segunda-feira, 17 de novembro de 2014

48/52


Ninho encontrado na rua

À Manoel de Barros

Não posso falar nada sobre Manoel de Barros sem primeiramente agradecer aos blogueiros. Foi através dos blogs que eu conheci Manoel e sua poesia.
Fosse numa postagem, num verso inserido no texto ou deixado nos comentários.
Aquelas palavras fizeram ninho em mim. Fui em busca de saber. A cada dia encontro mais um pouco, um pedacinho a mais. Obrigado a vocês blogueiros que me alçaram nesse mundo poético.

"Morre aos 97 anos um dos mais importantes poetas brasileiros".

Com essa frase, os principais meios de comunicação deram destaque à partida de Manoel.
E eu continuo intrigada e entristecida.
Estudei no melhor colégio de freiras daquela região. Em doze anos, nunca um dos maiores poetas estivera presente.
Faz tanto tempo, que talvez seja esse o motivo dos versos de Manoel nunca terem aparecido na minha vida escolar.
Então, os meus filhos são "atuais", ainda frequentam a escola.
E em todo esse tempo que eles frequentam a escola, esses tempos modernos e atuais que chegaram a noticiar a possibilidade de Manoel de Barros ser indicado ao Nobel de Literatura, mesmo assim, os versos daquele que compreende o idioma inconversável das pedras também nunca apareceram, fosse num texto de livro, exposição, tarefa de casa.
Nas livrarias, montanhas de livros em tons cinzentos, mas só sob encomenda um livro daquele que escreveu "Quem ornamenta/ o azul das manhãs/ são os sabiás.

Certa vez, uma mãe me disse que as férias escolares se traduziam em uma palavra - inferno. 
Era um inferno ter filhos em férias. Todos os dias shopping, cinema, hambúrgueres, parque de diversões do shopping, sorvete na praça de alimentação, boliche, patinação.

Se essa mãe tivesse se deparado com a poesia daquele que, viveu num lugar tão ermo, que precisou fazer das palavras seu brinquedo, ela entenderia que é maravilhoso ter esse tempo distante da escola, para descobrir coisinhas sem importância dentro e fora de casa. Que passear é um prazer e não uma obrigação com hora marcada.

Voassem feito passarinhos os versos de Manoel nas escolas, talvez muitos jovens não precisassem sentar-se no final da tarde aqui na praça em frente de casa, para consumir drogas, porque eles saberiam contemplar "Melhor para entardecer é encostar em árvores".

É sempre assim: agora que um dos maiores se foi, ele se torna conhecido.
Não importa. Para Manoel, nunca importou as grandezas. Ele tinha mesmo canduras pelas pequenezas, inútil, sujo, feio.
Para nós, novas oportunidades de vermos o menino-poeta-passarinho adentrando as histórias que os pais contam com as crianças já de pijamas, as escolas, as praças.
Prateleiras cheias, divulgação, um título inédito aqui, um relançamento acolá. Seus versos a nos encantar!

Por que eu peguei um ninho caído na rua?
Acho que alguma inutilidade se aninhou em mim.
Obrigada aos que me apresentaram à um dos maiores poetas, obrigada Manoel de Barros!

6 comentários:

✿ chica disse...

Que lindo te ler e triste a situação ,infelizmente verdadeira, trazida! Para tantos só agora ele passará a constar na lista de poetas.Tanto ele fez, tanto escreveu e ainda tantos o desconhecem, pois muitos, nem foram atrás de pesquisar pra ver QUEM era o Sr que aos 97 anos nos deixou! Adorei te ler e gostei do ninho, tudo a ver com o poeta passarinho! bjs,m chica

✿ chica disse...

Esqueci de dizer que férias dos filhos nunca podem ser consideradas um inferno.Há tanto a fazer, estar juntos ler, comentar, brincar...

Poesia do Bem disse...

uma tristeza tamanha, um homem feito passarinho em seu voo na poesia que nos levava com ele. Triste realidade, que arrasta mais um grade escritor para longe de nós. Bela e merecida tua homenagem

Nidja Andrade disse...

Vai se o homem, fica as lembranças e toda uma história poética!...

Tina Bau Couto disse...

Fiz curso de Letras Vernáculas e nunca ouvi nada sobre ele
Nem uma linha de seus escritos
Fui na Livraria Cultura e lá nem no cadastro seu nome havia
Na Saraiva um título e um acara de desdém do atendente
Não era conhecido, divulgado, comercializado e acho que isso era bom, porque era o que ele era, o que ele queria e agora no mesmo dia de seu corpo virar borboleta, notícias comercias, matérias e toda uma descrição imateriais
Seus escritos valiam para quem tocava
Para quem assim ali, aqui, por encanto ou encantamento o descobria, como tesouro escondido
Não era o leitor um leitor dele por obrigação, por modinha e afins
Vou falar disso lá
Por cá, por hora, meu bem querer a vc por ele eu já conhecer e ser vc a meu primeiro livro dele dar
Canduras, histórias, poetar para o resto da vida a gente levar

Dra. Cristiane Marino disse...

Que texto lindo, até chorei…
Bjs