terça-feira, 30 de julho de 2013

Pois não doutora

Entrei na padaria. Entardecia.
De frente para o balcão, olhando as variedades de pães ofertadas ali, ouço meio distraída: "Pois não doutora?"
Imediatamente virei-me para trás.
Será que eu tinha furado a fila sem perceber?
Ninguém atrás de mim. Aquele doutora era comigo?
Sim, era.
Pedi meus três habituais pães franceses e voltei àquela padaria inúmeras vezes enquanto morei naquele bairro.
E depois da quarta vez que o funcionário se dirigiu a mim da mesma maneira "Pois não doutora", eu me irritei e disse a ele que não me chamasse daquela maneira. Eu não sou doutora. De nada adiantou.
Excetuando-se as tardes em que o tal funcionário devesse estar de folga ou quando estava no setor do café expresso, eu era chamada da mesma maneira.
Tirando café expresso da máquina ouvia-o dizer um "pois não doutor".
Em meio a correria e bagunça da mudança, lembrei com certo alívio que estaria a salvo do chato.

Já tem quase dois anos que estes episódios aconteceram. Acredito que ficassem esquecidos, perdidos na minha memória.
Para mim, era apenas uma chateação ser atendida daquela forma.
Mas, quando, na semana passada, eu li uma crônica de Eliane Brum entitulada Doutor Advogado e Doutor Médico: até quando? ( aqui ) é que percebi a dimensão do problema.

Um trecho da crônica:


Lembro-me de, em 1999, entrevistar Adail José da Silva, um carregador de malas do Aeroporto Salgado Filho, em Porto Alegre, para a coluna semanal de reportagem que eu mantinha aos sábados no jornal Zero Hora, intitulada “A Vida Que Ninguém Vê”. Um trecho de nosso diálogo foi este: 

- E como os fregueses o chamam?
- Os doutor me chamam assim, ó: “Ô, negão!” Eu acho até que é carinhoso.
- O senhor chama eles de doutor?
- Pra mim todo mundo é doutor. Pisou no aeroporto é doutor. É ó, doutor, como vai, doutor, é pra já, doutor....
- É esse o segredo do serviço?
- Tem que ter humildade. Não adianta ser arrogante. Porque, se eu fosse um cara importante, não ia tá carregando a mala dos outros, né? Sou pé de chinelo. Então, tenho que me botar no meu lugar.
Não era chateação. Não era uma pessoa que me irritava. Era a exacerbação da desigualdade social que existe em nosso país. É o gravíssimo problema da educação, das escolas, que embora tenha dado saltos gigantescos em relação ao passado, deixou um fosso na nossa história.
Aquele funcionário ali trabalhando sorridente, podendo viver com dignidade, tem uma ferida aberta: ele para ele ( e infelizmente para muitos ) não tem valor. É insignificante para a sociedade, é invisível. Sem auto-estima, exalta qualquer outro a sua frente usando a palavra doutor.
Uma realidade que deve ser mudada.




17 comentários:

Moro em um Kinder Ovo disse...

E como precisa ser mudada!!! As desigualdades financeiras sempre vão existir, mas as desigualdades humanas não podem fazer parte da nossa vida. Quando comecei a trabalhar (e olha que faz muito tempo) a secretaria datilografava todos os cheques para os pagamentos (viu como faz tempo? eu já não posso usar sombra azul...). Um dia ela me disse: não me importo com estes valores tão maiores do que o que vem no meu cheque, porque sei que ele estudou muitos anos, comprou livros, teve despesas com a sua formação. Eu também, se fizer a mesma coisa, um dia vou receber um cheque assim. Só acho errado que, se nós dois sairmos para comprar uma roupa a loja vai cobrar o mesmo preço e não de acordo com o que cada um recebe. Está certa esta lógica?

Alê Lemos disse...

Gostei imensamente do texto de hoje. Há uns meses atrás recebi um email falando de uma experiencia científica de um sociólogo paulista. Ele se disfarçou de gari na faculdade em que trabalhava, e imediatamente as pessoas pararam de tratá-lo bem e até mesmo de o enxergar. A pesquisa ganhou premio. Lembrei tb do meu professor reclamando que "doutor" é quem tem doutorado. Eu não ligo pra isso, digo pra quantos diplomas a pessoa tem, só acho que se é pra ter um título, é importante que a pessoa o utilize para fazer o bem pelos outros.

