sexta-feira, 17 de outubro de 2014

O jogo do bicho

imagem google

Não vejo mais reclamações nos blogs derivadas dos números que temos que digitar para provar que não somos robôs.
Minto, minto.
Vi sim. Uma apenas. Com educação, a blogueira deixou nos comentários a sua dica de que essas verificações atrapalham e chegam a impelir os comentaristas.
Uma apenas para as verificações numéricas.
Bem diferente de quando eram verificações por letras.
De tão irritante que era digitar aquelas letrinhas embaçadas, por vezes feito um garrancho só para te confundir e oferecer-lhe nova tentativa, surgiram naqueles tempos paquinhas, banires colocados nas laterais dos blogs, textos inteirinhos dedicados a esclarecer aquele infortúnio.
Com os números, tudo é diferente.
Não são banidos, gritados com boca bem aberta para que saiam.
E eu sei o porquê.
Bem, ao menos eu tenho uma hipótese.
Jogo do bicho.
As pessoas não reclamam dos tais números a serem digitados para publicar um comentário porque eles têm uma serventia - são um palpite, uma possibilidade.
Hoje vou jogar no 99 na cabeça.

Ah! Com leu sei disso?
Sou do tempo que jogar no bicho não era contravenção. Era apenas o troco do pão.
A gente nem ouvia falar de Carlinhos Cachoeira não.
Era só o seu Joaquim lá da venda.
Tempo que criança ia comprar pão à pedido da mãe.
E o pão era bengala ou filão.
O seu Joaquim enrolava um pedaço de papel no meio do filão, grudava ali um durex e a gente levava debaixo do braço.
Família grande comprava a bengala inteira. Pequenas famílias, pediam meia bengala.
No caminho, e a gente ( criança ) nem percebia, ia beliscando o miolo da meia bengala e ela chegava esburacada em casa. Vinha primeiro a bronca e depois a mãe perguntava: fez o jogo pro seu tio?

Era sempre assim: o dinheiro do pão sempre tinha troco, umas moedas e o tio sempre tinha um sonho, ou com um número, ou com bicho.
Então a gente ( criança ) pedia o pão e dava o papelzinho para o seu Joaquim com o número que o tio tinha sonhado. Seu Joaquim tirava a caneta bem apoiada na orelha, pegava um bloquinho encardido, tirava o papel carbono azul cobalto colocava entre as folhas e marcava o bicho pedido pelo tio.
Às vezes, ele fazia antes as anotações numéricas, punha com habilidade a caneta atrás e na parte superior da orelha e então ia cortar o filão ao meio e embrulhar e os dedos estavam sujos do carbono azul e da caneta ensebada, mas era um tempo em que a gente não fazia conta disso não.
De tarde, a gente ( criança ) voltada lá na venda para comprar a outra metade do pão, mas dessa vez não gastava com jogo não.
A mãe recomendava: traz o pão e não esquece de pegar o resultado para o tio João.
Seu Joaquim entregava um papel pequeno e encardido e engordurado com o resultado do jogo do bicho.

Ih, deu avestruz na cabeça - dizia o tio João indignado, afinal ele tinha sonhado era com o galo.

E foi por causa do jogo do bicho que o tio João arrumou emprego.
Meu tio era analfabeto e o carpete verde-musgo arruinou seu negócio.
Ele tinha uma máquina de raspar tacos e assoalhos e outra de passar cascolac. Mas aí, chegou a novidade em forma de carpete verde-musgo. Era tão chique ter casa com carpete e assim o Tio João ficou desempregado.
A tia Dirce arrumou um concurso para ele no final do ano. Tinha prova de português e matemática.
As letras ela ensinou a partir do nome da bicharada do jogo do bicho e a matemática também.
Somavam os resultados o primeiro lugar, com o terceiro, depois diminuíam; ele aprendeu a conta de vezes e dividir porque em cada grupo de bicho podia haver quatro números.
E foi assim que eu comprei muito pão-filão, fazia jogo e trazia o resultado para o Tio João que passou no concurso e não se incomodou mais com o carpete verde musgo porque agora tinha profissão.

Então por causa do pão, do seu Joaquim, do tio João e sem contravenção, eu acho que toda essa verificação para os comentários nos blogs têm lá uma certa simpatia...
Não temos mais bilheteiros gritando cobras e lagartos pelas ruas ( ou será que ainda existem? ) mas temos as casas lotéricas, quem sabe um palpite bom extraído dos números de verificação dos blogs...
Conta aí vai, quais são os seus sentimentos com esses numerozinhos a serem digitados?!

11 comentários:

Dra. Cristiane Marino disse...

Adorei sua história do jogo do bicho, eu aboli a verificação com os numerozinhos nos comentários do meu blog, é muito fácil, ensino a quem quiser.
Acho aquilo um atraso de vida.
Bjs e ótimo final de semana

Moro em um Kinder Ovo disse...

