sexta-feira, 26 de julho de 2013

Vovozar

Quando eu for avó

Ainda não sei meu neto ( ou minha neta ) se quando tua mãe anunciar a tua chegada e estiver no auge do entusiasmo visitando lojas e sites ( ah! na minha época só lojas físicas mesmo ) para comprar um berço, eu deva lhe dizer "bobagem, deixe disso, compre só o colchão".
Mas eu quando estava me tornando mãe comprei o berço e foi só usado o colchão.
Então após a compra do berço, ela sonhará com o protetor de berço e meus olhos de avó, diante de todos aqueles babados, bordados, botões, se lembrarão que eu também quando fui mãe, comprei um. Um não, dois. Que era pra não enjoar e ter outro quando um estivesse lavando.
Mas aí o bebê começa a se virar, descobre o protetor, coloca um laço na boca e no primeiro espirro alguém sugere ser ácaros que infestam o protetor. Tira-se o protetor, as cortinas, o tapete.
E toda aquela festa no dia de colocar o protetor no berço fica só nas fotos digitais.
Sendo avó, será que acordo tua mãe desse sonho ou não tenho esse direito de privá-la de tão doce ilusão?
Afinal, eu também já sonhei...
Quando eu for avó, eu saberei que  o preço caríssimo do protetor de berço poderia ser trocado por uma caixa de madeira com 150 lápis de cor. Meu neto, isso seria muito mais útil e interessante!
Sendo avó eu também poderia sugerir aos teus pais que pintassem uma das paredes de teu quarto com aquela tinta verde-escuro que transforma a parede em uma enorme lousa ( daquelas de antigamente, não as digitais que você irá conhecer ) e eu poderia comprar duas caixas de giz de professor, uma branca e outra colorida. Passaríamos longas horas desenhando, apagando e desenhando.
Talvez seus pais achem tinta verde- escuro tipo lousa muito destoante da decoração bebê.
É que quando se avó a gente lembra que passa tão rápido os primeiros anos e toda aquela parafernália decorativa - porta-fraldas, porta-pomadas-de-assaduras, porta-lencinho-umedecido, porta-escova-ultra-macia-para-os-cabelinhos que a gente pensa que no lugar de tudo isso poderia haver um palco pra você encenar, declamar, sapatear, brincarmos de teatro de fantoches.
Não sei. Não me decido ainda se devo falar. Talvez eles precisem sonhar.

Sabe, meu neto, eu preciso me cuidar e torcer ( não sei qual é mais importante, porque mesmo me cuidando pode acontecer ) para que eu não tenha diabetes.
Quero te levar para comer algodão doce. Comprarei um branco e um azul. Cores do céu e das nuvens e você escolhe qual vai querer.
E então eu vou te contar uma história de uma amiga que um dia comprou uma nuvem.
Foi assim: ofereceram para ela num anúncio uma nuvem. Estava escrito "Vendo nuvem para encostar a cabeça, único dono"*
O preço era bem maneiro. Porém o moço, dono da nuvem que estava à venda, não aceitava dinheiro. Como pagamento ele queria poesias e uma recita gostosa daquelas que fazer rir o estômago.
Minha amiga trabalhou duro - todos os dias cozinhar e poetar e assim conseguiu comprar a nuvem.
Quando ela recebeu a nuvem e foi recostar a cabeça, aproveitou e deu uma lambida e aí soube que nuvem tem gosto de algodão doce.
Quando eu me tornar avó vou te ensinar, meu neto, a guardar segredo. Algodão doce tem que ser segredo. Mães não gostam que seus filhos comam algodão doce. Ficam muito bravas.
Já as avós, adoram que os netos saboreiem pedacinhos de nuvem. Elas enternecem.

Quando eu me tornar avó, quero levar uma tuba de presente para você lá na maternidade.**
Sei que seu avô vai me alertar que as maternidades tem detectores de metal. Mesmo assim eu levo.
Sua mãe vai empalidecer e assim que eu sair, vai sussurrar que eu deva estar com Alzheimer. E vai dizer que sonha que você seja pianista de um piano de cristal.