✿ chica disse...

Lindo texto esse e realemte precisa mesmo ser mudada.
Pior são os que se acham melhores que os outros com qualquer titulozinho proveniente de um canudo qualquer; Grandes bostas e se acham!

Isso é ainda mais ridículo, não achas? Eu convivi no meio do Direito com muitos desses assim!

beijos,chica

Flávia Brito disse...

Olha, com certeza há neste país e nos outros os problemas com a desigualdade social e essa questão das formas de tratamento são, em alguns casos, uma forma de demonstrar o poder de alguns, mas não creio que podemos generalizar. O rapaz da padaria, por exemplo, não o conheço mas acredito que ele chame as pessoas dessa forma para demonstrar que ele está ali para servi-la, o que de certa maneira, é o trabalho dele e não sei se ele fala assim porque se sente inferior. Sabe, as vezes a gente teoriza tanto sobre a condição de inferioridade do outro que, muitas vezes não é como esse "outro" se sente. Eu chamo a minha sogra de "tia" e nem sei o porque, simplesmente chamo e pronto, não tem uma explicação lógica e racional para isso, não consigo chamá-la de Dona, muito menos pelo nome e pronto. Já no caso do rapaz do aeroporto ele deixou claro que se sente inferiorizado, mas o problema, são as generalizações.

Beijos e boa semana!!

Blog do Óbvio - Manoel disse...

Ana Paula, muito bem lembrado fazer uma postagem sobre isso. Muitos ainda se sentem escravizados pelo peso do nível social. Não sabem que são livres e com mesmos direitos e deveres que os "doutores".
Em cima desse tema, também aprendi a não me preocupar com o modo de me chamarem. Até consigo adivinhar o tratamento que receberei em conformidade com a função que meu interlocutor esteja exercendo. Por exemplo: o guardador de carros sempre chama a gente de doutor, o atendente de lanchonete do Rio de Janeiro chama a gente de Gente Fina, o garçom de restaurantes populares do interior chamam a gente de simpatia,... e por aí vai...
O que me encanta é como eles ficam felizes e realizados quando aceitamos o chamado com um belo sorriso e puxamos um papinho rápido. Aí eles se sentem "meio incluídos" e percebem a importância que tem o trabalho e a presença deles para tudo e todos.
Somos todos muito importantes com direitos e deveres iguais.
Beijo
Manoel

lis disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
lis disse...

Oi Ana
Na maioria das vezes as pessoas usam o termo por respeito e entendem que vai agradar, nem sempre é por ironia ou por considerar-se inferior.Nesse caso específico o rapaz vê seu trabalho como algo até humilhante _ carregar malas... o que não tem nada ver com humildade,
Bom seria mesmo que fossemos todos 'graduados' na educação,não é?
um ótimo texto Ana,parabéns
um abraço

Felisberto Junior disse...

Olá!Boa noite
Ana Paula
...sim...não tinha pensado nisso... faz sentido registrar essa capacidade dos que se consideram insignificante para a sociedade, exaltar qualquer outro a sua frente usando a palavra doutor, que de certa forma é uma tentativa de relativizar a sua baixa auto-estima pela desigualdade socioeconômica e a falta de ampliação dos seus direitos do cidadão, do ponto de vista das valorações sociais e políticas....porém ,realmente, aponta para que tenhamos um avanço numa ruptura para aqueles que dão mais valor ao caráter de privilégio de certos diplomas, que é o inverso do esperado numa sociedade dita democrática moderna, que, em tese, deveria valorizar o esforço próprio e rejeitar os privilégios. ..
Obrigado pelo carinho da visita
...sim...foram só ideias,parar da blogada, quando estava muito ruim de saúde, mas ,estou bem, já!
Obrigado!
Cuide se bem!
Bela semana
Beijos

Smareis disse...

Oi Ana,
Muito bom esse texto ...Acredito que essa desigualdade social exista em muitos países.
Conheço um oftalmologista que corrigiu um amigo em público só porque não o chamou de doutor.E pior que foram amigo de faculdade.
É muito triste ver pessoas sentir-se inferior a outros que tem faculdades, cargos importante. Conheço tantos que se acha um Deus, quando na verdade não tem nada, a não ser um titulo-zinho.
Uma realidade que deve ser mudada urgentemente.
Deixo um beijo e desejo de uma ótima semana!
Já tem atualização, passa lá.
Abraços!

