segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Os livros das livrarias

Meu casaco é da cor do sol.
E uma andorinha
queria trocar o casaco dela comigo;
mas o casaco da andorinha
era cinzento.
Ela pensa que eu sou maluco?

Manoel de Barros

Esses versos ensolarados do Poeta dos passarinhos é para dizer que estou saturada de "coisas"cinzas na literatura.
E quero falar da nuvem cinza que encobre a figura do livreiro.
Lembro do meu deslumbramento ao entrar pela primeira vez numa mega livraria. Parei logo na entrada para que meus olhos se acostumassem àquela vastidão. 
Tudo tão grandioso, tão livre e democrático ao alcance de nossas mãos.
Quando criança, entrava com meu pai nas pequenas e apertadas livrarias do centro velho de São Paulo, que eram bastante obscuras, e a regra era: "não coloque as mãos". Não havia a liberdade de abrir e ler um livro ali. Diferente das grandes e modernas livrarias.
Durante um tempo eu acreditei que a exposição de um livro era meramente uma questão de relacionamento e de gosto do livreiro pelo produto. Alguém que arrumasse a casa para nos receber.
Foi fácil perceber que as listas dos melhores e mais vendidos nem sempre garantiam uma boa e agradável leitura. Era para vender e dar lucros.
O que eu não sabia é que as editoras ( grandes, óbvio ) alugam os espaços em livrarias para manter um título em destaque.
O preço varia de 5 a 8 mil reais por 15 dias de exposição. Há uma década que chegamos a esse ponto. Falar dos pequenos, dos praticamente anônimos autores? Não há espaço para eles. E muita escrita boa se perde nesta nuvem cinzenta.
O que antes era para mim um espaço democrático, delicioso, agora enxergo como uma arapuca, estamos nos tornando reféns. Ou não.
Tenho encontrado cada vez literatura "ensolarada" entre os blogueiros.
Deixaram, certa vez, um comentário ( infelizmente não me lembro quem, nem onde ) dizendo que gostava muito mais de ler os blogueiros, gente realmente interessada em escrever.
Aproveito para recomendar um post no blog Datilografe e no blog da Tina que falam sobre o tema.

10 comentários:

Flávia Brito disse...

Siiiiiiiiim, é uma pena que não há mais recomendações de boas leituras, mas recomendações de bom marketing. Por isso gosto dos sebos, aqueles beeeem loucos, cheios mesmo e onde os proprietários conhecem cada(ou quase todas)obra que adquirem, assim encontro tesouros perdidos, anônimos e que estão ali porque os antigos proprietários não lhe deram valor. Bom para mim... rsrs

Beijos!!!

Marcilane Santos disse...

Muito boa sua reflexão Ana, também fico deslumbrada ao entrar em uma grande livraria. É uma pena, porém, não encontrar muitas vezes livros realmente bons, gostosos de se ler. Dão muita ênfase a livros de autoajuda, livros de autores estrangeiros, os esses que são pagos para que fiquem expostos, como você falou, coisa que eu não sabia que existia... um absurdo! Agradeço por você ter tocado no assunto.
Também sinto falta de livros "ensolarados" como você disse, de livros que nos arranquem sorrisos ou lágrimas de emoção, livros que nos faça viajar realmente. Eu tenho encontrado muitas joias pelos blogs e redes sociais, pessoas que assim como você escrevem realmente com o coração e isso é maravilhoso! É uma pena que não haja espaço para todo mundo, aliás espaço acho que até há, o problema é alguém enxergar essas pessoas. A propósito, encontrei pela internet um grupo de pessoas interessadas em gente que escreve bem e que são pouco valorizados, brevemente falarei sobre eles no blog.

Forte abraço e valeu pela análise das livrarias! Postarei em meu facebook, com sua autoria, é claro. ;)

Blog do Óbvio - Manoel disse...

Ana Paula, é exatamente isso. A grande livraria virou um Super Mercado de Papéis Escritos. O pior é que eu não sabia e nem tinha desconfiado dessa "propina" das editoras, kkk (só nos resta o riso), para com as livrarias.
Eu achava engraçado quando via alguém falar do "deus-dinheiro". Achava impossível deixarem o ser humano de lado e cultuarem o vil metal. Pois não é que aconteceu mesmo?
Acho que na minha "santa ingenuidade" o bom senso pegou carona e me deu uma vontade muito grande de conhecer e propagar o NOVO.
Claro que admiro os "Tops", "Masters" ou coisa parecida, mas quantas pessoas nós conhecemos na blogosfera com muuuuuito talento. Como a gente sabe se tem talento?! É simples. É só a gente ter vontade de passar todos os dias nos seus endereços e morrer de felicidade lendo e saboreando textos carregados de maravilhosas idéias e ideais. Felizmente o nosso mundo é dinâmico. Não para e nos presenteia com um monte de Bernardos e Júlias imbuidos de talento e vontade para fazerem sempre algo melhor do que estamos fazendo.
Beijo
Manoel

Christian V. Louis disse...

