quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Minha intimidade

Nunca, mas nunca mesmo eu imaginei expor aqui no blog a minha intimidade mais privada. A que ocorre no banheiro. Quero dizer, nos banheiros públicos: shopping, livraria grande, aeroporto, hospital.
Não precisa tirar as crianças da sala. Fique tranquilo.
Tire apenas esta menina aí da foto:


Isso mesmo. Peça para a menininha se levantar e sente-se bem ali no lugar dela.
Ótimo. Já posso começar.

Sabe, antes quando eu era do tamanho da menina ali que se levantou, tudo era mais fácil. A começar que nem tinha shopping, quando a gente saía a mãe levava um pão com mortadela e a depender do lugar, a gente lavava as mãos ou não.
Fosse num parque sempre havia um jorro de água saindo da boca de um leão, senão houvesse, não tinha problema: o lanchinho estava devidamente embrulhado no papel de pão.
As torneiras das casas eram apenas torneiras, de dentro, de fora, era tudo modelo tipo de jardim para rosquear a mangueira. Era fácil.
Então aconteceu, na verdade ainda acontece.
Eu entro num banheiro público e na hora de lavar a mão, fico paralisada por alguns instantes ali diante da torneira.
Foi-se o tempo das torneiras tipo asas de borboletas...
Aperto a parte de cima da torneira. Nada acontece.
Angústia.
Sinto-me diminuída perante  toda pequena multidão feminina que higieniza suas mãos com destreza.
Sinto-me incapaz.

De soslaio no meio do meu pânico interno tento encontrar uma resposta.
Há pequenos, muito pequenos quadradinhos ali na raiz da torneira. É ali a goela do leão. Aproxime as mãos e a água surge. Mas se vai tão rápido que não dá tempo para o sabão deixar os dedos. ( tudo bem que estamos em época de racionamento, mas não precisa ser tão pouco assim ).
Mantenho então a esquerda ali perto dos quadradinhos para tirar o resto de sabão da direita. Inverto depois.
De outra feita, sentindo-me um pouco mais experiente, saio do banheiro e vou direto para a raiz da torneira. Nada acontece.

Estaria com defeito?
Já estou tão nervosa que não consigo enxergar os quadradinhos.
É que não tem mesmo. Tento então girar a copa da torneira.
Infrutífero.
Essa é de apertar.

Aperto e enquanto o sabão vai saindo, ela vai subindo e fechou a água.
Tem que apertar de novo. Mas acontece que agora está meio sujinho de sabão lá onde aperta e dá um pouco de nojinho, mas é assim.

Pensa que terminou?
Enxugar.
Depois vem a parte de enxugar.

Você sai com as mãos molhadas e precisa olhar para a direita e depois para a esquerda, tipo quando vai atravessar a rua. Isso é para ver em qual ponto se encontra algum dispositivo apropriado para a secagem.
Com sorte, este dispositivo pode estar ao seu lado.

Começa então tudo de novo.
Primeiro você lê que duas folhas bastam, ok, ok.
Depois está escrito para puxar e o papel  rasga, desmancha, esfarela e eu fico ali paralisada defronte ao dispositivo para secar as mãos.
Há uma rodelinha na lateral, quem sabe girando o papel reapareça.
Às vezes é uma barra branca, que mais parece fazer parte do design da geringonça secativa, e eu demoro a adivinhar que é preciso empurrar aquela barra para surgir o papel dali das entranhas.

E agora tem coisa pior: um caixote preso à parede na altura do seu estômago com um vão que mais se parece com um abismo e de onde sai uma luz azul futurista e brilhante. Pedem que você enfie suas mãos ali.
Fico paralisada por alguns instantes. Meto as mãos ali dentro ou não?
É preciso recordar que eu precisei de professor particular para perder o medo de segurar no mouse e parar de tremer até conseguir clicar em alguma coisa. Você acha então que é fácil para mim enfiar as mãos num abismo fluorescente de azul?

Não vou falar sobre as torneiras hospitalares cujo mecanismo se dá com pedais.
É  preciso recordar que eu não dirijo e nem toco piano ou harpa. Você acha que eu consigo coordenar movimentar os pés para lavar as mãos? Esqueça.

Devido a todos esses traumas eu cheguei a cogitar a possibilidade de uma terapia, foi então que eu me sentei ali onde está a menina da foto.
Volte lá e olhe bem.

