quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Carta ao Seu Zé da Geladeira.

Oi Seu Zé da Geladeira!
Talvez o senhor nem se lembre de mim.
Acho que nos conhecemos logo após aquela Frigidaire azul que minha mãe odiava e eu nunca soube o porquê.


E então chegou lá em casa uma geladeira vermelha, de segunda mão, mas para minha mãe era melhor do que aquela maçaneta. Parece que consigo até ouvir o barulho dela aqui nos recônditos da memória.

Até que um dia a cozinha amanheceu cheia de água e a porta da geladeira vermelha não fechava de tanto gelo que havia se formado no congelador. Parecia até que ia explodir em gelo.
A sorte é que era sexta-feira, dia de feira. Corremos até lá e fomos direto na barraquinha do Seu Zé do Fogão, aquele que sempre vendia uma espécie de injeção com agulha bem comprida caso o fogão adoecesse, e pedimos a ele que avisasse para o senhor ir lá em casa: era caso de vida ou gelo.
Ah! Eu me lembro direitinho quando o senhor chegou vestindo um macacão cinza chumbo e o senhor também tinha um cheiro estranho. Um cheiro cinza. Seus braços também eram cinza.
O senhor trazia uma maleta com as ferramentas que me lembrava a mala do gato félix! É que naquela época eu assistia ao desenho do gato félix, sabe.


Após rápido exame, o senhor já foi dizendo que o problema era uma desregulagem no gás. E tratou de me mandar ir para longe e deu-lhe gás na geladeira.

Não durava muito o seu concerto não, seu Zé da Geladeira e mamãe ficava muito brava porque virava e mexia lá estava aquele iceberg que não deixava a porta fechar e lá íamos nós atrás do senhor na feira.
Nestes dias mamãe ficava tão nervosa que nem pastel ela lembrava de comprar. Uma pena.
Até que um dia, o Seu Zé do Fogão falou que o senhor tinha morrido.
Nós ficamos tristes. Mesmo que mamãe sempre reclamasse que o senhor cobrava muito caro, nós já havíamos nos acostumado com a sua maleta, o seu cheiro cinza.
E eu não sei dizer se foi porque o senhor morreu ou a situação melhorou que nós compramos uma geladeira novinha, da cor bege. Era a última moda em termos de geladeira.
Sabe, Seu Zé da Geladeira, tanta coisa mudou desde que o senhor se foi.
Aquelas geladeiras azuis que mamãe não gostava de jeito nenhum, viraram obra de arte.


Precisa ver que belezura! Que será que foi feito com todas aquelas geladeiras que o senhor tinha na sua garagem que nem dava quase para entrar lá. Foi o Seu Zé do Fogão que contou.

O senhor precisava estar vivo pra poder acreditar no que está acontecendo com as geladeiras neste mundão de meu Deus.
Aonde o senhor estiver, senta. Senta que é pra cair de tanta modernidade.
A moda agora é uma geladeira que fala, ou melhor, escreve.
Num tá acreditando em mim né Seu Zé da Geladeira? Pois é verdade sim: lá na porta dela tem um computador pequeno, tudo que tem lá dentro, a geladeira sabe e quando acaba, ela manda uma mensagem pro seu celular que é pra você já ir logo comprando. Num disse que a geladeira escreve?


Espia só: é nesta tela aí que a geladeira sabe de tudo.


Eu não vou querer uma desses não Seu Zé da Geladeira. Sabe por que?
Porque num pode grudar bichinho nela, adesivo da pizzaria. Você tem que colocar o telefone da pizzaria nesta tal de tela da geladeira.
E eu gosto mesmo é de uma geladeira assim, cheia de coisinhas.


Agora eu vou contar mesmo a verdade porque eu quero uma geladeira daquelas que fala, escreve.
Eu tenho medo Seu Zé.
O mundo pro lado de cá tá tão esquisito que eu tenho medo de ficar sentada olhando pra tela do meu celular esperando que alguém me chame, que alguém se lembre de mim e pode ser que a única criatura a me mandar um recado, uma palavra seja a geladeira.
Quero isso não.

Flores e um abraço da menina da geladeira vermelha ( cheia de gelo)







13 comentários:

CamomilaRosaeAlecrim disse...

O mundo realmente está moderno...e quase não existem mais o Seu Zé!!!
Mas ainda vemos artes, e com geladeiras!
Mas as antigas são bonitas e com cores que nem fazem mais...agora tudo é o inox!
Adorei a carta! Parabéns!
Bjs e te desejo uma ótima quinta-feira!
CamomilaRosa

Tina Bau Couto disse...