O mercado editorial realmente não está fácil para novos autores e, principalmente, brasileiros. Não sei se soube da polêmica a respeito da editora Novo Conceito.
Eu, antes de optar pela publicação independente, pesquisei e achei as propostas o cúmulo da exploração. Editoras de renome, em sua maioria, passam somente 6% do lucro dos direitos autorais pela venda de cada exemplar! 6% Ana! E não foi uma ou duas que procurei.
Há também aquelas que você tem que pagar (ninguém considera escritor profissão, é o único profissional que PAGA pra trabalhar) e exigem uma tirada mínima de 1000 exemplares.
O resultado: novo autor, "sonhador" (ou até mesmo egocêntrico, acha que é tão extraordinário e único que seu primeiro livro será um best seller) investe, por vezes, o pouco ou tudo o que tem e não consegue vender nem um terço, afinal, tais editoras são gráficas camufladas e não distribuem. Algumas "oferecem" uma tarde / noite de autógrafos onde O AUTOR novamente PAGA para trabalhar.
E sim, não podemos esquecer daquelas que aceitam pequenas tiragens tais como 50 exemplares, porém, ao calcular o valor, custa o triplo da trilogia 50 tons (só para citar, já que é um best seller e você citou a cor)! Missão impossível revender.
Sou muito grato a uma pessoa que conheci, que acabou se tornando meu agente e braço direito colaborando e me informando sobre autoria independente, me ajuda a vender e... o que posso dizer a respeito é que a web é uma ótima ferramenta de divulgação de livros, contudo, não é a melhor. Impressionante, pelo alcance que tem, deveria ser. Mas não é. Muitos se negam pagar 7 reais em um e-book ou trinta e poucos em um livro e gastam muito mais no McDonalds.
E, logicamente, as grandes editoras, como sempre beneficiando no valor de capa de literatura estrangeira, quase sempre a metade do preço. Não se valoriza o nacional.
Eu me considero um privilegiado como autor iniciante por ter vendido exemplares pela web, mas posso dizer que a melhor venda ainda é gastar sola de sapato, indo em pequenas livrarias e sebos, deixando-os em consignação.
Pessoas que não são blogueiras, que não fazem a menor ideia de quem seja Christian V. Louis, leem a sinopse, veem a capa, se interessam e compram! Isto eu considero uma vitória muito grande, porque posso vender menos, mas lucro um pouco com cada exemplar vendido. Não fico no prejuízo como ficaria se tivesse um "grande contrato" recebendo 6%.
E já que citou Manoel de Barros, ao visitar Dourados - MS (até mencionei isto quando ainda tinha Facebook), deixei em consignação diversos exemplares de 11 NOITES INSONES.
Retornei a Brasília sem nenhum.

=> CLIQUE => ESCRITOS LISÉRGICOS...


✿ chica disse...

Por essas e por outras, não me prendo à frescuradas de mídia ou pesquisas.. Sigo o que meu coração manda e o livro que "me chama" sempre dá certo... Nada de CINZAS... beijos,chica

disse...

Sinto o mesmo que você Ana Paula, e apesar de adorar os textos de blogues ainda perco muitas horas vasculhando as prateleiras dos fundos das livrarias. O mais engraçado é que, mesmo quando achamos um tesouro perdido e empoeirado, um atendente sempre aparece pra tentar nos convencer de trocar o livro colorido por um dos tons de cinza dispostos na vitrine.

Tina Bau Couto disse...

Amei essa do Manoel de Barros!
Amei também ser recomendada e por você, então, como diz a propaganda da Mastercard: "Não tem preço"
Pois é, eu já me revoltei e hoje ainda me revolto, reclamo, inflamo e agradeço ter olhos de ver, que o livro indicado, o produto mais vendido, o canal, o programa de tv mais visto, o filme do Oscar, o melhor jogador do mundo, a música das paradas de sucesso, o ator, atriz, cantor(a) do momento, são os que se decidi por interesses comercias, pessoais ou interpessoais, contratuais e de uma certa maneira reflexos de uma geração, de seus valores, ideologias ou falta delas.
Eu, particularmente, nunca fui de maiorias e isso irrita os tais maiorais, me perguntei sempre porque se irritam ou se importam comigo se sou minoria, será que porque incomoda ser questionados ou contrariados? Deve coisa de quem se acha maioria. Tô com Nelson Rodrigues "Toda unanimidade é burra".
Sobre os tons de cinza e do mercado literário e editorial, é lamentável, para dizer em poucas palavras o que penso e sinto e em muitas palavras dei a desabafada recomendada por vc.
Que queimem-se livros como se queimaram sutiãs e das cinzas surja nova mentalidade, novos autores, visões, práticas, valores.
PS.: Li uma matéria que dizia que foram queimados mais de 50 tons de cinza em protesto pela não violência, contra o incentivo e propagação de más condutas contra a mulher, mas não foi uma notícia divulgada, não está dentro dos planos de divulgação da editora.

Abraço, carinho e admiração em tons de branco, como a roupa das pombas, as sextas-feiras baianas, nuvens, bandeiras, lenços, pétalas das rosas que não tem espinho \o/

Kinha disse...

Gostei do verso!

Ivani disse...

Não li os cinzas, nem vou ler, assim como não leio muitas bobagens que publicam para determinado grupo de leitores(as).
Sou muito chata para escolher um livro, confesso, adoro literatura mesmo, e da boa.
Não leio Paulo Coelho, nunca consegui.
Concordo que nos blogs lemos algumas coisas bem interessantes, boas mesmo.
Mas é na literatura que encontro verdadeiras maravilhas, que me envolvem e me deixam louca por ler mais e mais.
tenho cá os meus favoritos, que não vou citar, mas que não abro mão deles, por nada.
Sou daquelas que leem tudo, mas ama e relê, e guarda, apenas os eternos.
beijos queridona

Carolina Lima disse...

Ana,
não sabia do valor da exposição de um livro. Caramba! É decepcionante!! :/

Beijinhos :**
Carol
www.umblogsimples.com