Eles instalaram torneiras! E ali é um aeroporto.
Ah! Como eu me aliviei ao ficar observando alemão, japonês, senegalês, índio, branco, negro, ruivo, tuvaluano.
Todos igualzinhos a min!
Todos ali parados sem saber como fazer sair água da torneira. Todos hesitantes. Todos com papel esfarelado na hora de enxugar!
Pronto acabou meu trauma de diminuimento ou complexo de inferioridade aquífero.
De qualquer canto do planeta não há desenvoltura perante torneiras públicas de locais privados. E ainda bem que puseram bem ali na frente de meus olhos!

Agora preciso desabafar sobre elevadores.
"Moço, qual eu aperto para o térreo?
O 2 moça. O S1 é que é o térreo"

Gostava do tempo que térreo era apenas T.



17 comentários:

Tina Bau Couto disse...

Ñ sou desde sempre muito fã de elevadores, mais isso de ter que interpretar qual é o térreo é péssimo, fico confusa e aflita. Pode ser S, S1, L, L1, P...Afff!!!
Outro dia diante de um sem botão para apertar para subir ou descer fiquei perplexa, nenhuma informação, ninguém para perguntar e após instantes a porta se abriu, entrei e nada de botões dentro, apenas uma voz para quem eu deveria dizer para onde ia. Me senti no desenho animado dos Jetsons.
As torneiras, secadores e sabão q nunca sai #álcoolgelnabolsa ou #lençoúmidonabolsa

✿ chica disse...

Ri muito aqui pois essas coisas acontecem meeeeeeesmo! As modernidades pregam peças...

Gostei da foto e de te ler falando de coisas tão íntimas e tão normais nos dias de hoje!

São troneira, elevadores, caixas de banco, tantas coisinhas... Mas, seguimos e aprendemos com cada erro! bjs, chica

Dra. Cristiane Marino disse...

kkkkkk, Ana Paula, quem diria que uma crônica sobre lavar as mãos ficaria tão engraçada.
Sabe também já passei por isso…E quanto aos elevadores a confusão continua.
Bjs querida e ótimo final de semana

Carmem Grinheiro disse...

Olá Ana Paula, adoro suas crónicas.
Na minha modesta opinião - mas que estou sempre insistindo em dar, às vezes até me passo dos carretos, e "explodo" mesmo diante das coisas do dia a dia - é que com essa tecnologia, que diz visar nos facilitar a vida, evitar contaminações, e economizar também, só nos complica tudo. E é como você cita no exemplo da torneira: quando a gente até "já pegou o jeito da coisa" aparece outra diferente e nos desorienta.
Outra que me enlouquece são as luzes com sensores que acendem quando a gente entra no recinto da sanita. E tem umas que apagam bem antes da gente "terminar a sessão", mesmo que se trate dum simples xixi, e vai daí, tem uma pessoa que erguer um dos braços e fazer movimentos como se estivesse caçando mosca, para conseguir que a dita acenda de novo. Enfim...
Bj amg

JAN disse...

Oi, Ana Paula!
Sempre me irrito em banheiros públicos, mas nunca nunca pensei em escrever a respeito.
Escrever acalma e ler também.
Estou levando o texto pro E-Library.

Abração
Jan

Ana Bailune disse...

Alguém tinha que escrever sobre isso! Já era tempo mesmo. Uma das crônicas mais bem escritas e divertidas que já na bloglândia! passei por isso recentemente, não sabia o que fazer para fazer o papel sair do dispositivo, e então fiquei olhando, até que uma menininha bem parecida com essa aí da foto o fez, e então, envergonhada, copiei...

Karina disse...

Oi Ana!

Achei que eu era a louca que demorava no banheiro porque não sabia abrir a torneira!!! kkkkk Meu namorado pergunta: tinha fila? E eu respondo: Não... só não sabia abrir a torneira, tirar o papel para secar.... kkkkkkk

A elevador sou campeã em errar. A ultima vez foi no Transamerica Expo Center. Entrou um monte de gente e ninguém apertou o botão. Apertei e paramos no andar errado da exposição, dai que os seguranças informaram que era no andar de cima! Mas ninguém teve coragem de apertar os botõezinhos! kkkkkkk

Beijos

Luís Fellipe Alves disse...