E sabe aquelas noites em que você ficar chorando até a madrugada e ela insistir que os manuais dizem que faz mal pegar bebês no colo, dormir juntinhos com eles? Sabe o que eu vou fazer? Vou sugerir que eu te leve pra minha casa para que ela leia os manuais tranquilamente ou participe de fóruns na web que tratem de como tratar bebês chorões da madrugada.
Ficaremos juntinhos, eu, você e o vovô deitadinhos na mesma cama, quentinhos e eu vou te contar outra história. Era uma vez uma mãe que chorava porque os manuais não funcionavam e o filhinho dormia algumas noites com ela num colchão colocado no chão. Todos falavam que aquilo era errado. Que ela iria prejudicar o bebê de tanto pegá-lo no colo. Sabe o que aconteceu com aquele bebê? Ele cresceu, ficou forte, colocou mochila nas costas, foi dormir na casa da tia, da madrinha, depois viajou para outras cidades, foi sozinho morar em outro país e nada de ruim lhe aconteceu por ter dormido juntinho com os pais, ter tido duas chupetas e comido algodão doce colorido. 
Hoje aquele bebê cresceu e é pai de um outro lindo bebezinho que está aqui quentinho...

*Frase de Alexandre Reis/escrevendosemeando
**Inspirado em Vou tocar tuba no meu livro de crônicas, Crônicas Gris.



Este post participa da comemoração de aniversário de quatro anos do blog Pensando em Família. Parabéns!
E parabéns também a todos os avôs e avós!

20 comentários:

✿ chica disse...

Lindo, lindo demais e serás uma avó maravilhosa que sonha e ao mesmo tempo, tem os pés no chão; beijos, de volta,chica

pensandoemfamilia disse...

Oi Ana Paula estou feliz por ter aceito meu convite e nos contar os seus sonhos.
Lindo. Grata.
bjs

disse...

Que maravilhoso! Eu só posso me esforçar pra ser uma mãe um pouco avó. Lindo texto Ana Paula, beijão.

VERINHA TIBURSKI disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Lúcia Soares disse...

Tanta coisa fazemos, preparando o quarto do bebê, e depois nos arrependemos, ou simplesmente vemos que não é nem um pouco necessário. rs
Mas cada um que arrume do seu gosto, e quanto menos nós, os avós, palpitarmos, melhor.
Depois, só nós e os netos, nos entendemos e é por isso que avós são (quase unanimemente) tudo de bom.
Vim a convite da Norma.
Adorei o texto.
Bom fim de semana, Ana Paula.

Marli Borges disse...

Querida Ana Paula,
Que texto lindo, que prosa poética maravilhosa! Quando os netos chegarem, de uma coisa tenho certeza, eles vão, bem cedinho em suas vidas, aprenderem o que é encantamento. Bjs querida.

Dama de Cinzas disse...

Muito bonito seu texto! Não tive vó e não serei avó, então é uma parte que ficou faltando na minha vida.

Beijocas

Orvalho do Céu disse...

Olá, querida Ana Paul
Primeiro fui rindo, quase gargalhando e depois lacrimejando... pela veracidade do seu texto ao nos descrever (sou corujona)...
Tem poucos dias que comemos algodão doce... ainda não tenho diabete... Ufa!!!
Perfeito, tudo com nos diz sobre avós... até um brinco novo eu levei pra filha na maternidade... acredita? E ela me pediu se tinha um quando se preparava pra visita, vai que não tivesse levado? rs...
Ser vó é bom demais e revivemos no tempo e na história algo misterioso de um tempo que não volta mais...
Bjm ainda festivo de paz e bem

Sonia disse...

Lindo texto! eu que já sou avó de 3 netos (duas e um) sei exatamente o que sentes e o que tens vontade de dizer mas deixa que tua filha sonhe, é de sonhos que se faz a vida, ela vai aos poucos perceber que os sonhos são apenas inspiradores e que as modernidades nem sempre são a melhor escolha.
Bom final de semana e Feliz Dia da Avó em potencial!
Abraço!
Sonia

Calu disse...

