sábado, 21 de julho de 2012

Corpo de mulher


Participação na blogagem coletiva Corpo de mulher.

O dia havia chegado.
Estava lá seu corpo de mulher. Tão frio quanto a bancada de inox perante os olhos dos alunos de medicina. Olhos que externizavam sentimentos os mais variados.
Três anos atrás, tomou a decisão de doar seu corpo para as aulas de anatomia da turma de medicina. Decisão esta que causava um certo desconforto em quem ficava sabendo.
Era preciso falar. Era um desejo seu doar seu corpo ainda em vida para que fosse objeto de estudo. E assim o fez.
Burocracias, papeladas, assinaturas.
Estava saudável quando o fez, bem distante de imaginar a morte súbita que teve.
Mulher firme, de iniciativas, de atitudes.
Qualidades que não a impediram de pensar, imaginar seu corpo de mulher ali exposto.
Tinha cinquenta anos quando fez a doação. Independente de qual idade teria frente aos alunos, seu corpo não tinha mais a juventude que tanto exibiu nas praias, nas noites, nas saias curtas.
Será que as jovens alunas a olhariam com desprezo, vendo a flacidez da barriga, celulites?
Será que ao dissecarem seu abdome, seu estômago, ouviriam as risadas dos almoços em família, ou veriam as inúmeras dietas que prometiam um corpo perfeito e que ela tantas vezes se submeteu sem encontrar no espelho semelhança com a capa da revista?
Quando chegassem no seu útero encontrariam ali a vida, a morte que a própria vida lhe conduziu a cometer. Três filhos adoráveis, um que não permitiu viver e tanta dor ali naquele ventre, tanto vazio, tantas lágrimas...
E seu coração? Tantos homens amou, outros desiludiu-se. Alegrias, angústias, tristezas.
As pernas que rodopiaram nos salões de baile, que caminharam à beira mar com o sol tingindo o céu no entardecer.
Será que os alunos veriam que aquele corpo de mulher, deu prazer, fingiu tantos outros, enfim viveu intensamente acertando, errando, sofrendo os ditames da época, dos modismos. Ou veriam apenas um corpo que após a maternidade não voltou a ser como o da celebridade, mas seguiu sendo mulher.
Não importa. Esses pensamentos eram apenas seus. Lá sobre a bancada de inox importa apenas existir um corpo. E dessa vez era de mulher.

16 comentários:

Aleska disse...

Ela morreu enquanto estudavam o corpo dela? caramba... mas achei muito interessante Ana! ASs celulites e a barriguinha são nossas cicatrizes de guerra e devemos respeita-las. rsss beijos!

Palavresias disse...

Ana a vida e tudo o que dela gozamos nada representa diante da morte. Todos ao sucumbir a ela, passa a ser apenas um corpo e esse nada representa realmente, pois a essência do homem não está nele. E isso deixa a gente pensando, para que tantas vaidades, se elas são tão fugazes quanto a vida.
Adorei o texto, tem a leveza da vida plena e o pesar da morte vã.
Beijokas doces

Pandora disse...

Caraca, emocionou!!! Minha irmã é estudante de fisioterapia então essa dimensão do corpo humano, os cadáveres usados nas aulas, as formas de usos desses corpos são temas constantes de conversa entre nós... Esse pequenos conto casa muito com as reflexões que ela tem feito...

LUCONI disse...

Nossa um texto muito forte, você escreve muito bem, beijos Luconi

✿ chica disse...

Lindo, forte,emocionou...Era apenas uma mulher...Nada, ninguém saberia dela e suas histórias,esperava ser usada para o bem...beijos praianos,chica

Carolina Lima disse...

Ana,
que texto forte e ao mesmo tempo suave. É incrível como tudo tem duas (ou até mesmo mais) pontos de vistas.
Você, como sempre, nos encantando com suas postagens!

Não posso deixar de comentar a minha alegria em chegar em casa, depois de uma viagem, e encontrar um envelope em cima da minha cama.
Para o carteiro foi apenas mais um entregue. Para mim é toda alegria e carinho. Para as crianças é uma chance de um presente mais colorido e de um futuro com mais chances! :)

Estou aproveitando as férias e preparando algumas coisinhas para o segundo semestre da biblioteca.
Novidades que chegaram pelo blog e que acho que dará certo.
Inclusive vou começar em breve uma campanha para que próximo ao dia das crianças eu consiga levar eles ao cinema. Eles nunca foram. E além do cinema quero presenteá-los também com um lanche de fast-food.

Só estou esperando meu pai chegar de viagem com a máquina para poder compartilhar algumas com vocês!