Geringonça secativa hahahaha adorei a crônica. Já me acostumei com as torneiras automáticas, que tem sensores que percebem (e demoram a perceber) a sua mão. Mas as de apertar tem um jato muito forte de água e curto. Seria melhor um jato médio e e um tempo maior, não? Uma proposta pros fabricantes!
Assistimos e protagonizamos constantemente várias mudanças comportamentais no cotidiano que são consequência da atualização tecnológica. Se é benéfico ou não, depende muito do que é, do que faz e que instrumento do passado substitui. Pra mim existem coisas que são insubstituíveis, mas que estão sendo substituídas.

Suzy Rhoden disse...

Oi Ana, que saudade de seu blog! Algum dia explico o sumiço, em alguma crônica sobre serviços de telefonia... Mas falamos de suas torneiras, que texto divertido! rsrsrs Eu, que sou interiorana, preciso confessar aqui que passei por essas fases também... Mas fica só entre nós, não espalha, tá, que eu tenho vergonha! rsrsrs
Amei, você dá um show escrevendo!

Beijos

lis disse...

Oi Ana
Uma cronica de ler num fôlego só de tão boa!e olhe nem sou amiga de textos mais longuinhos... rs está maravilhoso!
Um mundo cheio de complicações_ no prédio da minha filha o térreo é A quando deveria ser T _ ainda não perguntei A de quê ( andar?) poderia ser C ( chegar) ? rsrs
Obrigada Ana estou ainda rindo... :))
_sua menina é lindinha! elas tiram de letra tudo isso!
beijinhos

Bia Hain disse...

Anaaaam estou rindo muito aqui, kkkk!!!! Há três semanas fui à capital - e claro, ao shopping - e fiquei me batendo com o suporte para secar as mãos. Nenhuma placa. Seria de papel? De arzinho quente (que não seca nada)? De toalha? Até que uma alma generosa e solidária chegou ao meu lado e disse: "tem que girar esse botão da lateral". Imagineeee o meu sorriso aliviado e sem graça! KKKK
Talvez por todos os motivos que citou sou apaixonada por simplecidade. É o que no fundo, sempre funciona! :)
Amei o post. Um abraço!

Lúcia Soares disse...

Que texto gostoso, Ana Paula. Você me lembra, ao escrever, uma moça ótima, que mora em Campinas, chama-se Silmara franco, vc a conhece? Se quiser, depois lhe passo o link do blog dela.
Achei ótimo o que vc contou, também tenho minhas dúvidas quanto a essas torneiras e, definitivamente, não enfiaria minhas mãos naquele buraco, não. rs
Quanto a elevadores, dos quais nunca tive mesmo, também não entendo o T não ser o Térreo.
Beijo e bom domingo.

Lúcia Soares disse...

* "dos quais nunca tive medo..."

Clara Lucia disse...

kkkkkkkkkkkkkkkkkkkk Ana, me divirto tanto com vc! Me vejo no seu lugar porque sou quase assim também. Só que agora aprendi a rir de mim e não ter vergonha ou trauma de nada...
kkkkkkkkkkkkkkk
Essa da torneira é um tormento... já passei por isso e quase desmontei a torneira pra saber o mecanismo de simplesmente sair a água.
Adorei!
Beijos, ótima semana!

Ana Paula disse...

Lúcia, quero sim conhecer a moça escritora a qual você se refere! Por favor passe-me o link. Um beijo!

Moro em um Kinder Ovo disse...

Muito divertido este seu texto porque é assim mesmo que a gente se sente quando tenta entender o "como funciona?". Vamos invadir um pouco mais a sua intimidade e quero que confesse: você sabe como funcionam as descargas do banheiro? E o que a gente faz com a bolsa?

CamomilaRosaeAlecrim disse...

Menina...isso tudo que vc falou penso igualzinho!!! Fui semana passada no Shopping Don Pedro em Campinas e eis que eu e minha filha ficamos alguns minutos tentando fazer a água sair da torneira! E quando finalmente descobri onde colocar minhas mãos, tive que ajudar outras senhoras que estavam na mesma dificuldade! Cada vez que vou a este shopping o banheiro está diferente...sem falar na porta do banheiro que abre sozinha e a gente fica no vácuo com as mãos, hehehe! Onde vamos parar!!!!
Beijos!
CamomilaRosa