quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Acabou o gás

Esta é uma frase que cada vez menos ouvimos.
O gás agora não acaba. A não ser que você se esqueça de pagar a conta. Mesmo assim ele não acaba, é cortado.
Minha casa aqui no quarteirão é a única onde o gás ainda acaba.
Todas as outras aderiram ao novo investimento da região - o gás encanado.
A quebradeira seria tanto por aqui: chão, paredes, azulejos que achamos melhor manter o gorducho botijão acomodado numa casinha feita só para ele. E assim sigo feliz por a cada trimestre oferecer trabalho ao entregador.

E pensar que este quase extinto recipiente já figurou até como presente de casamento.
Minha mãe era uma das primeiras a se adiantar quando recebíamos o convite de um dos muitos primos que se encarreiraram a casar.
"Vamos comprar um bujão de gás para a Edna".
Era presente bom naquela época.
Era sempre bom ter dois boticões: um em uso e o outro ali do lado, ou guardado nalgum canto para quando acabasse o primeiro.
E era preciso ficar atento quando se tinha um bujão vazio em casa. Assim que o caminhão, enorme e lotado dos cinzentos barulhentos passasse, haveria de se repor. E que passasse num dia bom, depois do pagamento.

Vi sobrinho do pai constrangido pedir um dinheiro emprestado pro gás. Vi o pai nervoso porque tinham roubado nosso botijão que ficava escondido lá nos fundos do quintal. Era uma grande perda ficar sem um dos bujões.

Tinha sempre alguém que fazia uma saia para o gorducho que de repente ficava simpaticamente feminino.
E eu já não me lembro quando os caminhões encolheram para caminhonetes, os bujões ganharam roupagem verde ou azul e música ao invés dos gritos dos moços.
Agora também não temos que esperar pelo dia que passava o caminhão ou sair em busca de algum depósito mais ou menos confiável.
"Ih, comprei lá naquele do final da rua e acabou tão rápido, nem deve vir cheio, mas fazer o quê, na hora da necessidade né minha filha... "

Não se pode esquecer de jeito nenhum os cuidados na hora da troca, que eu nunca aprendi a fazer e sempre peço pro moço que sempre me pede ao final uma esponja ensopada com água e detergente ou sabão que o moço passa que é para ver se tem vazamento. Se fizer bolhas, precisa reparar.

Mas até isso se modernizou. Dessa vez o moço chegou, estacionou aqui no portão da garagem, desceu e primeiro me entregou um brinde - sempre tem um brinde ( pano de prato, pote plástico e comidinha pro cachorro! ), e quando estava quase terminando, eu corri para a cozinha, preparei uma esponja bem espumante e fui lhe entregar quando ele falou:
"Não precisa dona, agora a gente usa um spray".
Tirou do bolso uma latinha, agitou no ar e espirrou.
"Tudo ok, bom dia! "

Se eu tivesse o gás que não acaba, jamais saberia daquela modernidade que substituiu a esponja ensaboada.
Que será que tem na latinha do spray?


8 comentários:

Beth/Lilás disse...

Interessante tua crônica do dia a dia!
Realmente, quase não vemos mais os tais botijões nas casas das grandes cidades, mas lá em Petrópolis os temos, geralmente tenho dois para não correr risco de ficar sem.
Nunca vi tal sprayzinho, agora fiquei curiosa com esta modernidade. rsss
abraço carioca


Tina Bau Couto disse...

Amei o: "Era presente bom naquela época"
Era p mim uma cx de lápis de cores e um bloco de papel

Sempre me orgulhei de saber trocar o gás e a resistência do chuveiro
Lembro da música do caminhão do gás e de ser coisa fina ter 2
Lindas eram as saias deles e a roupa do liquidificador combinando

Amei a contação, as recordações e reflexões ;)

Gracita disse...

Que linda a sua crônica. E narra com exatidão a rotina que vivemos e no meu caso aqui no interior ainda assim. É o gordinho que nos salva. Gás canalizado só nos prédios.
Beijos

✿ chica disse...

Lindas recordações e outras nem tanto..Lembrei também o medo de trocar quando fazia aquele "espirrinho" chiado , eu sentia vontade de atirar longe e pedir socorro!

Tudo muda, mas nas casas realmente ainda os vemos!

Gostei das modernidades, no meu tempo era sabão mesmo!


Beijos,tudo de bom,chica e que nunca acabe o NOSSO gás!

lis disse...

Felizmente retirei aquele gorduchinho da minha cozinha Ana
Ocupava espaço, precisava sempre esconder de alguma forma ou com esse vestidinho ou debaixo da pia, além do cuidado com vazamento ou com o esquecimento em pedir outro .
Com o encanado basta fechar e abrir o pininho e eis o gás prontinho para acender o fogão.
Saudade não,amiga! rs
Aos entregadores o meu respeito e o desejo que futuramente trabalhem nas concessionárias :))
Como sempre, excelente crônica.
um abraço

Poesia do Bem disse...

Em SP nós tinamos o encanado e o engraçado eram as vizinhas dizerem que o meu cronometro sei lá se é assim que chama, nunc amudava, era pq eu mal cozinhava hehe. Aqui ninguém usa o encanado a cidade toda compra bujão, minha mãe tem dois pq tbm usa fogão grande devido salgados que faz para meu irmão vender. Aqui é uma luta se o gás acaba á noite, ou do meio dia ás 14 pq aqui tudo fecha hehe, e no domingo nem se fala. Aqui o moço vem entrgegar e ainda ganhamos um pano de prato ou uma latinha de plástico heheh

Karina disse...

Oi Ana!

Aqui ainda é bujão e sabe quanto custa um com a carga? 90 reais!!!! Sei porque tivemos que desfazer a casa da minha vó e lá tinha dois e ia tentar vender, mas dai meu pai não decidiu e acabou ficando em casa. Ou seja, somos mais chiques temos 4! kkkkkkkkkk E se acabar o gás teremos q correr no posto de gasolina, pq tá tudo vazio!

Beijos

Ana Bailune disse...

Que crônica bacana!
Aqui em casa o gás acaba. Mantemos dois botijões, um de reserva sempre.