E, mais uma vez, muito obrigada! :)

Abraços,
Carol

Ivani disse...

Emocinante Ana, muito emocionante.
Voce conseguiu transportar para o texto as sensações e lembranças de uma mulher que viveu intensamente, errou e acertou também.
E a doação do corpo entremeada de perguntas e dúvidas deixou tudo muito humano, onde deveria ser frio.
Sei lá, fiquei emocionada, a vida é muito cruel com algumas mulheres, mas também é linda.
Assim como foi lindo o gesto de dorar o corpo para estudos.
Voce escreve muito bem, parabéns, beijos.

Ivani disse...

onde se lê "dorar" leia doar.
beijo

Marcilane Santos disse...

Olá Ana! Lindo texto, parabéns!

Gostaria de divulgar um trabalho. Bom, eu faço restaurações de fotos antigas, até agora só fiz para os amigos, mas já que todos gostam muito, estou divulgando para saber se alguém se interessa!
Gosto desse trabalho porque além de tudo, ajuda a recuperar essas lembraças que desejamos guardar para o resto da vida.
Caso tenha alguma foto que você deseja recuperar, ou que seja escura demais, ou que você deseja editar, me mande um e-mail (marcilane.santos@gmail.com), ou comente sobre no meu blog(http://simplesinspiracoes.blogspot.com). Será muito bom ajudar a recuperar lembranças e bons momentos! Aguardo sua resposta!

O post em destaque em meu blog no momento é Conscientiz[ação] http://simplesinspiracoes.blogspot.com.br/ Dê uma passadinha lá, você gostará!

Beijos e ótima semana.

Tina disse...

Ana
Primeiramente amei te ter na fonte de meu blog :)
Sobre esse post, vc me remeteu a meu primeiro emprego, trabalhei na digitalização dos dados e depois na secretaria da Escola Baiana de Medicina e dentre as muitas coisas que tenho boas lembranças há uma da qual não tenho: dias de chegarem copros para serem colocados no formol e servirem para uso nas aulas de anatomia. Várias pessoas (funcionários e alunos) corriam para ver. Eu me perguntava: que gosto mórbido?, que falta de sentimentos?, será que sou uma et?
Não tenho medo da morte, nem acredito que ali no corpo morto resida a alma de alguém, mas são traços, memórias de alguém e de muitos outros alguém.
Me negava a ver e achar normal querer ir ver.
Para levar papéis no subsolo onde ficavam os corpos, demandava-se grande engenharia, respeito tanto os vivos quanto os mortos.
Outra lembrança é de que sempre (até hj) saio sem lenço e sem documento (culpa de Caetano...rsrsrs) e meu marido dizia e ainda diz, leva os documento menina, se morrer a prefeitura te enterra com indigente. Deuzulivre, pé de pato mangalô 3 vezes.

mfc disse...

É precisamente isso... ali permanecia apenas um corpo.
Todas essas histórias pertenciam a uma pessoa...!
Fantástico texto que nos desperta serenamente para uma realidade, que nem sempre queremos encarar.

Beijinhos,

Anne Lieri disse...

Ana Paula,tenho uma amiga professora que se foi há uns 3 anos e doou seu corpo para estudo!Um texto de muito sentimento e sensibilidade,eu adorei!bjs,

Compartilhando Sentidos disse...

Lembrei das minhas aulas de anatomia. O primeiro encontro com a tal bancada de inox, um homem que chamávamos de João.

Luma Rosa disse...

Um corpo que já não lhe pertence ou que nunca pertenceu, afinal, esse corpo foi apenas um empréstimo e agora com a morte, foi entregue ao seu verdadeiro dono. Por que não, antes de voltar para terra, ter suas partes aproveitadas e terem um fim diferente do que a morte impõe.
Muito criativa a sua crônica. Gostei também do argumento que usou.
Boa semana!! Beijus,

Bel Rech disse...

A aparência é essa, mas como penetrar naquilo que ela viveu, que ela sentiu?Ninguém poderia, somente a gente sabe o que passa conosco...o que fica é o corpo, mas a alma ninguém pode tirar...sentimentos profundos e emocionantes...para não dizer sofredor...
Paz e bem

Orvalho do Céu disse...

Olá, querida
O corpo da mulher deve sempre surpreender:
"Ser bonito por dentro e por fora"...
Que história mai sinteresante!!! Que lição de vida!!! Não sei se teria essa atitude...
Mulher de decisão conforme vc bem disse...
O que importa é que era um corpo de mulher e que vc valorizou o que havia por dentro (os sentimentos, as emoções, as vivências dela)... Legal!!!
Seja abençoada e feliz!!!
Bjs de paz