ADOREI!
Um geladeira dessas azuis e vermelhas hj custam mais dos que as que falam e escrevem, retrô não é mais coisa de hippie e sem grana, é estilo conceito.
Lá em casa os Zés e Joõas eram tds meu pai, para nossa casa e para casa dos outros, agente emprestava o S. Guillermo, que ia com a mala de ferramentas, cordão no lugar do cinto, não por falta de cintos, mas por estilo próprio, óculos com lentes de aumento emolduradas de durepox e um método para td.
Graças a ele aqui não há quase necessidades de seus Zés, nem do Paulo, a Tina troca resistência, aplica injeção no fogão, desmonta microondas, aparta tampa da panela de pressão que afrouxa e o que aparecer pela frente.
Vou te confessar uma coisa, que sua mãe e tds as mulheres que já se viram de cabelo em pé não me crucifiquem por isso, mas sinto falta do congelador cheio de gelo e do dia de descongelar, limpeza geral na geladeira e na cozinha, bacias com ice-bergs de lá para cá, revisão do guardados no mundo gélido com portas, hj sem esse ritual é capa de ter quem tenha nos recônditos da geladeira os restos do peru do natal :)

Kellen Bittencourt disse...

Ana isso tem que ser compartilhado, é divertido, bem humorado, criativo, triste, nossa, fiquei maravilhada, parabéns, hj as geladeiras estão assim mesmo "Power Plus", tem uma que colocamos as fotos no Pen Drive e elas vão mudando as fotos como um porta retrato digital afffff, qta modernidade, e a minha mãezinha era tão feliz com a geladeira vermelha rsrrs Bjoooosss

Ivani disse...

Oi Ana, coisa mais maulca esse seu texto! e muito divertido!
Confesso que nunca via essa geladeira moderna, que fala, ou melhor, escreve.
E também telefona. Como ela consegue?
Deixa pra lá...não adianta explicar porque eu nao vou entender.
Eu tive uma "Climax" com aquela maçaneta cavernosa.
Ela era boa, não enchia de gelo, até que durou bastante, mas um dia a porta caiu!
Foi um Deus me acuda porque "podia ter matado uma criança" como dizia minha sogra. A porta era tão pesada que parecia um cofre de aço.
Adorei me lembrar de minha primeira geladeira, e gostei demais de sua postagem.
Beijos querida!

Ivana disse...

Ana, que legal!!!
Você acredita que na minha casa eu tive as duas? A azul que era branca e a vermelha que era branca também, essa vermelha é ótima, melhor que muitas que tem hoje!
Divertido e emocionante seu texto...me lembrei da minha mãe que já faleceu, me deu uma saudade, bjs

✿ chica disse...

Que legal,Ana Paula. Hoje ainda passando na rua vi anunciada numa loja de geladeiras , UMA RARIDADE e lá estava uma das jurássicas, amarelona, tinindo de "nova" e devia ser bem cara pois nem preço exposto tinha!!! Adorei te ler!! beijos,chica

Angi disse...

Adorei e tenho que concordar com a Tina, as geladeiras vermelhas são caríssimas, isso o seu Zé não ia acreditar!
Adoro sua poesia amiga, beijos em vcs

Alê Lemos disse...

Também não li o seu post, mas sei que vou me arrepender disso. seus textos são ótimos! VIm agradecer os parabéns, eu mesma tinha esquecido que era hoje, achei que fosse amanhã :) vou fazer um post de comemoração mais tarde. Beijos!

mfc disse...

Um mundo que despareceu... aqui tão bem evocado e com uma técnica descritiva empolgante.
Beijos, Ana Paula

disse...

Que engraçado, sou bem assim, parecida com você, apegada aos Zés das Geladeiras e avessa aos computadores. Pra que tanto né? Eu adoraria ter em casa uma geladeira azul, igualzinha a essa aí de cima, que vive jogada nos fundos da casa da minha sogra. Quem sabe um dia.

Compartilhando Sentidos disse...

Oi Ana... Também tenho uns Seus Zes de um montão de coisa para lembrar. Me diverti muito com a narrativa, sempre me divirto por aqui.


Bjo grande e um ótimo feriadão, tá
menina da geladeira vermelha?!

VERINHA disse...

Muito divertido este texto amiga, gostei muito mesmo. Pois eu ainda irei mandar pintar minha geladeira branquinha da cor bem laranja, pois eu adoro esta cor. Que lindas as que são obras de artes,imagino uma assim em minha cozinha,kkkkk.

Blog do Óbvio - Manoel disse...

Menina da Geladeira Vermelha, genial a sua estorinha para dar uma "cutucadinha" nos relacionamentos da atualidade (Geração Facebook, rs...rs).
Concordo em gênero e número com o conteúdo de sua cartinha para o Seu Zé da Geladeira e me preocupo muito com isso:

"Eu tenho medo Seu Zé.
O mundo pro lado de cá tá tão esquisito que eu tenho medo de ficar sentada olhando pra tela do meu celular esperando que alguém me chame, que alguém se lembre de mim e pode ser que a única criatura a me mandar um recado, uma palavra seja a geladeira.
Quero isso não."

Tomara que consigamos passar nossos sentimentos com pureza e respeito. Assim perdendo a vergonha de nos amarmos (amigos, amigas, esposas, esposos, filhos, filhas, inimigos, inimigas, ...,).
Beijo
Manoel