Ana Bailune disse...

Bom dia, Ana Paula. Acho que ele nem pensa no que diz. Quer apenas ser gentil.

Tina Bau Couto disse...

Meu marido chama as pessoas de doutor para que se sintam importantes, para quebrar o gelo...Uma prática comercial muito usada.

O sentimento de inferioridade do tal moço das malas bem podia ser curado por alguém lhe chamar de doutor penso eu, já que ele pensa assim.

Meu marido ser chamado de doutor penso que também lhe causa particular simpatia

Eu não gosto, me pesa, prefiro ser chamada de moça, menina, coisinha, bichinha, tchuca, passarinha...

Gosto mesmo, na verdade acho que todo mundo gosta, é de ser chamado pelo nome, nada como alguém te chamar pelo nome, é personalizado, cuidadoso, atento.

Sugiro que vc chame o moço do pão de doutor e não se sinta a vontade se não quiser, mesmo depois de tantas descobertas, em ser chamada assim, faça ele tentar te chamar por Senhora, D. Ana, escritora e quem sabe assim ele "desmida" o valor do doutorado, para fazer sentir os outros agradados.

E de muro em muro quebrado, de Berlim a padaria, fazemos as pessoas ficarem mais visíveis, com menos formalidades e mais amabilidades.

Luís Fellipe Alves disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Luís Fellipe Alves disse...

Já fui também doutor. Mas sempre valorizei um tratamento igualitário. Não é porque havia uma faxineira na escola que eu deveria aprontar A bagunça para ela limpar depois.
Às vezes um simples sorriso basta para que a pessoa se enxergue parte desse mundo. Não existe eu aqui de cima e você aí embaixo. Somos eu e você, pisando no mesmo chão, vivendo o mesmo período, respirando esse mesmo ar. Sou humano, você também é. Se sou doutor, esse é você também.

Li, certa vez, um texto de um diálogo entre a patroa e a empregada doméstica. A patroa dramatizou todo um discurso de tratamento igualitário. Mas tratou a faxineira por você, enquanto essa a tratou por senhora - e nem sequer foi corrigida pela mulher.

Não sei que degraus são esses que algumas pessoas insistem em ver, quando na verdade habitamos uma mesma planície.

Excelente texto, Ana Paula!

Beijo.

Lorena Viana, disse...

Sempre que venho me deparo com um texto ainda mais belo, realista e bem editado.
Desigualdade parece algo sem fim, inacabável. É desigualdade de renda, de escolaridade, de gênero e por aí vai...
A realidade que deveria ser mudada.

Estou retornando hoje as atividades no meu cantinho... saudades de passear por aqui!
Beijo grande.

Dama de Cinzas disse...

Eu não ligo muito para esses "adjetivos" que usam para chamar as pessoas. Inclusive o tal querida que muitas mulheres odeiam, eu não ligo. Mas tem uma coisa que passei a não gostar. Quando uma pessoa bem velhinha me chama de senhora. Sinto o peeeeso da idade... rsrs.

Beijocas

Li disse...

Depois de ler os seus comentários e concordar plenamente com eles... sem mais palavras...

Ivani disse...

Olá querida Ana, perdoa a demora em aparecer, ando com alguns probleminhas de "doutora" kkkkk
Quem tem problemas financeiros é porque tem finanças emperradas, então, mesmo sendo emperradas são coisa de "doutora", ou não?
Bom, brincadeiras à parte, sou totalmente a favor da opinião da Tina.
Prefiro ser chamada pelo nome, não gosto nem quando me chamam de Dona. Não sou dona de nada, nem de ninguém! e nem quero ser.
E concordo com voce minha querida, a desigualdade social nesse país está criando um mundo paralelo, de humilhados e desfavorecidos.
Como o menino que voce agraciou com os limões. Tenho muita pena dessa infância perdida, desqualificada e amordaçada.
O problema é tão grande, mas tão grande, que não veremos a solução. Quem sabe seus netos verão. Mesmo que as pessoas comecem agora a pensar e a olhar para os oprimidos, serão muitos e muitos anos até aparecer o resultado.
Um assunto que dá margem a muitos outros, lindamente abordado por voce, que sabe muito bem onde enfiar o dedo para fazer doer.
Beijos, saudade.