domingo, 10 de fevereiro de 2013

Gari de palavras

Foi lendo uma crônica de Affonso Romano de Sant'anna que me deparei e me encantei com "gari de palavras".
Pouco lembro da tal crônica. Alguns trechos me veem à mente, como num diálogo onde se perguntava as profissões dos pais e respondiam-se: meu pai é médico, o meu empresário e o meu gari de palavras.
O termo se referia a limpar palavras e se fazia a limpeza com outras palavras.
Estamos precisando urgentemente de garis de palavras. E não falo por conta das palavras que expressam xingamentos, atitudes impróprias. Falo do uso distorcido das palavras.

Como disse uma amiga, neste carnaval estou em casa vendo a banda passar, lendo jornal e vendo documentários.
No jornal, vejo a primeira necessidade do gari das palavras. 
Entre confetes e serpentinas, uma nota expremida falando que a grande rede de fast food McDonald's lançou um aplicativo gratuito para iphone que permite rastrear a origem dos ingredientes de lanches clássicos que constam em seus cardápios.
Aqui para a América Latina chegarão campanhas cujo objetivo será aproximar o cliente à vida do campo e ao uso de "comida de verdade". Afinal a grande rede quer mostrar-se comprometida com uma alimentação balanceada e um estilo de vida saudável. ( está na Folha de S. Paulo 10/02/2013 ).

Vida no campo porque eles colocam uma folha de alface no sanduíche? Comida de verdade?
O que vamos usar então para definir o arroz com feijão e farinha?
Nada contra a rede. Está lá para quem desejar. Mas aí a falar que você está comendo comida de verdade... 
Acho que é preciso limpar estas palavras.

Aproveitei 01h e 23 min do meu tempo a assistir ao documentário Muito Além do Peso, o qual recomendo quase implorando para que assistam, sobre obesidade.
Num determinado momento, uma repórter mostra a grupo de crianças uma latinha de refrigerante e pergunta quantos pacotinhos de açúcar eles acham que tem ali dentro.
Ao saberem a resposta ficam impressionados. Porém à pergunta: quem vai parar de tomar?
Entre ninguém, uma criança responde: eu não vou parar, eu ABRO A FELICIDADE.

Como nos induzem ou tentam a pensar que a felicidade está em uma latinha ou garrafa com tampa vermelha e que tem um som ao abrir...

O que está acontecendo com as palavras e seus verdadeiros significados?



imagem google

10 comentários:

Blog do Óbvio - Manoel disse...

Ana Paula, que gostoso o seu carnaval. Colocando o que faltou do dia a dia em ordem. Eu também estou fazendo isso. Até caderneta escolar do ginásio eu encontrei. Legal isso. Enfim...

Ana, tempos atrás acho que falei para você que enquanto fazia a faculdade dei aula de química em cursinho. Pois é. Uma das coisas que demonstrei na aula foi pegar uma chave todinha oxidada (enferrujada) grande (dessas portas de madeira antigas), abrir uma garrafa dessas de "felicidade", colocar num recipiente de vidro e colocar a chave enferrujada dentro. No dia seguinte, a chave se apresentou limpíssima. Como se tivesse sido lixada.
Então, imagine essa felicidade no seu estômago...
Bom mesmo é comer a comidinha da Dna. Maria e tomar a garapa do Seu Zé, que não tem erro, rs...rs.

(Que bom que você está fazendo bastante postagens hoje. Estou adorando. É gostoso ler as coisas que você observa. Não vai dormir cedo não. Continua escrevendo e amanhã você se levanta mais tarde, OK?!).
Beijo
Manoel

✿ chica disse...

Incrível como tu brincas com as palavras. Acha fatos, textos, filmes e os transfomas em beleza pura.

Quamto à obesidade infantil, temos que ter cuidados.ISSO CONCORDOP> Porém infelizmente, perto de mim, assisto uma criança que tinha vida, era alegre, gordinha (mas no normal). Pois bem, um médico esquelético mandou que fosse consultar uma nutricionista. Foi. A pobre já perdeu 7 ou 8 quilos. E, com cada um deles, também a alegria em seu rostinho. Triste de ver e a cada refeição, vê-se o quanto de mal fizeram à ela. Pobre criança. Logo terá sua esticada normal da idade e virará uma palita. Pena ver isso! Desculpe colocar um contraponto. Mas tudo deve ser MUITO BEM equilibrado. E há casos e casos. Neuras, não podem ser admitidas nem dos pais ,nem dos médicos... beijos,chica

Flor de Liz disse...