Sim, diminuíram muito as solicitações para a confirmação de letras e números, mas elas ainda existem.
Nunca usei, apenas reservo o meu direito de verificar antes e liberar depois. Não que eu vá exercer o papel de censura mas é uma forma de ser avisada que um comentário foi postado e consigo barrar os spam.
Só joguei no bicho uma única vez e teria acertado se soubesse interpretar o sonho. Mas depois do resultado pronto, fica fácil ver onde errou. Mas, inspirada no jogo do bicho de hoje vou anotar algumas histórias que tenho e depois publico lá.

✿ chica disse...

Ana Paula, cada vez mais te aplaudo. De uma coisinha chata, fazes uma grandiosa crônica. A bem da verdade ,prefiro os numerozinhos às letrinhas que nos deixam vesgos,rsa.

Adorei as lembranças, principalmente os pães beliscados, com as nossas mãos sujas e tudo com um gosto que hoje a limpeza e idade não nos deixam mais ter. Hoje tuuuuuuuudo faz mal, tudo mesmo.Antes não!

Imagina hoje uma criança fazer o jogo do bicho? Dá cadeia, perda da guarda , etc...

Adorei te ler e pude ver o papel seboso, a caneta fedida ,suja da graxa das orelhas do vendedor da padaria;mercadinho...

! Aqui a chuva continua, cidade está ALAGADA e vemos a natureza que grita e se mostra poderosa.Ela agora faz o que quer. De um lado água demais, noutro, tanta falta fazendo! Lindo fds! bjs, chica

Tina Bau Couto disse...

#ADOREI

Por aqui existem em td canto
E além dos números, os sonhos com bichos ou com pessoas tipo cobra ou outros animais por pareja tb dão em jogo

E através da sua relação de pão, Seu Quim e o tio dele, para mim a verificação para os comentários nos blogs ganhou perdão

Roselia Bezerra disse...

Olá, querida Ana Paula
Nunca joguei no bicho, quando pequena, para os tios todos que jogavam... rs... minha mãe também... entretanto, ia comprar o pão na padaria local...
Já meu pai era de loteria mesmo e até ganhou uma vez... não muito, claro!!! dezenas de anos atrás...
Posso ser sincera? Acho chata demais a tal verificação!!!
Bjm fraterno

Bia Hain disse...

Oi, Ana, como vai?
Seu texto me tocou, de alguma forma. De fato, os números não são tão irritantes quanto as letras, sobre sua teoria ainda preciso pensar, kkk.
Mas entendo o contexto do jogo do bicho. Minha mãe desde sempre gostou de fazer uma fézinha e é impressionante como na leitura de um sonho uma borboleta puxa o gato que é amigo da cobra, enfim... deduções malucas que só quem gosto do jogo do bicho é capaz de compreender.
Sei até quais são os números e jogadas, kkkk, mas pouco joguei até hoje, e até ganhei algumas vezes.
Achei lindo sua tia ensinar seu tio a partir do jogo do bicho. É o amor, que entende dos acessos ao outro como ninguém. Um abraço!

Amara Mourige disse...

Ana Paula, comprei muito pão na venda e beliscava pelo caminho e fazia o joguinho para minha mãe.
Uma vez fiz um jogo e ganhei era véspera do meu casamento com o dinheiro que ganhei comprei o que faltava para o meu enxoval!Doce lembranças!
Bjs
Amara

Calu B. disse...

O pão e o sonho andam juntos a criar um tapete aplainado de boas esperanças, as mesmas que pegaram o tio João pelas mãos e o reembolsaram com tranquilidades compridas.
Cativante história que nos planta sorrisos e fé pra semana que inicia, Ana.
Obrigada pelo carinho de sempre.

Mil bjkas e bom domingo.
Calu

Clara Lucia disse...

Agonia.... sempre repito uma ou duas vezes até acertar as letras.
Ana, já invadiram meu blog com links, coisa chata mesmo. Então eu podia escolher, ou a verificação de palavras ou a identificação dos comentaristas. Fiquei com a segunda e perdi muitos anônimos que comentavam. Infelizmente.
História de minha época essa... voltei ao passado, que delícia!
Um ótimo fim de semana, beijos!

lis disse...

Oi Ana
Fiquei aqui rindo do texto muito bom ! :))
Continuo não gostando e não achando valia nenhuma naquela verificação.
Prevalece a amizade_ mas com números simplificou_ as letrinhas eram insuportáveis, inelegíveis e eu gritava' mesmo kkk
Quanto a baguetezinha é difícil sair da padaria com aquele cheirinho bom e não beliscar ...
beijos e boa semana

Luma Rosa disse...

Oi, Ana Paula!
Eu reclamava muito até saber a função do captcha e recaptcha. Eles além de bloquear bots, também ajudam o Google a digitalizar textos. Toda vez que nossos CAPTCHAs são resolvidos, o esforço humano ajuda a digitalizar textos, anotações em imagens e criar conjuntos de dados de aprendizado, ajudando a preservar livros, melhorar mapas, jornais velhos, transcrever números de rua...
http://www.google.com/recaptcha/intro/index.html
Um grande projeto. Não coloquei no blogue porque muitos não sabem e não queria ouvir reclamações. Então, não me importo mais.
Beijus,