

Carmem Grinheiro disse...

Ana Paula,
Este seu post me faz dar conta do quanto nós mudamos ao longo da vida. E não considero sinal de fraqueza, é tão somente, aprendizado e experiência de vida que se vai acumulando e nos moldando.
Se antes, em moça eu não entendia nem achava piada a isso de haver dia para lembrar e "honrar" os já falecidos, hoje, eu acho de suma importância que se mantenha a tradição.
Não como uma obrigação com cheiro a hipocrisia, mas como um exercício de não deixar cair no esquecimento aqueles que no fundo são a razão de nossa existência. E a data pode servir de "pretexto" para recordar histórias conhecidas dos antepassados e passá-las aos mais novos, como nossos avós e pais fizeram conosco e nos fascinavam, criando com as nossas crianças e jovens um elo com o passado. Dar-lhes aquilo que é a história deles próprios.

bj amg