Mais um texto seu pra eu adorar e concordar.
Bom, acho que tudo isso é o impacto da mídia... Não adianta.
As crianças crescem com parte da educação vinda das TV's...
Mas hoje em dia com tanta tecnologia por aí, fica difícil controlar esse tipo de "educação", né?
A culpa muitas vezes é dos pais, não por permitirem que assistam TV, mas por muitas vezes incentivaram aquilo que ela "ensina".
Eu tenho um primo mais novo que eu, que é obeso e totalmente sem limites. Filho único, desde pequeno muito mimado e faz o que quer da vida.
Meus tios trabalham fora e ele foi "criado" pela avó que tomava conta. Meu primo se tornou um verdadeiro monstro... Mal educado, ignorante e descontrolado.
Não respeita ninguém e detesta conselhos sobre comida. Aliás... Minha citação sobre "pais que incentivam" vem do exemplo dos meus tios.
Já o levaram a milhares de médicos, psicólogos, nutricionista, endocrinologistas... E ele sempre largava suas dietas para comer os bolos deliciosos que minha tia faz. E minha tia não colocava/coloca limite nenhum. Não que ela deva parar de cozinhar "o que é bom", mas sempre que ele quer largar seus médicos e tratamentos, ela simplesmente deixa.
E se ele quer comer a panela de arroz e a carne toda, ela também deixa. E sendo assim ele passa o dia inteiro comendo o que ela cozinha, pedindo para que ela cozinhe, pedindo dinheiro para comer na rua... E ela simplesmente deixa!
Se minha mãe acatasse todas as minhas vontades, provavelmente eu não teria os pensamentos que tenho hoje e provavelmente nem estaria mais viva, pois várias vezes quis desistir de tratamentos quando adoeci em 2009 e ela se impôs. Acho que ter pulso firme não é ruim... Pelo contrário. Tudo o que meu primo precisava era uma criação mais severa e de "nãos".
A mídia tá sempre cheia de imposições que se não nos atentarmos, acataremos. Mas tudo sempre dependerá de nós, afinal, tem coisa boa também.
Alguns aceitam influenciar-se, outros não. Outros acomodam-se... Outros nem reparam que estão sendo manipulados... Enfim.
Realmente precisam medir as palavras ao indicar o que é "saudável", "bom", "felicidade"...

PS: Coincidência à parte, meu primo obeso só consume Coca-cola, Fanta Laranja e Sprite. Só aceita essas marcas, franquias da Coca-Cola, para ter uma pequena noção de seu mimo. Será que tão obeso e rejeitado pela sociedade ele é feliz? Acredito que não.

http://oiflordeliz.blogspot.com.br/

Alê Biet disse...

Ana é preocupante mesmo. Li um artigo sobre os males da coca-cola e fique preocupadíssima.
Aqui em casa quase não tomamos refrigerantes, por opção minha e do marido, Foram anos de coca-cola, estamos em fase de educação, as meninas sentem mais dificuldade , mas tudo é questão de abito. Vou ver o vídeo sim!
Muito boa a postagem!

Anne Lieri disse...

Ana,muito interessante seu texto!Os tempos são outros e tudo ás vezes parece estar de ponta cabeça.Os valores em especial mas tb a alimentação!Apropriar-se da alimentação foi o máximo da hipocrisia desse Mc'Donalds!Bjs e boa semana!

Moro em um Kinder Ovo disse...

Difícil alcançar o equilíbrio nestes tempos de tanta informação. Conheço uma família de vegetarianos que não aceita sequer calçar sapatos de couro. Outra, para prevenir o abuso de refrigerantes e doces determina que somente podem ser consumidos em um único dia. Sempre o mesmo dia. Por isto a criança fazia questão de comemorar o seu aniversário nesta dia, mesmo sendo um dia "útil". Assim, entre exageros de todos os lados esquecemos que devemos sim procurar o equilíbrio que é muito mais saudável.

JAN disse...

Nunca fui fã de "FAST FOOD", mas meus netos, trocam qualquer comida "de verdade" por um "Mac"... já são íntimos:-(

Ana Paula, fico feliz em ver como você é atenta ao verdadeiro sentido das coisas... vc é um verdadeiro "gari de palavras".

Abração
Jaan

Cozinha de Mulher disse...

Boa tarde Ana.. como sempre um excelente texto..
É mesmo complicado os dias de hoje né? Falando em alimentação..
É tudo tão exposto aos olhos dos pequenos que fica quase impossível mostrar que tanta facilidade... tantas delícias coloridas fazem tão mal a saúde..
Claro que não temos como privar nossos filhos desses lanches, colocar como se comer uma vez ou outra seja um pecado mortal, mas com certeza temos que ficar de olho e fazer com que isso não se torne tão constante.
Certo que as vezes a correria do dia-a-dia nos impede de fazer aquela refeição saudável como nos tempos em que eu era pequena.. mas com um esforço e muito amor.. podemos sim colocar alimentos saudáveis no dia-a-dia dos nossos filhos..
Comer bem é viver bem.. é se sentir feliz..

Eu adorei sua visão a respeito desse assunto.. e também acho que nossa felicidade está muito além de uma latinha..

Um beijo minha linda e uma semana mais que especial viu?

Tina Bau Couto disse...

Garis, engraxates, restauradores, garimpeiros.

Todos trabalahando pela limpeza, nresgate, restauração do valor de palavras tão nobres que tanto são banalizas:
Amor
Eu amo
Paz
Fidelidade
Felicidade
Saúde
Família

Do uso indevido de tantas outras:
Estar triste e se dizer deprimido, esquecido e dizer que está com Alzheimer.
Minha vó diria : Bata na boca! ou Lave a boca com sabão para não falar tais asneiras.

Engraçado
Correto
Digno
Heroísmo
Guerreiros
Casais
Namorar
Felicidade
Perderam-se os significado.
Alguém viu por ai?

Precisa-se de garis, muitos garis, apanhadores de desperdícios como bem poetizou nosso apassarinhado e escolhedor de palavras Manoel de Barros:

"Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água pedra sapo.
Entendo bem o sotaque das águas.
dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que as dos mísseis.
Tenho em mim esse atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor os meus silêncios"

Eu tb sou :)

Marcilane Santos disse...

Pois é Ana, a cada dia que passa estamos necessitando mais desses garis de palavras. Quantas palavras sujas estão sendo jogadas ao vento ultimamente?! É lamentável isso. É lamentável ver que palavras de carinho e respeito são pouco proferidas atualmente e que a mídia atual termina por manipular as pessoas como no caso da tal "felicidade".

Bom, achei muito útil seu texto e sua visão como sempre, tão observadora.
Gostei do comentário da amiga Tina, sempre tão alegre e carinhosa.

Beijos!!