Doce Ana,
estas considerações saborizadas de nuvens de algodão-doce fofas e mágicas devem ser registradas em álbuns com três vias, guardadas em casas diferentes,garantindo as lindas promessas, jamais esquecidas quando chegar o dia de serem enfim vividas,coloridas, festejadas...:)

Belíssima página-poética esta tua participação.
Bjos,
Calu

VERINHA TIBURSKI disse...

Ana que participação mais fofa, amei esta avó, como já sou avó fui um tempo bem metida assim, claro que fiz o meu papel estraguei ele direitinho...rsrsrs
Sabe que quando ligo para a casa de meu neto ele me diz que esta sofrendo muito de saudades, o difícil mesmo é ficar longe dos netos, se perde muita coisa.
Adorei este seu relato, tenho certeza que seras a vovó muito fofa.
Um lindo domingo. Beijos.

Clara Lúcia disse...

Meu Deus!
Que post mais lindo!!!
Chorei....
Não sou avó mas amaria ser uma avó exatamente assim, sem frescuras, sem futricas e com muito algodão doce!!!

Que lindo, lindo, lindo!!!

Beijos

Amara Mourige disse...

Ana Paula, que belíssimo texto!
Vovós são macias como nuvens e tem a doçura do algodão doce!
Beijos
Amara

Toninho disse...

Muito bonita e interessante esta viagem Ana Paula no dia que for Avó.
Uma participação inspirada com uma otima construção.
Parabens e bela semana de paz e alegria.
Meu abraço de paz e luz.

Moro em um Kinder Ovo disse...

Lindo texto. E deixo aqui a minha sugestão: faça um quarto, do jeito que você sonha, na sua casa. O seu neto vai amar visitar a vovó. E sua nora vai ganhar noites livres para namorar, passear, viajar...E todos viveram felizes para sempre.

Vania Lucia disse...

Ana Paula, chorei... Me emocionei muito porque estou exatamente a uns poucos dias de ser avó...
E tenho pensado em tudo isso.
Que texto, poema, mais lindo e mais real.
Vou comer algodão doce com ele sim, escondido, um segredo entre nós... Amei!
Bjs
Vania
P.S. Posso copiar e mandar para uma amiga?

Tina Bau Couto disse...

Olha você mudando a minha cor predileta de algodão doce. Eu sempre quero o rosa (ainda como algodão doce), para deixar o azul para os meninos e para ter outra cor preferida pois o azul é meu preferido em quase tudo.

Imaginei parar um vendedor de algodão doce a próxima vez que esbarrar com um, comprar, claro, não por o ter parado, mas por gosto mesmo e lhe sugerir que sai um dia ostentando só saquinhos com algodão doce branco e anuncie: Nuvens doces! Nuvens doces!
Já sei \o/
Esse vai ser um dos personagens da minha instalação poética, mas uma das inspirações semeadas por vc e nossa troca de estrelas, nuvens, raios de sol, pingos de chuva, pregadores, cantos de passarinhices, passaversos, sonhos, mãezices e vovozices.

Preciso dizer que amei a postagem?

Cristi@ne disse...

Uauuu Paula... que avó mais prática e criativa... adorei... mtas vezes temos sonhos que são somente ilusões, depois que possuímos o tal desejado, acaba-se a alegria... pq será? Bem, as avós sabem mto a esse respeito, contudo, vale a pena sonhar...

Obg pelo carinho de sua visita e por participar do meu sorteio, boa sorte.
Bjinhos
Cris

Anne Lieri disse...

Ana Paula,que beleza de participação!Será uma avó que todo netinho gostaria de ter!Texto muito lindo,delicado,emocionante,eu amei!bjs,

Luís Fellipe Alves disse...

A gente imagina que tanta coisa pode estar mudada, não é? Mas os momentos mágicos, você fez questão de salvar. Estão nesse texto, que vale a pena ser lido e relido. Lindo!

Abraços de um fã.